O jornalista João Correia Filho
O jornalista João Correia Filho

 


Aqui no Roteiros Literários uma das nossas premissas é escrever sobre lugares que nos encantem, que nos tragam empatia ao visitá-los ou que nos despertem curiosidade ao ler sobre eles. Juntando isso a uma das máximas universais das viagens – que elas sempre te transformam de alguma forma e te abrem para conhecer novas pessoas e culturas – decidimos que seria mais do que justo abrir esse espaço para amigos que conhecemos nessa pequeno tempo de existência do site ou que carregamos pela vida.

É o caso do jornalista João Correia Filho, que por uma sincronicidade quase cartesiana, conhecemos através de seu livro “São Paulo, literalmente – uma viagem pela capital paulista na companhia de grandes escritores” (Editora Leya), que foi lançado praticamente ao mesmo tempo que o Roteiros Literários. Feito o convite, ele topou contar um pouco da sua história e da forte relação entre viagem & literatura na sua vida.

João é jornalista freelancer desde 1999 e, desde então, viaja e faz reportagens. “Com o tempo, a literatura, uma de minhas grandes paixões, passou a ser tema da maioria dessas reportagens. Quando fui ao Monte Roraima, li O mundo perdido, de Conan Doyle, que se passa lá; quando fui a Sevilha, fiz uma reportagem sobre a cidade a partir do livro Sevilha Andando, do João Cabral de Melo Neto; quando visitei a região de La Mancha, na Espanha, fiz uma reportagem sobre a rota de Dom Quixote. Ah…e minhas primeiras reportagens como freelancer, logo que mudei-me pra São Paulo, em 1999, foram sobre o Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa, outra grande paixão literária”, contou.

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O livro São Paulo, literalmente, faz parte de uma série que traz mais dois outros livros: Lisboa em Pessoa – guia turístico literário da capital portuguesa e À luz de Paris – guia turístico literário da capital francesa.

Ele conta que tudo começou numa viagem para Lisboa onde descobriu o livro “Lisboa: O que o turista deve ver” (Editora Companhia das Letras), um texto em prosa, bem descritivo, escrito por Fernando Pessoa que ele havia feito para divulgá-la na Europa.

Esse, aliás, é seu ponto de partida. “Quando estou sem ideias pra pauta, durante as viagens, vou pra uma livraria e vejo se me ocorre uma ideia. Foi o que rolou. Quando vi este livro resolvi fazer uma reportagem de Lisboa sob os olhos de seu maior poeta. A reportagem foi crescendo, crescendo e me deu um click: ‘Mas por que não fazer um guia de viagem de Lisboa com base no Fernando Pessoa?’ Pimba! Ofereci-o para a Editora Leya e felizmente, para minha surpresa, o projeto foi aceito imediatamente e assim surgiu meu primeiro guia turístico literário. A ideia deu tão certo (esse primeiro livro foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti 2012, na categoria turismo) que a Leya resolveu transformar em uma coleção.

Novas descobertas & novos olhares a velhos lugares

São Paulo, literalmente traz 11 itinerários da cidade: o triângulo Histórico, onde foi fundada a Vila de Piratininga, em 1554; o centro expandido, que inclui bairros como República, Bixiga, Liberdade e Luz; a Avenida Paulista, Consolação e Higienópolis;  e as demais áreas da cidade: zona Leste (Brás e Belém), zona sul (Vila Mariana e Ibirapuera), zona oeste (Pinheiros, Vila Madalena, Perdizes, Pompéia, Lapa e Barra Funda) e zona norte (com destaque para o Pico do Jaraguá).

Logo na abertura do livro, João dá uma pista do que vem pela frente: conhecer São Paulo acompanhado dos melhores cicerones que alguém pode imaginar: os nossos escritores Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e Mário de Andrade (os três que têm grande destaque no livro) e ainda textos de padres jesuítas, como José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, passando por expoentes do século XIX, como Castro Alves e Álvares de Azevedo, seguindo para o século XX, com Alcântara Machado, Monteiro Lobato, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, até chegar a escritores da nova safra, que se destacaram a partir dos anos 2000, como Luiz Ruffato, Bruno Zeni e Marçal Aquino.

