A entrada da Casa Museu Magdalena e Gilberto Freyre (Foto: Andréia Martins)
Entrada da Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre (Andréia Martins/Roteiros Literários)

VISITADO

por Andréia Martins

Quando comprou a casa localizada na Rua Dois Irmãos, no bairro de Apipucos, na zona norte do Recife (PE), em 1936, o sociólogo e escritor Gilberto Freyre (1900-1987) tinha a intenção de viver a solteirice. Mas não demorou muito para o autor encontrar seu par.

Em 1941, casou-se com Maria Magdalena Guedes Pereira (1920-1997); ele, com 42 anos, e ela, 21, e mudaram-se para sua residência, uma construção colonial do século 18. Antes mesmo de morrer, ele decidiu que o local deveria ser transformado em um museu, a Fundação Gilberto Freyre, hoje chamado de Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre.

A casa seria na verdade uma projeção da pessoa Freyre, como ele mesmo definiu o lar em um texto datado de 1950. “A casa é uma projeção da minha própria pessoa. E não só da minha pessoa, mas também da minha vida, das minhas ideias, das minhas solidões, dos meus mistérios, dos meus sonhos, das minhas memórias, das minhas saudades, das minhas esperanças (…)”.

Após subir os degraus da casa rosada, a sala já diz logo a quem pertence o lugar. São três paredes dominadas por armários repletos de livros. No alto, as mesmas paredes são decoradas com quadros de familiares, como dos pais do autor, e de amigos, entre eles, o também escritor José Lins do Rego. Entre os objetos, a mesa de centro acomoda uma rara edição em prata do livro Os Lusíadas, de Camões.

Na mesa da sala da Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, objetos e livros do escritor estão expostos (Divulgação)
Na mesa da sala da Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, objetos e livros do escritor estão expostos (Divulgação)

 

Entre os objetos, a mesa de centro acomoda uma rara edição em prata do livro Os Lusíadas, de Camões (Divulgação)
Entre os objetos, a mesa de centro acomoda uma rara edição em prata do livro Os Lusíadas, de Camões (Divulgação)

A preservação de objetos, livros e retratos é cuidadosa. Talvez isso se deva, em parte, à dedicação de Freyre ainda em vida ao local, onde viveu com a mulher e os dois filhos. Após a sua morte, em julho de 1987, Magdalena continuou morando no local e trabalhando para que a casa fosse transformada em referência da vida e obra de Freyre, acomodando o que ele chamou de “objetos do cotidiano”.

Cada um dos dez cômodos da casa revela algo sobre o autor, que decorou a casa com objetos e móveis comprados de antiquários. O cômodo seguinte, a sala de jantar, traz azulejos portugueses nas paredes comprados pelo escritor. Estão ali também a sua coleção de cachaças, expostas em móveis de jacarandá, e o conhaque de pitanga colhida no pomar do próprio quintal, cuja receita era passada apenas para os homens da família Freyre.

Na varanda onde ele gostava de receber seus convidados para longas conversas está uma mesa com banquetas de azulejo, presentes da família real portuguesa. Cada azulejo representa uma antiga província do Brasil e é decorado com as armas do império. Sobre o móvel, dois cinzeiros de cerâmica feitos pelo amigo Francisco Brennand.  É neste canto também que vive Chiquito, um jabuti de mais de 60 anos. O animal foi um presente de Brennand ao amigo escritor, que retribuiu homenageando-o no nome.

As peças espalhadas pela casa mostram o interesse e gosto pela diversidade. Imagens sacras católicas, como a de Santo Antônio e São Francisco, se misturam com peças de origem africana, azulejos portugueses com peças da arte popular brasileira, porcelanas orientais com prataria inglesa e portuguesa. Revelam também um Gilberto inusitado: o da coleção de gravatas estampadas, das quais ele não abria mão.

Boneco de Gilberto Freyre, na biblioteca da casa do escritor (Divulgação)
Boneco de Gilberto Freyre, na biblioteca da casa do escritor (Divulgação)

Os guias não sabem precisar quantos livros estão guardados na casa. Mas o fato da casa ter cheiro de livro guardado já dá uma pista. Só de Casa Grande e Senzala são 13 edições diferentes, com dezenas de exemplares cada. A biblioteca repete a cena da sala de estar. É ali que um boneco de Gilberto Freyre fica sentando em uma poltrona, meio de lado e com uma das pernas no braço do assento, sua posição preferida.

Em cada cômodo, o visitante encontra livros do autor, como o de gastronomia e moda, que são surpresa para o leitor menos familiarizado com os múltiplos lados do escritor Freyre – afinal, o que entenderia Gilberto de moda?-, assim como um livro dedicado ao tema viagem.

Do lado de fora, uma trilha de árvores frutíferas plantadas pelo próprio Freyre decora o quintal. Entre elas, as pitangueiras que ele definia como “árvores resistentes e que seguravam o solo”, e a canela, que o visitante pode sentir o cheiro adocicado ao segurar suas folhas. No final das escadas, está o memorial com os restos mortais de Freyre e Magdalena.

Como ele faleceu dez anos antes, dona Maria Magdalena se dedicou a preservar a casa para que ela se tornasse museu. Em entrevista, ela contou que convivia tranquilamente com os restos mortais do marido logo ali do lado. “Eu prefiro ele aqui, que tenho como uma proteção, do que no cemitério. Tenho horror a cemitério e só vou quando não tem jeito mesmo. Acho que ele está feliz em estar no local onde mais gostava”.


Serviço

Onde: Rua Dois Irmãos, 320 – Apipucos, Recife (PE)

Quando: Segunda a sexta, das 9 às 17h (última entrada às 16h)

Quanto: R$5 a R$10

Mais informações: (081) 3441-1733 ou visitas@fgf.org.br

Dica da repórter: Perto da casa — cerca de 20 minutos de carro/táxi — está o Instituto Brennand. Os dois locais são mais afastados do centro do Recife — embora você consiga pegar um ônibus no centro velho até a rua Dois Irmãos — então, se for visitar um, aproveite o passeio para conhecer o outro. Mais informações sobre o instituto, clique aqui