por Andréia Martins

O que têm em comum os poetas italianos Torquato Tasso (1544 – 1595) e Aniello Califano (1870-1919), o dramaturgo norueguês Ibsen (1828 – 1906), o poeta britânico George Byron (1788-1824), o russo Leon Tolstoi (1828-1910) e Charles Dickens (1812-1870)? Esses e outros homens das letras passaram temporadas inspiradoras em Sorrento, comuna italiana localizada na região da Campania, província de Nápoles e perto de Pompeia, grudada na Costa Amalfitana e a meia hora de barco da ilha de Capri. Cada um, em períodos diferentes (exceto Tasso, nascido lá), aproveitou a beleza do local para buscar alguma inspiração.

Um homem em especial, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filólogo, filósofo e escritor alemão, também viu em Sorrento um lugar especial, onde poderia encontrar renovação física e intelectual. A história curiosa e conhecida por poucos é contada no recém-lançado livro Nietzsche na Itália – A Viagem que Mudou os Rumos da Filosofia (Zahar), de Paolo D’iorio, especialista na obra do alemão. O mistura relato de viagem, biografia e filosofia, e estreia bem, com cartas, depoimentos e trechos de livros, a relação que essa viagem teve na produção filosófica de Nietzsche.

Leia um trecho do livro Nietzsche na Itália
Leia um trecho do livro Nietzsche na Itália

Voltemos a 1876. Nietzsche tinha 32 anos e lecionava na Universidade da Basileia, na Suíça, cargo pelo qual ele já não manifestava muito apreço na época. Com um pedido de licença prolongada, o alemão aceita um convite da amiga condessa Malwida von Meysenbug, para acompanhá-la numa viagem rumo ao sul da Itália que deveria durar a temporada 1876-1877.

Depois de tirar alguns dias de descanso para embarcar na viagem, o primeiro contato com a região sul aconteceu na chegada a Nápoles, em 25 de outubro. Em cartas pesquisadas por D’iorio, Malwida comenta que nunca tinha visto Nietzsche tão feliz. Ele mesmo corrobora essa visão em anotações feitas cinco anos depois, em 1881, ao relembrar um passeio por Posillipo, uma área residencial na costa de Nápoles: “Como posso ter suportado viver até agora!”.

Ali, Nietzsche desenrolou a parábola do espírito livre, escreveu Humano, Demasiado Humano (publicado em 1886) e cujas experiências seriam abordadas em Assim Falou Zaratustra (1883-85) e Além do Bem e do Mal (1886), marcando ainda, seu rompimento com o pensamento wagneriano.

A REGIÃO DE SORRENTO

 As ruas estreitas de Sorrento, uma das características da região

As ruas estreitas de Sorrento, uma das características da região

Não é difícil entender porque o alemão se encantou com a região, chegando a dizer que o norte da Europa havia sugado toda a sua juventude. Naquela época, Sorrento era uma aldeia de pescadores que começava a atrair turistas. Hoje, é um dos principais pontos turísticos do sul da Itália.

Ao chegar em Sorrento, Nietzsche ficou hospedado em uma pensão na Villa Rubinacci. Dali, de um lado a vista dava para o mar, as ilhas de Ischia, Nápoles e o Vesúvio; de outro, uma trilha que levava a um bosque. D’iorio escreve que ali naquela cidade Nietzsche encarnou pela primeira vez o papel de viajante. Muitas anotações sobre os lugares que ele viu serão feitas apenas meses após a viagem, reunidas nos chamados “Papeis de Sorrento”, que estão nos Arquivos de Weimar.

Entre os passeios do grupo (além de Malwida, faziam a viagem Paul Rée, amigo de Nietzsche, e Albert Brenner) estavam as visitas ao casal Richard e Cosima Wagner no luxuoso Hotel Vittoria, e às comunas Castellammare di Stabia, Vico Equense, Meta, Massa Lubrense (na fronteira com Sorrento) e San’t Agata sui Due Golfi, além de idas a Nápoles, Pompeia e Capri.