Além de um projeto gráfico de extremo bom gosto alinhado a fotos exuberantes e sensíveis (do próprio autor), o livro tem várias peculiaridades que fazem tanto os  visitantes se apaixonarem pela cidade quanto os moradores se reencontrarem com a beleza perdida na cadência cotidiana.

O primeiro capítulo, por exemplo, é dedicado à história de São Paulo e à literatura, fazendo esse paralelo de dependência entre as duas. As páginas desse capítulo se alternam entre azuis e brancas. Nas azuis, à esquerda, um pouco de história; e nas brancas, à direita, literatura, de modo que o leitor pode optar por lê-las na sequência ou não.

O guia de sobrevivência ao final do livro é outro ponto alto. Trata-se não apenas de um pequeno manual prático com dicas para se locomover, conhecer os principais eventos da cidade, onde ficar, sites, endereços e telefones úteis. O  autor indica restaurantes e conta um pouco da relação deles com a cidade, como é o caso do Ponto Chic e o famoso sanduíche de Bauru, fala da importância das unidades SESC na cultura paulistana, enumera as músicas que cantam a cidade e dá destaque a um grande nome compositor paulista, Itamar Assumpção, na clara tentativa de criar ou reaproximar os laços sentimentais com a metrópole.

As sacadas do autor não param por aí: antes de cada itinerário, há uma série de símbolos para facilitar a visualização de informações importantes aos viajantes, como metrô mais próximo, horário de visitação, site do lugar etc, além dos mapas de localização que os precedem. E, ao final de cada itinerário, tem também o +Cultura, com breves sugestões de locais na redondeza que ampliam as opções de diversão e conhecimento (como um SESC próximo ou algum sarau que aconteça por ali).

E como aqui no Roteiros a gente não é bobo nem nada, fomos logo pedindo ao João que indicasse seus cinco lugares do coração em São Paulo, que estão entre os 11 presentes no livro:

Casa Guilherme de Almeida

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“É para mim um dos museus mais importantes da capital quando o assunto é literatura. Segue os moldes de museus existentes na Europa, como a Casa de Victor Hugo e a Casa do Balzac (em Paris) e a Casa Fernando Pessoa (em Lisboa), que guardam a história dos escritores e da literatura de forma mais intimista, explorando os locais onde viveram tais autores.

No caso da Casa Guilherme de Almeida, preservam-se os locais que ele viveu com sua esposa Baby de Almeida (o quarto, o escritório, a biblioteca, a sala) e, a partir daí, podemos contar toda a história do Modernismo no Brasil – na sala, por exemplo, há quadros de Lasar Segal, de Anita Malfatti, feitas para o casal, que “decoram” a casa. Há também uma escultura do Victor Brecheret, que ele deu de presente para o Guilherme, por ter sido inspirada num poema do escritor.

Essa união entre a intimidade e a história da arte em encanta. E acho uma pena que esteja longe de ser um dos locais mais conhecidos da capital, mesmo para quem gosta de literatura. Ah…também é emocionante ver o escritório dele, com uma bela visão da cidade e uma atmosfera incrível. Quando for subir para o primeiro andar (a mansarda), onde fica o escritório, não deixe de ler o poema que está na parede, que fala exatamente desse ato de subir a escada para ir ao escritório. É lindo”.

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: Casa Guilherme de Almeida[/button]
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Museu da Língua Portuguesa
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Bom…é fácil destacar esse local. Além de sua relação com a literatura, com a poesia, com a leitura, o Museu da Língua Portuguesa é um dos museus mais incríveis da capital. É também um dos mais visitados. E não é atoa: proporciona interatividade, dinamismo, conhecimento, tecnologia e diversão em torno de um tema que faz muitos torcerem o nariz – a literatura. É uma prova de que mesmo um tema que soa para alguns como formal (a literatura), limitado aos livros e na leitura, pode ser algo incrivelmente divertido, empolgante, cativante.

Além disso, de tempos em tempos mudam-se as exposições temporárias, trazendo um novo nome da literatura. A mim marcaram, por exemplo, as exposições sobre  Guimaraes Rosa e sobre Fernando Pessoa, mas fica difícil escolher. Pra completar, pode-se aproveitar a visita a este museu, que fica dentro da Estação da Luz, e dar um passeio pela Praça da Luz, uma das mais belas da cidade. Ah…e se der tempo, dar uma passarinha na Pinacoteca, que fica bem ao lado”.

