por Andréia Martins


Inaugurado em 1884, o Hotel Chelsea, em Nova York (EUA), chega aos 130 anos como um lugar lendário. Ao longo dos anos, seus quartos, salões, elevadores e corredores testemunharam cenas de todos os tipos protagonizadas por personalidades da música, cinema e da literatura. Aliás, a fama e áurea mítica que o local ganhou deve muito à forma como os escritores retrataram o hotel em livros.

Localizado na 222 West 23rd Street, entre a 7ª e 8ª avenida, no Chelsea, bairro de Manhattan, o  Hotel Chelsea foi o prédio mais alto da cidade de Nova York até 1902. Três anos depois, se tornou um hotel residencial e viu o número de ilustres moradores aumentar. Ali, nomes importantes da literatura moraram, brigaram, celebraram amizades e finais de casamentos, viveram sua última noite e, claro, iniciaram ou deram os rumos finais aos seus livros.

Em 2011, o hotel foi fechado para reforma sob o comando de uma nova administração. Sabe-se que os quartos onde Bob Dylan e Arthur Miller costumavam se hospedar foram demolidos e já estão bem diferentes. Mesmo assim, o prédio vai guardar por muito tempo as lembranças da boemia e das noites em claro de seus mais conhecidos hóspedes. Abaixo, relembramos alguns escritores que ajudaram a colocar o hotel no mapa da literatura.

William Dean Howells (1837-1920)

A áurea mítica do Chelsea Hotel conquistou muitos artistas devido à forma como o escritor norte-americano descreveu o local em seu romance The Coast of Bohemia (1893). No livro, a personagem de uma jovem artista apresenta o hotel não apenas como a as moradia, mas como “o lugar onde eu sonho”. Esse clima conquistou nomes de diversas áreas do mundo das artes.

O hotel boêmio é famoso por ter hospedado astros da música, do cinema e da TV, mas o local deve à literatura boa parte da sua fama
O hotel boêmio, localizado em Nova York (EUA), é famoso por ter hospedado astros da música, do cinema e da TV, mas o local deve à literatura boa parte da sua fama (Divulgação)

Edgar Lee Masters (1868-1950)

Durante o tempo da depressão americana, nos aos 1920, o medo de que o hotel fosse obrigado a decretar falência e fechar suas portas devido às dívidas rondava seus hóspedes e moradores. Muito apegado ao hotel, Edgar Lee Masters escreveu o poema Hotel Chelsea. Um dos hábitos do poeta era observar o movimento da rua e as árvores da janela do seu quarto – hábito que deve ter sido comum a quase todos os hóspedes que tinham suas janelas voltadas para a movimentada rua de Manhattan. Master viveu ali por um bom tempo. Sua primeira mulher não aguentou a vida ‘de hotel’ e acabou indo embora. Diz a história que ele logo arrumou uma companheira no lobby do hotel.

Thomas Wolfe (1900-1938)

Wolfe chegou ao hotel por indicação de Lee Masters. O colega convidou Wolfe para passar uma noite e ele gostou tanto que ficou por uns tempos. No hotel, costumava citar cenas de uma novela em um dos corredores. Tornou-se um dos melhores amigos de um dos gerentes, Purdell Kennedy, que costumava levar uma xícara de café com uísque para o escritor todas as manhãs. O agrado era entregue com a frase “um pouco de cabelo do cão, rapaz?”.

Foi lá, hospedado no quarto número 829, que Wolfe escreveu os manuscritos que resultariam em dois romances póstumos: The Web and the Rock (1939) e You Can’t Go Home Again (1940). A história — um livro é continuação do outro — traz o escritor fictício George Webber como protagonista, personagem inspirado em Wolfe, que sai de uma pequena cidade para se estabilizar na carreira em Nova York, onde acaba se envolvendo com uma mulher casada. Os dois livros seriam grandes inspirações para um futuro morador do Chelsea, Jack Kerouac. Ele deixou o local no verão de 1939. Pretendia voltar, mas foi vítima de um tuberculose.

Placa no Hotel Chelsea em homenagem aos escritores Thomas Wolfe e Dylan Thomas (Divulgação)
Placa no Hotel Chelsea em homenagem aos escritores Thomas Wolfe e Dylan Thomas (Divulgação)

Dylan Thomas (1914-1953)

O poeta galês nascido no ano da Primeira Guerra Mundial transformou o hotel em sua segunda casa durante as idas aos Estados Unidos. Sua primeira estadia no loca foi em 1952, ao lado da mulher Caitlin. Os dois ficavam sempre em um quarto com cozinha no hotel, propício para longas temporadas. No local, Dylan trabalhou na versão final da peça Under Milk Wood (1954), publicada em livro postumamente. Foi de lá também, em 1953, que ele foi levado inconsciente para o hospital Saint Vicent, onde veio a falecer aos 39 anos. Dizem as pessoas que estavam no hotel naquela época que, no dia de sua morte, Dylan bebeu 18 garrafas de uísque. Em homenagem, o hotel mandou fazer uma placa sobre o escritor. Nela está escrito: “Dylan Thomas viveu e escreveu no Hotel Chelsea e daqui ele navegou para a morte”.

