por Andréia Martins

“Quando viajo, meu interesse principal não está dirigido para as pessoas. O que me atrai realmente são os cenários e a arquitetura”. A frase da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop (1911-1979) dá pistas do que a conquistou no Brasil.

A estadia de Bishop no país pode ser dividida em dois momentos: o primeiro entre Rio de Janeiro e Petrópolis, onde ela morou entre 1951 e 1967 com a paisagista e urbanista Lota Macedo Soares, e o segundo em Ouro Preto (MG), por onde passou e manteve uma casa provisória (que existe até hoje, assunto para outro post).

Bishop chegou ao Brasil e 1951 e sua intenção era ficar apenas dois dias. Acabou ficando por 16 anos consecutivos, sem contar idas e vindas esporádicas após a morte de Lota. E foi por causa da brasileira que a norte-americana chegou a Petrópolis. Lota a levou para conhecer a casa que estava construindo no bairro da Samambaia, no sítio Alcobaça, projetada pelo arquiteto Sérgio Bernardes.

Casa construída por Lota, em Petropólis (RJ), onde Bishop morou entre 1951 e 1967
Casa construída por Lota, em Petropólis (RJ), onde Bishop morou entre 1951 e 1967; local está fechado

O encantamento da poetisa pela natureza foi imediato e se intensificou com a declaração do amor de Lota e os cuidados dos brasileiros com sua saúde. “Tudo começou quando experimentei um caju, fruta tropical que achei muito curiosa. Sofri uma violenta alergia ao sumo ácido, a ponto de perder o navio que me levava numa viagem pelo litoral da América do Sul. Depois, os brasileiros foram todos tão bondosos e simpáticos comigo que fui ficando… até hoje”, contou ela sobre o episódio ao jornal Correio da Manhã, de 13 de dezembro de 1964.

Aqui, a poetisa conseguiu se livrar do alcoolismo – mas teve recaídas nas temporadas do casal no Rio, no apartamento na praia do Leme, enquanto Lota trabalhava no projeto do Aterro do Flamengo ao lado de outros arquitetos. No entanto, quem vai até a Casa Grande da Fazenda da Samambaia hoje não pode entrar na residência que um dia foi de Lota, fechada ao público. Mas, observar a casa de longe permite conhecer o ambiente e as inspirações da produção da poetisa no país.

Na foto, a escritora Elizabeth Bishop. Foi durante sua estadia em Petrópolis (RJ) que ela venceu o Pulitzer, comemorado com modéstia em solo brasileiro (Divulgação)
Na foto, a escritora Elizabeth Bishop. Foi durante sua estadia em Petrópolis (RJ) que ela venceu o Pulitzer, comemorado com modéstia em solo brasileiro (Divulgação)

Impressões sobre o Brasil

Educada em colégios de elite, Bishop se apaixonou pelo Brasil, mas não escondia sua incompreensão com relação à pobreza brasileira. Em uma de suas cartas escritas direcionada a uma de suas tradutoras, em 1959, ela comenta suas impressões:

“Estou vivendo no Brasil há quase oito anos, a maior parte do tempo nas montanhas, perto de Petrópolis. Volto a Nova Iorque quando posso, mas aqui é meu verdadeiro lar agora. Como você sabe, é um país estranho, uma mistura dos séculos 18 e 19 com rápida industrialização, terrível pobreza, luxo, preto e branco, o avançado e o primitivo – ainda estou surpresa de me ver vivendo aqui, mas vou ficando”.

Uma de suas histórias mais curiosas em Petrópolis ocorreu quando ela recebeu a notícia de que havia ganhado o prêmio Pulitzer pela sua coletânea North&South – A Cold Spring, em 1956. Ela contou a história em uma entrevista à revista Paris Review, publicada no livro As Entrevistas da Paris Review 2.

Sim, foi muito engraçado. Nós morávamos no alto de uma montanha- um lugar realmente no meio das nuvens. Eu estava sozinha em casa com Maria, a cozinheira. Minha amiga tinha ido ao mercado. O telefone tocou. Era um jornalista da embaixada americana e ele me perguntou quem era, em inglês.

Obviamente, era muito raro ouvir alguém falando em inglês; Ele disse “Você sabe que ganhou o prêmio Pulitzer?”. Bom, eu achei era brincadeira e disse: “Deixa disso”. E ele disse: “Ah, não pode ser”. Mas ele disse que não era brincadeira. Não consegui impressionar Maria com a notícia, mas senti que precisava contar para alguém, então desci correndo uns 800 metros até a casa mais próxima, mas não havia ninguém lá. 

Achei que precisava fazer alguma coisa para comemorar, tomar um copo de vinho ou algo assim. Mas tudo que consegui achar na casa daquela amiga foram uns biscoitinhos americanos, uns biscoitinhos de chocolate horríveis – Oreo, acho –e então acabei comendo dois deles. E foi assim que comemorei ter ganhado o prêmio Pulitzer.

No dia seguinte saiu um retrato meu no jornal vespertino – eles levam essa coisa muito a sério no Brasil –e um dia depois a minha amiga brasileira foi de novo ao mercado. Era um grande mercado aberto com todo tipo de alimento, e havia um vendedor de verduras ao qual sempre íamos. Ele disse: “Não era a fotografia de dona Elizabeth no jornal de ontem”?. Ela disse: “Sim, era. Ela ganhou um prêmio”. E ele disse: “Nossa, é impressionante! Na semana passada, a dona – e disse um nome – concorreu a uma bicicleta e ganhou! As minhas freguesas têm tanta sorte!

 


Para ler

  • As Entrevistas da Paris Review 2 (Companhia das Letras)
  • Conversas com Elizabeth Bishop (Autêntica)