por Andréia Martins


Ray Radbury, autor de Fahrenheit 451, não era apenas mestre na ficção científica, mas também em relatar as pequenas cenas do cotidiano (Reprodução)
Ray Radbury, autor de Fahrenheit 451 (Reprodução)

Ray Bradbury (1920-2012) é tido como mestre da ficção-científica, principalmente pelos livros Crônicas Marcianas (1950) e Fahrenheit 451 (1953). Mas o escritor norte-americano também se arriscou nos relatos do cotidiano inspirado pelas cenas que viu nas ruas de Dublin, na Irlanda, quando estava escrevendo o roteiro do filme baseado no livro Moby Dick, de Jonh Houston.

O escritor chegou a Dublin em 1953 e se hospedou no hotel Royal Hibernian (que foi demolido em 1983 e hoje abriga um pequeno shopping). Ali, como o próprio escreveu em uma carta ao amigo Dolph Sharp (veja a carta, em inglês, no site da filha de Dolph), se sentia em casa:

Eles são um povo educado e simpático; viver neste hotel é como viver em uma grande família; todos conhecem as meninas [suas filhas] e nos sentimos maravilhosamente em casa. Nas noites de sábado, muito tarde, você ouve dezenas de pessoas andando pelas ruas cantando baladas irlandesas, um som fino, alguns deles bêbados, outros não, e há milhares de cavalos passando a toda hora, grandes animais com ossos pesados ​​e costas grossas, gigantes regulares”.

Quando deixou a cidade, ele não só saiu com o roteiro pronto como reuniu material para contos, peças e livros, inspirado pelo dia a dia da capital irlandesa. A carta segue:

“Dublin é fascinante. Em muitos aspectos é como voltar aos anos 1920. Você adoraria isso, eu acho. TV ainda não pegou aqui. Eles ainda são famintos por filmes e rádio. Filas se formam, por quarteirões, para os filmes. Duas noites seguidas nós tentamos ver O Fio da Navalha e foi impossível. Todos os teatros estão cheios o tempo todo até o teto. Isso faria bem ao coração de Darryl Zanuck [produtor norte-americano], ver as filas que se formam esperando por horas, alguns sabendo que é inútil, mas esperam de qualquer maneira, enquanto os tocadores de acordeão e banjo passam pra cima e pra baixo entretendo as pessoas”.

Um dos locais que inspirou Bradbury foi a Ponte O’Connell, cenário da história The Beggar on O’Connell Bridge (leia aqui), publicada em 1961 com outro nome The Beggar on the Dublin Bridge. A ponte é uma das atrações da cidade e a presença de mendigos não é algo raro. Na maioria das vezes em que o escritor saia do hotel para uma caminhada, ele era abordado por um deles. Mas o problema era mais grave, e também era assunto na carta endereçada a Dolph.

Ponte O'Connell, cenário de uma das histórias de Bradbury (WikiCommons)
A Ponte O’Connell, cenário de uma das histórias de Bradbury (WikiCommons)

“(…) a situação do emprego aqui é muito parecida com os anos 1930 nos Estados Unidos. Aqui, há algumas poucas crianças e homens e mulheres implorando nas ruas, e isso é uma coisa terrível. Não importa o quanto você dá, não é o suficiente. O país inteiro da Irlanda precisa de dez mil dólares no próximo ano para cuidar de seus casos de paralisia cerebral, apenas dez mil dólares, lembre-se, e eles estão encontrando dificuldade para levantar”, comentou o escritor.

Na história de Bradbury, o protagonista é um escritor que está trabalhando em um roteiro e que toda a vez que sai do hotel é seguido por um grupo de pedintes muito animados. Um em particular lhe chama atenção com a cantoria e o acordeão. O protagonista desenvolve uma pequena obsessão pelo desconhecido.

Outro local muito visitado por Bradbury era o Parque St. Stephen’s Green (na Rua Stephen’s Green, Dublin 2), onde ele costumava levar suas filhas para passear. O local aparece no livro semiautobiográfico Green Shadows, White Whale, de 1992, sobre a produção do roteiro de Moby Dick.


Para ler

  • Conto The Beggar on the Dublin Bridge (leia aqui)
  • Green Shadows, White Whale (Perennial Books)