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: Museu da Língua Portuguesa[/button]
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Sarau da Cooperifa
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“Proporcionou-me alguns dos momentos mais emocionantes de minha pesquisa por São Paulo. Comandado pelo poeta Sergio Vaz, o Sarau da Cooperifa é sem dúvida um dos maiores representantes de uma revolução literária que acontece em São Paulo hoje. É num pequeno boteco da periferia da Zona Sul que a poesia e literatura renascem, na escrita daqueles que sempre estiveram à margem da cultura “oficial” mas resolveram fazer sua história.

É arte de qualidade sendo feita pela periferia para a periferia, sem depender dos centros culturais das áreas nobres da cidade. É simplesmente sensacional. Quem quer saber o que acontece na literatura paulistana hoje precisa visitar um dos muitos saraus que se espalham pela periferia paulistana.

O Cooperifa é um dos mais importantes e emocionou-me, quando vi que há uma grande revolução literária acontecendo, desta vez longe do seio da elite letrada”.

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: Sarau da Cooperifa[/button]
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Monumento às bandeiras
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“É para mim dos grandes símbolos da capital. Um de seus mais importantes cartões postais. Particularmente, gosto muito da região, que fica ao lado do Parque do Ibirapuera, numa área ampla, onde se vê ao longe (algo raro para São Paulo).

Em meio a essa grandiosidade, impõem-se ainda mais esse monumento feito pelo escultor Victor Brecheret, um dos grande representantes do Movimento Modernista, que deu linhas arrojadas a um momento histórico do passado – a Saga dos Bandeirantes. Há muita informação fascinante sobre esse monumento, mas destaco o fato de o próprio Brecheret estar esculpido (“um autorretrato”) entre os personagens da obra, o fato de os bandeirantes estarem representados também por feições indígenas e negras.

Na literatura, vale destacar que de um lado há uma frase de Cassiano Ricardo e do outro de Guilherme de Almeida. Além disso, sabe-se que Brecheret estava no centro de uma disputa por poder dentro do universo da arte, travada principalmente por Mário de Andrade, Oswald e Guilherme de Almeida, que tentavam impor o Modernismo como representante da cultura modernista. O monumento às bandeiras, inaugurado na década de 1950, é resultado disso – uma grande obra, de um grande modernista, impondo-se na maior cidade do país”.

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: Monumento às Bandeiras[/button]
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Theatro Municipal
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É, sem dúvida, um dos edifícios mais belos de São Paulo. Mais que isso: é também o local que nos remete a um dos movimento literários e artísticos mais importantes da cidade, o Modernismo. Foi no Theatro Municipal que Oswald, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Victor Brecheret, entre tantos outros artistas que ocorreu a Semana de Arte de Moderna, ou Semana de 22, como ficou conhecido o evento ocorrido em 1922.

A ironia é que o Theatro, grande representante da cultura burguesa e aristocrática, dos magnatas do café, fora ocupado por poetas que buscavam quebrar os paradigmas da arte feita até então, de cunho conservador. Foram vaiados, contestados e nem mesmo tiveram muito espaço na mídia. Algumas  décadas depois, a Semana de 22 passaria a ser considerada o marco da ruptura na arte brasileira.

Gosto do Theatro por estes dois motivos, belamente contraditórios. E, claro, pela sua beleza arquitetônica, tanto por dentro como por fora”.

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: Theatro Municipal[/button]
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* trecho da música Venha até São Paulo, de Itamar Assumpção, indicada pelo João no livro.

 PARA LER

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  • São Paulo, literalmente – uma viagem pela capital paulista na companhia de grandes escritores, João Correia Filho (Leya)
  • Lisboa em Pessoa – guia turístico literário da capital portuguesa, João Correia Filho (Leya)
  • À luz de Paris – guia turístico literário da capital francesa, João Correia Filho (Leya)
  • O mundo perdido, de Arthur Conan Doyle (Nova Alexandria)
  • Sevilha andando, João Cabral de Melo Neto (Nova Fronteira)

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