Foi em Nápoles, por exemplo, durante o carnaval, que o alemão viu uma da cenas mais impactantes da viagem. Ao caminhar por uma rua, observou na rua lateral um cortejo fúnebre em pleno carnaval. Isso ficaria em sua cabeça por anos.

COMO CHEGAR

Se você estiver em Nápoles, Pompeia ou Herculano pode utilizar os trens da Circumvesuviana, que ligam essas cidades a Sorrento. Outra opção são os ônibus da Curreri, que levam ao aeroporto mais próximo em Nápoles (cerca de 1h30) e a Roma (tempo estimado em 3h30)

A ILHA DE CAPRI

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Na ilha de Capri, a visita à gruta “del Matromonio” (também chamada “grotta do Matromania” ou de “Mitromania”) marcaria o filósofo. Trata-se de uma cavidade com 30 metros de comprimento e 20 de largura, com uma altura média de 10 metros. Dos restos arqueológicos encontrados não ficou claro a qual dos deuses foi dedicada na Antiguidade, mas é certo que o lugar tinha uma função sagrada. Alguns atribuem à gruta o culto do deus Mitra.

Sobre a gruta, Nietzsche escreveria pensamentos soltos, um ano depois de sua volta de Sorrento (a viagem para ele acabou em maio de 1877, antes do que gostaria Malwida), em um caderno com anotações biográficas, como “Mitromania. – Esperar o surgimento do primeiro raio de sol – contemplá-lo enfim e – zombrar dele e dissolver-se.” ou “Grotta di Matrimonio, quadro idílico da vida inconsciente”.

Os conhecimentos da gruta e dos rituais que supostamente era feitos ali para o sol inspirariam a abertura de Assim Falou Zaratustra, que começa com o protagonista dialogando com o sol, e também Além do Bem e do Mal, onde ao falar sobre crueldade religiosa, Nietzsche relembra a história do sacrifício humano realizado na gruta pelo imperador Tibério.

Com formação calcária, Capri está repleta de grutas. Elas somam-se às atrações principais da ilha,  junto com a bela vista que se tem do Mar Mediterrâneo.

Os principais pontos de embarque para Capri são em Sorrento e Nápoles, sendo que neste existem dois, Molo Beverello, de onde partem os aliscafi, e Calata di Massa, de onde partem as balsas e os barcos rápidos. Durante o verão funcionam linhas extras.

A ILHA DE ISCHIA

Entre as ilhas visitadas pelo alemão, Ischia seria sua inspiração para as “ilhas bem-aventuradas” de Assim Falou Zaratustra. No livro, as ilhas bem-aventuradas são o local onde vivem os discípulos de Zaratustra. Ele mesmo cogitou morar lá com a irmã, mas a ideia foi abortada após um terremoto devastar a ilha em julho de 1883. Nietzsche dizia que algo em Ischia o tocava “pessoalmente, de maneira assustadora e que me é própria”.

Fundada no século 8 a.C., a ilha foi o primeiro território italiano dominado pelos gregos. O clima, a vegetação de solo fértil e sua natureza vulcânica impressionaram Nietzsche. Escrevendo sobre ideias que marcavam um desligamento da tradição, nada mais forte do que situar essa mudança numa terra onde a energia provém do solo vulcânico. Nas palavras do filósofo: “Em terreno vulcânico, tudo prospera”.

A viagem a Ischia, dependendo do ponto de partida de Nápoles e da embarcação que você usar, dura de 35 minutos a 1h15.

CURIOSIDADE…

Outra cidade italiana presente na vida de Nietzsche foi Gênova. Foi lá que o filósofo viu o mar pela primeira vez. Além disso, livros como “Aurora” e “A Gaia Ciência”, de sua autoria, estão associadas a cidade e seus arredores.

 


 PARA LER

  • Nietzsche na Itália, Paolo D’iorio (Zahar)
  • Humano, Demasiado Humano, Friedrich Nietzsche (Companhia das Letras)
  • Assim Falou Zaratustra, Friedrich Nietzsche (Companhia das Letras)