Arthur Miller (1915-2005)

Em 1962, um ano após terminar o nada bem sucedido casamento com Marilyn Monroe, Miller buscou refúgio no Chelsea Hotel o quarto 614. Ali, onde ficou por seis anos, ele escreveu a peça After The Fall.  A peça gira em torno de Quentin, um judeu intelectual que reexamina a vida e tenta se decidir se deve ou não se casar com a mulher pela qual está apaixonado. Para muitos, a personagem feminina da peça era inspirada em Marilyn… Sobre o hotel, ele tinha algumas frases curiosas como “Este hotel não pertence à América” ou ainda “Não há aspiradores de pó, nenhuma regra ou vergonha”.

Arthur Miller trabalhando com o diretor Elia Kazan (ao telefone) no Chelsea Hotel, em 1963 (Inge Morath © The Inge Morath Foundation)
Arthur Miller trabalhando com o diretor Elia Kazan (ao telefone) no Hotel Chelsea, em 1963 (Inge Morath © The Inge Morath Foundation)

Brendan Behan (1923-1964)

O escritor irlandês chegou ao hotel em meados dos anos 1960 para tentar evitar a morte devido ao alcoolismo – e após ter sido expulso do hotel anterior por mau comportamento. Sua curta temporada no Chelsea virou peça de teatro, intitulada Brendan at the Chelsea e montada pela irmã do escritor em 2013, em Dublin. Norman Mailer chegou a descrever como via Behan pelos corredores do hotel: um homem “carregando uma imensa fadiga dentro dele”.

Arthur C. Clarke (1917-2008)

Se todos os episódios anteriores não convenceram você de que o Hotel Chelsea gravou seu nome na literatura mundial, este irá: foi naquele hotel que Clarke escreveu o clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço. Ele chegou ao hotel em 1965 e estava comprometido com o trabalho: eram cerca de 2.000 palavras por dia no livro escritor simultaneamente ao roteiro do filme homônimo, dirigido por Stanley Kubrick e lançado em 1968. O livro foi inspirado no conto The Sentinel, escritor por Clarke em 1948.

William Burroughs (1914-1997) e Brion Gysin (1916-1986)

Burroughs já havia passado pelo hotel no final dos anos 1950, onde terminou de escrever Naked Lunch. Em 1965 ele retornou acompanhado do amigo e artista Gysin. A ideia da dupla era trabalhar na “Dream Machine” (máquina do sonho), para criar um efeito psicodélico sem o uso de drogas. Bem, a empreitada não saiu como o esperado. Então, a dupla direcionou os esforços para outro trabalho, o livro The Tird Mind, publicado em 1978. Com textos de diferentes formatos, o livro traz os dois autores usando a técnica cut-up, desenvolvida por Burroughs nos anos 1960.

William S Burroughs e Andy Warhol jantando no Chelsea Hotel
William S Burroughs e Andy Warhol jantando no Hotel Chelsea

Dee Dee Ramone (1951-2002)

Você o conhece da banda Ramones, mas o baixista também enveredou pela literatura, bem ali no hotel com o livro Chelsea Horror Hotel, lançado em 2001, um ano antes de sua morte. Sua estadia no hotel era uma tentativa de se livrar do vício em heroína. Na história, ele se muda para o hotel com a mulher Barbara e o cachorro do casal e começa a receber a visita de personalidades da música que já tinham morrido, como Sid Vicious, Stiv Bators e até o diabo. O livro teve boa crítica e foi a única incursão de Dee Dee pela literatura.

Joseph O’Neill (1964 -)

Entre os autores contemporâneos, o hotel também serviu de moradia. É o caso do escritor irlandês Joseph O’Neill, autor de Netherland – Terra das Sombras. Ele chegou ao Chelsea em 1998, com a mulher, e lá criaram três filhos – ou seja, O’Neill está longe dos tipos boêmios e excêntricos que habitaram o hotel. No livro citado, lançado em 2008, o protagonista Hans busca refúgio no hotel após os ataques de 11/9. A imagem do local, como o próprio autor disse em entrevistas, é a de “um dos últimos fragmentos de uma contracultura”.


*Fontes: The Guardian, Huffington Post, Legends of Chelsea Hotel e Chelsea Hotel Blog.