por Maria Fernanda Moraes

Da direita para a esquerda, Earnest Hemingway e Silvia Beach, a dona da livraria Shakespeare & Company, um dos points frequentados pelos escritores em Paris, nos anos 1920. Foto de 1928
Da direita para a esquerda, Ernest Hemingway e Silvia Beach, a dona da livraria Shakespeare & Company, um dos points frequentados pelos escritores em Paris, nos anos 1920. Foto de 1928

Na última cena de um dos maiores clássicos do cinema, o filme Casablanca, de 1942, a personagem Isla (Ingrid Bergman) pergunta a seu par Rick (Humphrey Bogart): “E quanto a nós?”. “Nós sempre teremos Paris”, emenda ele.

A frase eternizada no filme pode resumir muito do espírito que a cidade desperta em seus visitantes. Mesmo depois de anos do seu apogeu cultural, a capital francesa continua atraindo milhares de visitantes – alguns nostálgicos, mas a maioria curiosa atrás de tanta história e referências.

Hoje em dia há muitos guias no mercado que traçam diversos passeios culturais pela cidade. E como as possibilidades são muitas, neste primeiro post sobre a cidade vamos segmentar um período histórico e abordar os anos 1920, que ficaram famosos pela ocupação na cidade da chamada Geração Perdida, representada por Ernest Hemingway, John dos Passos, o casal F. Scott e Zelda Fitzgerald, Luis Buñuel, Salvador Dalí, Cole Porter, T. S. Eliot, James Joyce, Pablo Picasso, entre tantos outros.

Como a maioria das cidades europeias, sempre que o trajeto permitir, o ideal é que se façam os passeios a pé. A arte de ser um flâneur profissional é perfeitamente aceitável (e exigida) em Paris.

De acordo com alguns guias, o tour completo que visita os locais frequentados antigamente pela Geração Perdida pode ser feito em três dias.

Os Jardins de Luxemburgo (na 6e Arrondissement) são um bom começo para entrar nesse clima. Em seguida, na Rue de Fleurus, no número 27, é possível ver a casa onde viveram Gertrude Stein e Alice B. Toklas, sua companheira. Na fachada do imóvel há uma placa indicando as antigas moradoras.

É uma pena que o mesmo não acontece na Rue de Vaugirard. Ali, no número 58, moraram Scott e Zelda Fitzgerald, mas sem as orientações prévias não seria possível descobrir, já que não há nenhuma indicação no lugar. Nesta mesma rua, no número 33, ficava o American Club.

O bar ficou muito conhecido porque era frequentado por escritores e artistas na época. Há um episódio curioso: foi nesse bar que aconteceu uma luta de boxe entre o escritor canadense Morley Callaghan e Hemingway. Fitzgerald também estava presente e atuou como árbitro da luta, que teve Callaghan como vencedor. Infelizmente o bar não foi preservado e deu lugar a um mercado nos dias de hoje.

Roteiro Ernest Hemingway

Os endereços de Hemingway, aliás, merecem destaque especial. Ele morou em vários lugares e frequentava bares e cafés nas redondezas, acompanhe:

  • Hemingway chegou a Paris em 1921 com Elizabeth Hadley, sua primeira esposa. Hospedaram-se inicialmente no famoso Hotel Jacob et d’Angleterre, na Rue Jacob, número 44. Depois passaram a morar na Rue Cardinal Lemoine, 74, nas proximidades da Rue Mouffetard e da Place de la Constrescarpe. Na praça também ficava o Café des Amateurs. Para escrever, ele alugou um quarto na Rue Descartes, 39 (onde o poeta Verlaine morreu em 1896).
  • O casal esteve nos Estados Unidos para o nascimento do primeiro filho e logo voltaram a Paris, morando então na Rue Notre-Dame-des-Champs, 113, época em que Hemingway passou a escrever no La Closerie des Lilas.
  • Ele também lutava boxe nas horas vagas com Ezra Pound e via corridas de bicicleta no Vélodrome d’Hiver (o mesmo que serviu de prisão para judeus durante a Segunda Guerra).
  • Na Rue de Férou, número 6, o escritor viveu com sua segunda esposa, Pauline Pfeiffer. Um de seus mais conhecidos (e trágicos) romances, Adeus às Armas, foi escrito ali.
  • O 5º andar do número 69 de um prédio da Rue Froidevaux também foi um de seus lares.
  • Depois de alguns livros publicados e com mais possibilidades financeiras, o escritor se hospedava no Hotel D’Anglaterre, o mesmo prédio que abrigou a embaixada britânica antigamente. Apesar de algumas reformas, o hotel ainda mantem uma ou outra coisa original. Hemingway ficava geralmente no quarto 14, o mais concorrido atualmente.
  • Os cafés e restaurantes também estão na lista de lugares do escritor: no Café Falstaff, na Rue du Montparnasse, 42, Hemingway (que tinha fama de brigão) se estranhou com o escritor Robert McCalmon. Na época de vacas magras, ele costumava comer no restaurante Le Pré Aux Clercs, um lugar mais simples na época. Ele funciona ainda hoje no número 30 da Rue Bonaparte.
O Le Pré Aux Clercs, restaurante frequentado por Hemingway
O Le Pré Aux Clercs, restaurante frequentado por Hemingway

Outros escritores & endereços

Na Rue Servandoni, nº 26, William Faulkner morou no último andar, mais ou menos em 1925. Conta-se que ele costumava ficar olhando os Jardins de Luxemburgo, o que resultaria alguns anos depois, na descrição dos jardins em seu romance Santuário.

Na Rue de Bûcherie, nº 37, um lugar muito especial: a livraria Shakespeare & Company. A livraria atual foi fundada em 1951, e seu nome é uma homenagem à lendária livraria homônima dos anos 1920, época em que Sylvia Beach, uma espécie de “madrinha” dos escritores expatriados, atendia aos pedidos de gente como Gertrude Stein, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald. O prédio antigo foi a livraria mais famosa de títulos em inglês em Paris no século passado e teve a honra de ter publicado a primeira edição de Ulysses, de James Joyce.

Na Rue de l’Université, 9 (hoje ocupado pelo Hotel Lenox) ficava antigamente uma pensão onde T. S. Eliot viveu em 1920 e, depois, James Joyce, em 1921.

Brasserie Lipp: era frequentada por artistas, intelectuais, escritora e até atletas famosos desde os anos 20. Há uma história curiosa do lugar: Hemingway era freguês e contam que em 1944 ele entrou no restaurante armado, dizendo que estava ali para libertar todos dos nazistas. Como prêmio, ele recebeu do dono uma garrafa de conhaque. O escritor era fã do pommes à l’huile acompanhadas de salsichas, iguaria que até hoje se encontra no cardápio da brasserie.

O Brasserie Lipp, outro ponto frequentado pela Geração Perdida em Paris
O Brasserie Lipp, outro ponto frequentado pela Geração Perdida em Paris

A Geração Perdida

Os intelectuais dessa época ficaram conhecidos como “Geração Perdida”, termo inventado pela escritora Gertrude Stein para designar uma geração criada com valores e perspectivas que já não significavam quase nada no mundo do pós-guerra, uma geração que precisava se reencontrar.

Paris atraiu os norte-americanos nos anos 1920 porque a vida lá era bem mais barata que nos Estados Unidos e, também, por conta da sua efervescência cultural.

O cubismo, o dadaísmo, o surrealismo são vanguardas daquela época. Outro fator que colaborou foi a bebida, já que na França não existia Lei Seca (vigente na América entre 1919 a 1933).


PARA LER E ASSISTIR

  • E Foram Todos Para Paris – um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia., de Sérgio Augusto (Casa da Palavra)
  • Os Anos Loucos – Paris na Década de 20, de William Wiser (José Olympio)
  • Conto Babilônia Revisitada, no livro 24 Contos, de F. Scott Fitzgerald (Companhia das Letras)
  • Esta valsa é minha, relato semi autobiográfico de Zelda Fitzgerald (Companhia das Letras)
  • Paris é Uma Festa e O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway (Bertrand Brasil)
  • Meia noite em Paris, de Woody Allen (2011)