por Carol Cunha

William Faulkner fotografado por Henri Cartier Bresson
William Faulkner fotografado por Henri Cartier Bresson

Localizada a cerca de uma hora de carro de Memphis (Mississippi, EUA), Oxford seria mais uma pacata cidadezinha sulista se não fosse por dois fatos: ser a sede da Universidade do Mississippi e a terra natal de William Faulkner (1897–1962), considerado o maior autor modernista norte-americano, ganhador do Nobel de literatura e de dois prêmios Pulitzer.

Mais conhecida como “Ole Miss”, a universidade movimenta a vida cultural e econômica de Oxford, que tem cerca de 50 mil habitantes. Em 1962, a instituição entrou para a história dos direitos civis quando o aluno James Meredith entrou escoltado por tropas federais para garantir sua segurança em sala de aula. Ele foi o primeiro afroamericano a ingressar na universidade.

Dizem que quando você conhece a casa de alguém está conhecendo de verdade essa pessoa. Este é o sentimento que parece atrair turistas para a cidade universitária onde Faulkner nasceu, viveu e foi enterrado. Descobrir a cidade leva apenas um dia.

Oxford faz parte do condado de Lafayette, fundado em 1830 em uma área que pertencia ao povo indígena Chickasaw, expulso do lugar. Os nativos a chamavam de Yoknapatawpha, que significa “terra arruinada”, e que dá nome a um rio afluente do Mississipi. A cidade pode ser descrita como a versão Hollywoodiana de uma pequena cidade sulista.

Faulkner e uma de suas marcas registradas, o charuto
Faulkner e uma de suas marcas registradas, o cachimbo

Na primeira metade do século 19, as fazendas de algodão movidas a trabalho escravo fizeram a riqueza da aristocracia. Mas durante a Guerra da Secessão (1861-1865), a Guerra Civil norte-americana, Oxford foi saqueada e queimada pelas tropas do norte.

Os prédios da universidade se tornaram hospitais temporários para abrigar os feridos. Depois do conflito, a segregação racial, a decadência e a pobreza marcariam os anos seguintes.

Tudo isso inspirou Faulkner a criar Yoknapatawpha, o condado fictício da cidade de Jefferson que aparece na maioria de suas obras e que, nas palavras do escritor, seria o “selo postal do seu solo nativo”. O território representaria o micro cosmos da vida do sul nos Estados Unidos e suas feridas do passado, como a guerra e a violenta sociedade escravocrata.

“Antes de você poder entender o mundo, você tem que compreender um lugar como o Mississippi”, disse Faulkner. O escritor é descendente de uma tradicional família da região. Seu avô W.C. Falkner (originalmente, o sobrenome da família não tem o ‘u’, usado apenas pelo escritor por decisão própria) foi um herói da Guerra Civil e um importante político local.

Na Grande Depressão, quando começou a escrever sobre sua terra natal e os fantasmas que o rondavam, “Bill”, como Faulkner era chamado ali, era considerado a ovelha negra da família. Quando morreu, em 1962, os moradores de Oxford abraçaram de vez seu legado e memória.

Abaixo, conheça alguns dos lugares ligados a Faulkner em sua terra natal:

OXFORD SQUARE

A livraria Square Books
A livraria Square Books

O coração da cidade é a Oxford Square, um quarteirão com prédios históricos que concentra a cena cultural local, lojas e bons restaurantes da culinária sulista.

Um passeio imperdível é a livraria independente Square Books, especializada em livros de autores do sul dos EUA. O lugar possui uma prateleira exclusiva para livros de Faulkner.

Em 2013, a Square Books foi eleita a livraria do ano pela Publishers Weekly´s. Também é um dos lugares favoritos de escritores que moram na cidade, como o best-seller John Grisham.

TRIBUNAL DO CONDADO DE LAFAYETTE

O prédio mais imponente da praça é o do Tribunal do Condado de Lafayette, tribunal de justiça fundado em 1837.

Ele foi incendiado pelas tropas da União, em 1864, sendo reconstruído em 1873. Uma placa no edifício traz o capítulo inicial de Requiem Por Uma Freira (1951), de Faulkner, onde o tribunal é um elemento central na trama.

Os fãs de Faulkner também devem prestar atenção na estátua do soldado da Confederação, construída em memória aos que morreram na Guerra Civil. Isso porque o monumento aparece em várias histórias do escritor.

“Aproximavam-se da praça, onde o soldado da Confederação vigiava, de olhar vazio sob a mão de mármore, fustigado por ventos intempéries”, escreve Faulkner em O Som e a Fúria (1929) um dos seus romances mais experimentais.

A poucos metros está o memorial dedicado à Segunda Guerra Mundial com uma frase escrita por Faulkner: “They held not theirs, but all men´s liberty this far from home, to the last sacrifice” (em tradução livre “eles carregavam não o deles, mas a liberdade de todos os homens distantes de casa, até o último sacrifício”).

