por Andréia Martins

Muita gente pensa que os escritores norte-americanos Thomas Wolfe (1900-1938) e Tom Wolfe (1931-) são a mesma pessoa. Trata-se de um erro por livre associação. O segundo está em atividade e é considerado um dos fundadores do new journalism, enquanto que o primeiro, tema deste post, foi um dos mais importantes romancistas dos EUA, contemporâneo de William Faulkner, para quem Wolfe poderia ter sido o principal nome de sua geração se não tivesse morrido tão cedo.

Thomas Clayton Wolfe morreu aos 38 anos de idade. Deixou dezenas de textos, a maioria publicada em livros póstumos. Em sua cidade natal, Asheville, na Carolina do Norte (EUA), um museu na casa-pensão em que ele viveu quando pequeno abriga pertences, lembranças dos tempos de criança e do início da carreira de escritor no Memorial Thomas Wolfe.

A casa onde funciona o Memorial Thomas Wolfe
A casa onde funciona o Memorial Thomas Wolfe

Quando o escritor nasceu, em 3 de outubro de 1900, a família toda — seus pais e mais seis irmãos– moravam na casa número 92 da Woodfin Street. A casa onde funciona o memorial chegou às mãos dos Wolfe apenas seis anos depois.

A casa foi erguida em 1883 por um banqueiro local. Em 1900, passou para as mãos do reverendo Thomas Myers, que a apelidou de “Old Kentucky Home”, em referência ao seu Estado natal. Ao longo dos anos a casa passou por várias reformas. Dos sete cômodos da construção original, ganhou onze novos quartos em 1890, quando começou a funcionar como uma pensão.

Contrariando o marido, W.O. Wolfe, Julia E. Wolfe, mãe de Thomas, comprou a casa em agosto de 1906, pensando em fazer dela um investimento para a família. Construiu mais onze cômodos e alugava os quartos para viajantes. Thomas era o único dos irmãos a ir para a casa-pensão com a mãe. O pai fazia rápidas visitas, mas não deixava a casa da Woodfin Street, há poucos quarteirões da outra.

Com problemas na perna, Julia parou de ir à casa da família e decidiu se estabelecer apenas na casa-pensão. Ela ficou e cuidou da casa até sua morte, em 1945. Thomas Wolfe só deixou o local aos 15 anos, quando partiu para estudar em outra cidade, Chapel Hill, no mesmo Estado. Retornava para visitas frequentes. A última vez que ele esteve na casa foi em 1937, um ano antes de sua morte.

A casa está na lista de Lugares Histórico da Carolina do Norte (NCDAH). Segundo os administradores, se retornasse hoje ao local, Thomas não veria muitas diferenças da casa dese a última vez que esteve lá.

Com visitas guiadas, o visitante revê objetos –como a máquina de datilografar que pertenceu ao escritor–, fotos, pertences, um vídeo que mostra os tempos de Thomas na casa e móveis usados pela família. As camas do quarto do pai e do irmão do escritor são as mesmas em que ambos morreram.

Pôsteres feios pela cidade de Asheville para o centenário de Wolfe, em 1999
Pôsteres feios pela cidade de Asheville para o centenário de Wolfe, em 1999

O local também realiza diversas atividades literárias. A programação e as informações sobre horários e dias de visitação são atualizados semanalmente no site do memorial.

Depois de visitar a casa, a última parada pode ser no Riverside Cemetery (na Birch Street, 53), onde Thomas Wolfe está enterrado.

A casa nos escritos de Wolfe

Wolfe tem, entre outras características, uma fixação pela memória e pelo passado em seus textos. Por isso, retornar ou fazer referências ao seu antigo lar nos livros não chega a ser uma surpresa, assim como suas descrições detalhadas dos sons e cheiros de locais por onde passou.

Tom e a mãe, Julia, em frente à casa apelidada de Old Kentuchy Home, poucos meses antes de sua morte, em 1938 (Arquivo NCDAH)
Tom e a mãe, Julia, em frente à casa apelidada de Old Kentucky Home, poucos meses antes de sua morte, em 1938 (Arquivo NCDAH)

A casa de Asheville foi personagem da principal obra de Wolfe, Look Homeward, Angel, publicada em 1929. No livro a cidade natal do personagem ganha o nome de “Altamont”, e a casa da família foi apelidada de “Dixieland”. Lá, o personagem Eugene Gant (inspirado em Wolfe) mora com os pais (também inspirados nos pais do escritor) e descreve a vida e acontecimentos da cidade e seus moradores.

A forma como o autor descreveu o cotidiano e os personagens da cidade “fictícia” não foi bem vista pelos residentes de Asheville. Wolfe recebeu várias cartas com críticas e até ameaças de morte. Depois, a cidade aproveitou a fama e o turismo que o livro –e seu escritor mais famoso– lhe renderam.

A jornada de Wolfe para conseguir publicar Look Homeward, Angel foi longa e só chegou ao fim quando ele encontrou o editor Maxwell E. Perkins. Os cortes feitos por Perkins no livro deram outro tom à história. A principal mudança foi no tom do protagonista, que perdeu seu ar de herói. Tudo feito com a autorização de Wolfe. Ele avisou aos familiares que todos estariam, uns de forma mais explícita que outros, expostos no livro. Do lado da família, todos reagiram bem, mesmo sua mãe, retratada de forma dura no texto.

Em outro livro, o póstumo You Can’t Go Home Again, publicado em 1940, Wolfe volta a falar da relação de um escritor, o personagem George Webber, com a sua cidade natal. Pouco antes de morrer, ele escreveu um texto especial que foi publicado na edição de maio de 1937 do The Asheville Citizen-Times. Intitulado Return, nele o escritor falava sobre voltar para casa:

E outra vez, e de novo, na velha casa sinto debaixo dos meus pés o rangido da velha escada, o trilho desgastado, as paredes esbranquiçadas, a sensação de escuridão e a casa dormindo, e eu penso: eu fui uma criança aqui; aqui estão as escadas e aqui a escuridão; este era eu, e aqui está o Tempo” (tradução livre de um trecho do texto Return)

SERVIÇO

Se você for a Asheville, um bom guia de pontos para visitar você encontra no site Explore Asheville. Lá você pode montar sua programação, incluindo a visita ao Memoria Thomas Wolfe. O memorial funciona das 9h às 17h, de terça a sábado, e o ingresso custa US$ 5. Mais informações no site: http://wolfememorial.com/

Outros roteiros do escritor

Thomas Wolfe morreu jovem, mas conseguiu visitar muitas cidades. Além de Nova York, onde ele teve uma memorável estadia no Chelsea Hotel, o que lhe rendeu até uma placa no local (leia o post sobre os escritores que passaram pelo Hotel Chelsea), ele esteve em Greenville (Carolina do Sul, EUA), Saint Louis (Missouri, EUA), Paris (França), Munique e Berlim (Alemanha), Inglaterra, entre outros.

Esses lugares costumam ser escolhidos para os encontros anuais da Thomas Wolfe Society (clique aqui), que acontecem sempre em maio. A programação dos encontros e publicações sobre o ator estão disponíveis no site da TWS.