O poeta apelidou carinhosamente seu lar de "Casa da colina"
O poeta apelidou carinhosamente seu lar de “Casa da colina”

VISITADOA rua Macapá, no bairro de Perdizes, em São Paulo, continua íngreme como na época em que vivia por lá o poeta e jornalista Guilherme de Almeida. “A estrada sobe, para, olha um instante, e desce” (do poema Dez Versos para a Casa da Colina). 

Os arredores, entretanto, são outros. Casarões reformados, com arquitetura de linhas retas e muros altos fazem com que o sobrado de paredes amarelas cercado por muros baixos e arredondados se destaque ainda mais na vizinhança atual, remontando ao tempo em que ele fazia sucesso na rua por ser uma das primeiras casas construídas.

Com projeto arquitetônico de Silvio Jaguaribe Eckmann, o sobrado que foi lar do casal Guilherme de Almeida e Belkiss Barrozo do Amaral com o filho Gui, entre 1946 e 1969, funciona hoje como um museu-casa, preservando os móveis originais, a decoração e todo o acervo de livros e obras de arte do casal. O museu Casa Guilherme de Almeida é uma instituição da Secretaria de Estado da Cultura, administrado em parceria com a Poiesis – Organização Social de Cultura.

Pelo metrô Sumaré, é possível chegar à pé até o museu, depois de uma caminhada de quase 10 minutos, descendo em direção à rua Cardoso de Almeida. A rua Macapá é tranquila, arborizada, e também há vagas para estacionar ali na rua se a opção for ir de carro.

A primeira coisa que se vê ao entrar pela porta principal do sobrado, que dá acesso ao hall da casa, é o quadro de Lasar Segall, que fica exatamente na mesma posição na parede da decoração original, escolhida pelo casal.

Esse é o momento exato do estalo. Sabe como é? Aquele estalo que funciona como uma espécie de máquina do tempo, como naquela cena do Titanic em que a câmera está passeando pelos destroços do navio e, de repente, se escuta os violinos e é como se aquele tempo glorioso se materializasse ali na sua frente de novo.

A sala de estar do sobrado, onde eram realizados os famosos saraus
A sala de estar do sobrado, onde eram realizados os famosos saraus

É exatamente essa a sensação de teletransporte que se tem ao entrar na sala de estar da casa. Enquanto você se encanta com os retratos de Baby pintados por Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral num lado da parede, os olhos percorrem inconscientemente os bibelôs e enfeites, muitos deles presentes de amigos do casal.

Há todo tipo de objeto pela casa: desde um buda sob a mesa de jantar – que, segundo contam, Guilherme não saía de casa sem antes passar a mão pelo buda, como uma superstição – , até pratos de cerâmica, cristais e porcelana chinesa.

Ao desviar da mesinha de centro da sala, a cabeça parece dar um nó: o sofá está ali, acolhedor, te chamando para se sentar e esperar que algum artista modernista entre pela porta ao anoitecer para participar dos famosos jantares e saraus promovidos pelo casal.

Noites animadas na Casa Guilherme de Almeida

O poeta Paulo Bonfim, amigo íntimo de Guilherme e frequentador assíduo da casa, conta que as noites eram realmente animadas por ali. Tarsila e Anita, Victor Brecheret, Di Cavalcanti e Noêmia Mourão declamavam poesias, tocavam instrumentos e discutiam muita arte e política naqueles sofás.

No piso térreo também fica exposta uma importante escultura de Victor Brecheret, a Sóror Dolorosa, exposta na Semana de Arte Moderna de 1922, que tem o mesmo nome de um poema de Guilherme, que está no Livro de horas de Sóror Dolorosa.

É nesse piso também que estão a sala de jantar, um jardim de inverno e uma pequena sala de leitura, no recuo da sala de jantar, onde ficam alguns livros raros de Guilherme.

O jardim de inverno
O jardim de inverno

No andar de cima fica o quarto do casal, outro deleite para os olhos do visitante. A cama, impecavelmente arrumada com colcha de babados, parece ainda esperar os donos ao anoitecer, rodeada de poltronas forradas com tecido floral e pela caminha do cachorro, que dormia ali no quarto com Guilherme.

O poeta era apaixonado por animais, teve vários cachorros da raça pequinês e ainda restam algumas fotos deles espalhadas pela casa. As cortinas claras peneiram a luz do sol que entram nas janelas, assim como faziam desde 1946. Segundo contam os educadores, o poeta sempre estendia a bandeira do Brasil na janela do quarto e a trocava pela bandeira de São Paulo a cada 9 de julho.