ESTÁTUA DE FAULKNER

Ao lado do prédio da prefeitura (Oxford City Hall), construído em 1885, situa-se a estátua de bronze do escritor. Sentando num banco de praça, ele está de bigode, paletó e fumando um cachimbo, suas marcas registradas.

Ele costumava se sentar na Oxford Square e observar o movimento. A estátua foi inaugurada em 1997, por ocasião do aniversário de 100 anos de Faulkner.

Estátua de Faulkner
Estátua de Faulkner

MANSÃO ROWAN OAK

Escondido por uma comprida alameda de altos cedros e rodeada por uma mata de 11 hectares, encontra-se um elegante casarão de estilo neoclássico, construído em 1843.

Em 1929, Faulkner comprou a residência que estava caindo aos pedaços e a batizou de Rowan Oak, nome inspirado num mito celta que considera a sorveira uma árvore de proteção que espanta maus espíritos e traz boa sorte. Decidido a reformar o lugar, o escritor viveu ali até sua morte, em 1962. Dez anos depois, sua filha vendeu o local para a Universidade de Mississippi para que lá fosse criado um museu.

A casa Rowan Oak onde Faulkner viveu
A casa Rowan Oak onde Faulkner viveu; no canto superior, máquina de escrever do autor, uma Underwood

A propriedade ainda conserva os móveis e a decoração original, como o par de botas do autor no quarto e, na biblioteca, as prateleiras de madeira que foram construídas pelo próprio escritor abrigam livros do seu acervo pessoal e retratos da família pintados por Maud, sua mãe.

O espaço mais importante é o escritório que fica nos fundos da casa e onde Faulkner passava a maior parte do tempo escrevendo livros e roteiros para o cinema. O ambiente tem uma pequena escrivaninha com uma clássica máquina de escrever Underwood. Rabiscado pelo escritor na parede, está um trecho do romance A Fábula (1954). Na porta, estão pendurados dois mapas de Yoknapatawpha County.

Na Rowan Oak ainda é possível fazer outro passeio: uma caminhada de 20 minutos pela trilha ecológica The Bailey’s Woods Trail, que conecta a casa ao Museu da Universidade do Mississippi. Faulkner brincava nessa floresta quando criança e ao comprar o terreno preservou a mata nativa para fazer suas caminhadas.

O local recebe grupos e visitantes individuais. Abaixo, dois vídeos mostram um pouco do que esperar da visita:

CEMITÉRIO ST. PETER´S (OU MEMORIAL DE OXFORD)

Quando Faulkner faleceu, seu corpo foi levado num cortejo até o cemitério St. Peter’s, e todas as lojas da Oxford Square fecharam em luto.

Na lápide do escritor é comum encontrar flores e garrafas de uísque, bebida que ele amava. É tradição que o visitante que está em busca da “musa” (inspiração para a criação literária) faça uma oferenda de uísque para Faulkner.

Parte do clã Falkner também está enterrada no cemitério, assim como Caroline Barr, ex-escrava que ajudou a criar Faulkner e seus três irmãos e a quem ele chamava de “mãe”.

Ela morreu aos 100 anos, e durante a infância do autor teria contado a ele inúmeras histórias sobre a vida no Mississippi. Além disso, ela inspirou personagens femininas negras como Dilsey Gibson, de O Som e A Fúria, e Molly Beauchamp, de Desça, Moisés (1942).

CASA THE THOMPSON-CHANDLER

A casa The Thompson-Chandler foi construída em 1838 e serviu de inspiração para a casa da família Compson, no romance O Som e a Fúria. Para criar o sobrenome da família, Faulkner juntou o nome de dois antigos proprietários da residência.

Edwin Chandler, filho com deficiência mental de um deles, inspirou o personagem Benjy Compson. Como o local é uma propriedade privada, visitas não são permitidas.

UNIVERSIDADE DO MISSISSIPPI

Quadro de Faulkner na Ole Miss
Quadro de Faulkner na ‘Ole Miss’

O campus da “Old” Miss é considerado um dos mais bonitos dos EUA. Faulkner chegou a ser aluno especial da universidade por quase todo o ano de 1919.

Considerado um aluno mediano, ele tirava notas baixas, como um D em Inglês. Entre 1916 e 1925, Faulkner contribuiu com poemas e desenhos para a The Mississippian, a revista literária da universidade.

A cidade também organiza diversos eventos literários ligados à Universidade: a The Oxford Conference for the Book, que traz debates e encontros com escritores sulistas e que acontece em março, e a Faulkner and Yoknapatawpha Conference, sempre no mês de julho, sobre a obra do autor.

Vale a pena também visitar a J.D. Williams Library no campus da universidade. A biblioteca possui o The Faulkner Room, que guarda o acervo de Faulkner com itens como cartas, manuscritos, objetos e obras raras.

É comum o local abrigar exposições que dão acesso público ao material. Para os fãs da música do Delta do Mississippi, o lugar também possui o maior acervo de blues do mundo.


PARA LER

  • O Som e a Fúria (1929) | (Cosac Naify)
  • Desça, Moisés (1942)
  • Requiem Por Uma Freira (1951)
  • A Fábula (1954) | (Casa das Letras)