por Maria Fernanda Moraes

O escritor e aviador francÊs Antoine de Saint-Exupéry
O escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry

VISITADOAos domingos de carnaval costuma-se escutar pelas ruas do sul da ilha de Florianópolis:

Desceu um avião lá no Campeche

De um tal de Zé Perri

O aviador era maluco

Trouxe um cachorro de PedegriAviadô

É o hino oficial do bloco de carnaval Onodi que desfila pelas ruas do Campeche há 15 anos, mantendo viva a tradição dos pescadores e contribuindo para a divulgação de um fato pouco conhecido pelos brasileiros: as visitas frequentes do escritor e aviador francês Saint-Exupéry – que ficou famoso pelo livro O Pequeno Príncipe – a Florianópolis (SC) nos idos dos anos 1920.

SAINT EXUPÉRY EM FLORIANÓPOLIS

A passagem do francês pelo sul do Brasil teve assim, digamos, ares mais aventureiros. Em 1925, a empresa francesa de correio aéreo Latécoère pretendia estender sua linha até a América Latina. Com a venda de ações a Marcel-Bouilloux Lafont, em 1927, um empresário estabelecido no Brasil, essa empreitada passa a ter um novo nome: Aéropostale.

Assim, várias escalas começaram a passar pela costa do Brasil, o que incluía a cidade de Florianópolis. Essas escalas eram pontos de abastecimento que ficavam em aeródromos com TSF (comunicação sem fio), hangar e uma casa de pilotos.

Como a autonomia de voo era menor naquela época, alguns pilotos franceses pousavam em Florianópolis e foi assim que Saint Exupéry fez amizade com os pescadores locais e ficou conhecido na região como Zé Perri (os ilhéus diziam que era muito difícil pronunciar aquele nome francês).

Não há nenhum museu que oficialize os episódios desta época, mas já foi aprovado pelo Ministério da Cultura o restauro do antigo ‘popote’, que era como os pilotos franceses chamavam o casarão dos pilotos, no campo de aviação.

Casa dis pilotos, em Florianópolis (SC)
Antiga casa dos pilotos, em Florianópolis (SC)

O que mantém viva essa memória é a tradição oral e o trabalho da professora Mônica Cristina Correa, da Fundação Saint Exupery, da Ong Zeperri e Doutora em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo – USP.

Ela explica que uma das hipóteses do nome do bairro Campeche vem dessa relação França-Brasil. “O nome Campeche veio da Ilha, que era utilizada como referência para o pouso. Porém, em francês, este nome parece ‘Camp et Pêche’, que seria ‘Campo da Pesca’. Como era uma vila de pescadores, pode ter acontecido de os franceses trocarem o significado original da palavra”.

Acompanhe alguns pontos do bairro que podem ser visitados:

Aeródromo e Avenida Pequeno Príncipe

Placa da avenida que homenageia Saint Exupéry
Placa da avenida que homenageia Saint Exupéry

A principal avenida do bairro homenageia o seu visitante ilustre, com o nome do seu livro mais famoso. É nessa avenida que fica o antigo aeródromo onde os pilotos pousavam antigamente.

Hoje em dia, uma pedra com uma placa simboliza o marco de passagem de Saint Exupéry por ali e rememora os tempos antigos.

O lugar se tornou uma referência de prática de esportes na região. Há uma ciclovia e pista de caminhada por toda a avenida, que leva à entrada principal da praia do Campeche. O espaço do aeródromo, um enorme gramado, também dá lugar à prática de esportes como rugby e futebol. A Unesco pretende incluir o Campo da Aviação no tombamento da rota da Aviação Postal Francesa.

Riozinho do Campeche

O Riozinho do Campeche é a área próxima à entrada principal da praia e começou a chamar mais a atenção dos turistas de um tempo pra cá. É ali que se concentram surfistas à procura de uma longa onda que, dizem, ser uma das melhores do Brasil, junto com o pessoal do kitesurfe, graças aos fortes ventos que sopram na praia.

Ilha do Campeche

Quem olha da orla consegue avistar a poucos metros da areia uma relíquia arqueológica de milhares de anos. É a Ilha do Campeche (aquela citado logo acima, que servia de referência aos aviadores) que esconde diversas inscrições rupestres existentes.

A ilha é controlada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que limita a 800 pessoas o número de visitantes diariamente. Para se chegar até lá, é preciso pegar um barco que sai tanto da praia do Campeche, quanto da praia da Armação, logo adiante.

A ilha também tem trilhas de cerca de 40 minutos que possibilitam ver mais de perto os desenhos e conhecer o passado pré-histórico do local. Um fato curioso é que apesar do destemor que Saint Exupéry aparentava diante de voos longos, ele recusou, à época, o convite de um amigo pescador para atravessar o pequeno trecho de mar entre a praia e a Ilha do Campeche para conhecer as inscrições rupestres.

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A Ilha do Campeche (Foto Rodrigo Soldon)

Trilha do Morro do Lampião

O morro localizado atrás do Campo de Aviação ganhou esse nome porque os ilhéus subiam até seu pico com lampiões nas mãos a fim de orientar a rota dos aviadores antigamente. Hoje, o lugar é famoso por suas trilhas. O ponto privilegiado de observação da paisagem é a Pedra do Urubu. Pela manhã, é possível ver o nascer do sol no oceano.

Como chegar: o acesso ao morro é feito pela Rua Pau de Canela. Ao avistar a servidão Brasiliano (rua de terra) é só seguir até o final para alcançar a trilha.

Outros destaques

O sul da ilha vem recebendo aos poucos maior atenção dos turistas. Diferente da parte norte da ilha (Jurerê Internacional, Canasvieiras, Ingleses) que tem mais estrutura turística e comercial, o sul zela pelo contato com a natureza, pelo turismo aliado à prática de esportes e, também, pelo lado artístico dos ilhéus.

Alguns pontos que valem ser visitados são a Trilha da Lagoinha do Leste, que leva a uma das praias mais belas de Florianópolis: a Lagoinha do Leste, um dos últimos redutos de Mata Atlântica da ilha, alçada a parque municipal desde 1992; e o bairro Ribeirão da Ilha, que remete à origem da fundação da ilha, em 1526, pelo navegador veneziano Sebastião Caboto.

A freguesia ainda preserva as casas coloridas que revelam a nítida influência arquitetônica e cultural portuguesa, além de ser uma rota gastronômica, com destaque para as ostras.

O Circo da Dona Bilica, empreendimento da companhia Pé de Vento Teatro, também fica no sul da ilha e mantém viva a tradição circense. O espaço tem como anfitriões a Dona Bilica, a famosa “manezinha” interpretada pela atriz Vanderléia Will, a Vandeca, e seu marido, o palhaço Pepe Nuñez.


PARA LER

  • O Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry (Agir)
  • Deca e Zé Perri, de Getúlio Manoel Inácio
  • Voo noturno, de Saint-Exupéry

*Fonte: http://www.zeperri.org/