Quarto do casal
Quarto do casal

Alguns cômodos da casa não foram mantidos, como o quarto de vestir que fica ao lado do quarto do casal e onde hoje funciona o escritório do museu. Os aposentos do filho e a cozinha também sofreram alteração e não fazem parte da função expositiva do museu.

A mansarda

Quase despercebida, antes da entrada no quarto do casal, fica uma porta estreita e branca, que quase se confunde com a parede. Ali, atrás da porta, se esconde o caminho para o lugar mais lúdico da casa. Uma escada, não menos estreita que a porta, leva até a mansarda, o escritório e lugar preferido de Guilherme, num andar superior da casa.

Os degraus de madeira vão rangendo à medida que se aproximam do ponto mais alto da casa e logo apresentam ao visitante não só o refúgio criativo do poeta, mas uma vista sem igual do bairro do Pacaembu, emoldurada em uma janela de pouco mais de um metro de largura.

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Mansarda (crédito: Luana Nucci)

Segundo contam os educadores, a mansarda não estava no projeto original da casa, mas foi feita sob a encomenda de Guilherme, que queria um estúdio num ponto elevado. Era ali onde ele tinha uma visão ampla do horizonte, observava o céu  com a luneta que ainda permanece ali próxima à janela.

A sua mansarda era o contraste das alturas com o lado mais terrestre da banalidade cotidiana que ele deixava pra trás à medida que subia a escada.

Guilherme tinha um escritório no centro da cidade e passava o dia todo lá. À noite, a mansarda era seu refúgio. Além de prateleiras de livros, do capacete e armas usados por ele na Revolução Constitucionalista de 1932, a mansarda ainda abriga objetos curiosos como uma pia com torneira que fica escondida sob um armário, sua garrafa de whisky e cinzeiro, e um pequeno sofá embaixo da janela, que acolhia o poeta quando a madrugava se adentrava.

No centro do escritório, sob uma mesa de madeira encoberta por uma redoma de vidro que também expõe bibelôs, canetas, punhais de abrir cartas e outros pequenos cacarecos, ainda reina absoluta a sua Remington Rand portátil com estojo, a máquina de escrever usada por Guilherme de Almeida a partir dos anos 50, com a qual ele escreveu grande parte de sua produção literária.

Na parte externa da casa, o quintal ainda mantém um detalhe que sensibiliza os visitantes. Guilherme era apaixonado por cachorros e teve vários da raça pequinês. O último deles, de nome Ling Ling, está enterrado no quintal, com direito a lápide e tudo. Segundo consta, Ling Ling morreu um ano depois do dono, em 1970, e ficou para sempre tomando conta da casa.

Mansarda, o refúgio do poeta (crédito: Luana Nucci)
Mansarda, o refúgio do poeta

O quintal também foi adaptado para receber eventos, exposições, palestras e oficinas promovidos pela casa, que são divulgados frequentemente pelo site.

Acesse aqui a programação periódica da Casa Guilherme de Almeida

O museu também é hoje um centro de estudos e difusão de trabalhos qualificados de tradução, um dos pilares da carreira de Guilherme.

O Centro de Estudos de Tradução Literária existe desde 2009 e promove oficinas e ciclo de palestras na área. E, também, a partir de 2012, o Centro de Estudos passou a participar do Programa de Residência de Tradutores no Brasil instituído pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN). CasaGuilherme6


Horário de funcionamento do museu:

– Visitação: de terça-feira a domingo, das 10h às 18h.

– Atividades culturais e educativas: de terça a sexta-feira, das 19h às 21h, e aos finais de semana, das 10h às 19h (consultar programação).

As visitas são sempre orientadas por educadores e podem ser agendadas ou espontâneas. São realizadas para grupos de no máximo 40 pessoas.

Guilherme de Almeida, poeta modernista e muito mais

Ele escrevia crônicas sobre a cidade de São Paulo nos jornais. Explodia em poesias. Fazia crítica de cinema, uma de suas paixões.

Era tradutor, jornalista, advogado, foi soldado na Revolução de 1932, desenhista responsável pela cada da Revista Klaxon e atuou decisivamente na realização da Semana de Arte Moderna de 1922, ao lado de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti e Menotti del Picchia, entre outros.

PARA LER

  • Pela Cidade, de Guilherme de Almeida (Martins Fontes)
  • Margem, de Guilherme de Almeida (Annablume)