por Maria Fernanda Moraes

Fachada do Cabaret Voltaire, em Zurique (Suíça)
Fachada do Cabaret Voltaire, em Zurique (Suíça). Depois de um período abandonado, no início dos anos 2000 um grupo de artistas ocupou o local, que hoje é palco de intervenções, exposições e outras atividades

Há duas coisas que fazem de Zurique, na Suíça, uma cidade injustiçada pelos viajantes. A primeira é usar a charmosa cidade apenas como uma conexão de voo ou uma parada rápida entre um destino e outro. E a segunda é desconhecer que ali, na zona histórica da cidade, foi o berço de um importante movimento artístico no início do século 20: o Dadaísmo.

Um passeio à pé pela área conhecida como Cidade Velha vai revelando as ruas estreitas, os bondes e as casas do século 16. A arquitetura medieval convive com a natureza do Rio Limmat, que corta a cidade e desemboca no Lago Zurique, de onde é possível avistar os picos nevados dos Alpes.

CABARET VOLTAIRE

Mas é na Rua Spiegelgasse 1, na zona histórica, em que começam a aparecer os primeiros vestígios Dadaístas de uma época que marcou a história da cidade. É nesse endereço que fica o famoso Cabaret Voltaire, criado em  1916, e que inaugurou oficialmente o Dadaísmo.

O local foi fundado pelos escritores Hugo Ball, Tristan Tzara e Richard Huelsenbeck e pelo pintor e escultor alsaciano Hans Arp, e era ao mesmo tempo um clube literário, uma galeria de exposições e sala de teatro, enfim, um lugar livre que permitia experimentações de novas linguagens artísticas, música, dança, poesia e artes.

O cabaré abrigou saraus e exposições de artistas como Wassily Kandisnky, Guillaume Apollinaire, Max Ernst e Paul Klee, grandes nomes do Dadaísmo que, depois, debandaram para a França.

Em 2002, o antigo casarão foi invadido e ocupado ilegalmente por um grupo de artistas e, depois de negociações para legalizar o local, desde 2004 o casarão voltou a sediar exposições artísticas, interpretações e releituras do movimento. No andar superior há um café-bar e um lounge com poltronas.

CAFÉ ODEON

Outro ponto cultural importante na cidade é o Café Odeon, na rua Limmatquai, 2. Com mais de cem anos, o café ainda mantem a decoração original art nouveau, apesar de ter perdido parte do espaço da época em que era frequentado pelos artistas do movimento Dadaísta.

Também vale a pena caminhar pelas ruelas do centro histórico à beira do Rio Limmat. É o que Lênin fazia, segundo dizem. Ele morou por três anos em Zurique numa casa que hoje abriga uma loja de jogos pedagógicos modernos.

Albert Einstein também esteve por lá e deu aulas no Instituto Federal de Tecnologia no início de sua carreira. Outros escritores como Thomas Mann e James Joyce também tiveram sua temporada literária na cidade. Todos eles, e dizem que até Benito Mussolini, estiveram nos bancos do Café Odeon.

O Café Odeon, outro ponto do roteiro dadaísta na cidade suíça
O Café Odeon, outro ponto do roteiro dadaísta na cidade suíça

 


Sobre o Dadaísmo

O Dadaísmo foi um movimento de crítica cultural mais ampla, que negava as experiências formais da arte até então. Era um movimento radical de contestação de valores e as manifestações dos grupos dada são intencionalmente desordenadas e pautadas pelo desejo do choque e do escândalo, procedimentos típicos das vanguardas de modo geral.

Curiosidade

O termo dada pode ser encontrado numa consulta a um dicionário francês, romeno, alemão ou italiano. Entretanto, o seu sentido original, “cavalo de brinquedo”, não tem relação direta com a escolha, que foi aleatória (princípio central da criação para os dadaístas), contrariando qualquer sentido de eleição racional. “O termo nada significa”, segundo Tristan Tzara.


PARA LER

  • Sete Manifestos Dada, de Tristan Tzara