por Andréia Martins


VISITADORua Itacolomi, 419, oitavo andar. Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A fachada do prédio que fica a poucos metros da Universidade Presbiteriana Mackenzie ainda conserva as cores e o visual sessentista encontrado pelo cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, em 1978. A Itacolomi lembra as transversais de Ipanema”, disse Henfil ao falar do endereço em que ele hesitou em morar e que o recebeu em sua temporada em São Paulo.

A passagem por São Paulo entre o final da década de 1970 e meados da de 1980 traria uma leve mudança na carreira do mineiro nascido em Ribeirão das Neves (MG), irmão do sociólogo Betinho e que carregava o ativismo social no sangue. Na capital paulista, ele estreitaria laços com outros cartunistas e mergulharia de cabeça no movimento sindical que estava chacoalhando as fábricas de São Bernardo do Campo. Essa nova realidade o levaria a colaborar com jornais mais populares e a criar personagens que se identificavam com aquele momento, como Orelhão, uma espécie de porta voz do povo.

O cartunista Henfil
O cartunista Henfil

Por isso, morar em Higienópolis, um bairro de classe média alta, poderia soar contraditório para um provocador como Henfil, que participou da fundação do PT (Partido dos Trabalhadores), era colaborador do jornal João Ferrador, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, e havia criado personagens como a dupla de fradins Baixim e Cumprido, a turma da Caatinga, Ubaldo, o paranoico, que, em medidas diferentes, faziam críticas ácidas à classe média e ao regime militar. O que o convenceu?

Rossana Oliveira, sobrinha e ex-secretária de Henfil, filha de Tanda, revelou que o que levou o tio a morar em Higienópolis foi especificamente o apartamento do oitavo andar daquele prédio. Na época, além de barato, ele tinha uma disposição diferente da dos demais. Tirando os quatro quartos e três banheiros, o apê tinha uma sala gigantesca, armários embutidos e estilo kitsch –um dos motivos pelos quais ninguém alugava o apartamento.

Aquilo não era para ostentar, ninguém ia lá. Segundo, na sala não tinha nada, e ele precisava de espaço. “Às vezes ele ficava pensando e andando pela sala. Tinha que ter esse espaço. E ele podia bancar; o bicho trabalhava muito, trabalhava como eu nunca vi ninguém trabalhar”, nos contou ela.

O DIA A DIA NO BUNKER

Naquele amplo apartamento, onde morou até 1984, Henfil abrigou os cartunistas Laerte, Angeli, Glauco e o mineiro Nilson, autor do nome pelo qual o local ficou conhecido: bunker. Em uma entrevista a Caros Amigos (nº 84), Laerte comentou que o apartamento não tinha nada, “era uma sala enorme com um aparelho de som grandão no meio e umas almofadas”, perfeita para o encontro de pessoas.

Uma das frases mais curiosas sobre a vida no apartamento da Itacolomi é de Laerte, na mesma entrevista. “A gente não morava, mas passava o dia inteiro lá lambendo o Henfil, o Henfil lambendo a gente, enfim, num convívio mútuo muito tesudo naquele tempo”.

Glauco (1957-2010) ficou por lá por noves meses, até o segundo semestre de 1979. Contou que quando conheceu Henfil pensou que estava falando com Deus. Uma piada pronta para Henfil. Aliás, o interesse de Glauco pelo universo místico era mais um motivo de piada para o mineiro, que chamava ele e Nilson de “alienados” que perdiam “tempo com superstição”.

Quando não comiam hambúrgueres, prato frequente na casa, Henfil cozinhava iguarias da comida mineira, como feijão tropeiro, angu, beterraba e carne moída. A sobrinha lembrava que às vezes pediam marmita e comiam todos juntos. Ela, o tio, os demais moradores e o motoboy, que ficava para conversar.

Além da sobrinha, eram presenças constantes no bunker o jornalista Maurício Maia, que cuidava da produção gráfica e da organização do material de Henfil – ao lado de Rossana-, Gérson, o contínuo, Sônia Maria Manso, a fisioterapeuta que passava para Henfil exercícios físicos para o joelho Ele era hemofílico e havia contraido o vírus HIV durante uma transfusão de sangue. Tinhas muitas dores nas articulações. Isso, segundo ela, inibiu muito as saídas do tio com os garotos e o pessoal acabava indo para o apê fazer uma roda de jazz.

No bunker, Henfil chegou a pensar em criar um tipo de programa para a TV com os cartunistas. Inspirado no programa Monty Phyton, Henfil realizou algumas reuniões sobre a ideia, mas o pessoal não vestiu a camisa. Sabe-se apenas que o nome provisório seria “A Canalha de Canudos”.

Como assistente do tio, Rossana conheceu bem as manias de Henfil. Ele era dedicado quando o assunto era guardar seus originais. A sobrinha conta que certa vez, no quartinho de empregada, encontrou caixas guardadas em uma estante e que traziam fotos, documentos, correspondências e tiras originais. Tudo devidamente etiquetado.

Cauteloso, ele quase agredia quem ousasse desarrumar a organização, e como líder do bunker, não poupava puxões de orelha. “Ele não era de ficar agradando não. Ficar bravo comigo e com os meninos, Glauco e Nilson, era o jeito de expressar seu carinho. E quando ele não falava, desenhava”, nos contou ela.

Um desses desenhos recebidos do tio trazia o capitão Zeferino, personagem da turma da Caatinga, gritando “FARSA!”. O motivo? Ter flagrado a sobrinha com açúcar nos lábios numa época em que Rossana estava de regime.

Mais sobre essa parte da vida de Henfil está na biografia O Rebelde do Traço – a vida de Henfil (José Olympio; 1996), escrita por Dênis de Moraes.

“Éramos um grupo de desenhistas, e a intenção foi produzir em conjunto, que nem uma oficina. Funcionou bem durante um tempo, suficiente para a gente se apaixonar uns pelos outros, e depois desandou, como as paixões desandam às vezes. (…) Mas a gente aprendeu paca com o Henfil. Tipo intensivo madureza. Aprendeu que o traço tem que obedecer as idéias, e não o contrário. Que tem hora de ficar sério e hora de esculhambar a seriedade. Que um trabalho bom vai fundo e mexe com as pessoas.”

Trecho do texto publicado no nº 5 da revista Geraldão, por Laerte e Glauco, por conta da morte de Henfil, no início de 1988

HENFIL EM SP

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho do cartunista, o melhor lugar é o Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde fica a Gibiteca Henfil, criada em 1991. Lá o visitante encontra a coleção completa dos Fradins, com o amarelo nas páginas e o cheiro do guardado revelando o tempo, com histórias da dupla de frades mais encapetada que Deus já viu.

A Gibiteca Henfil no CCSP
A Gibiteca Henfil no CCSP

Há ainda os livros A volta do Fradim, Diretas já, Isto era, Henfil na China, Fradim de libertação, Como se faz humor político, e exemplares do Pasquim, além de um fanzine de autoria de José Eduardo Cimó, livros teóricos, recortes de jornais e folhetos sobre o cartunista.

Serviço – Centro Cultural São Paulo | Onde: Rua Vergueiro, 1000 | Horário de funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 20h; sábados, domingos e feriados (exceto Carnaval e Páscoa), das 10h às 18h | Entrada gratuita

 

Os personagens criados por Henfil
Os personagens criados por Henfil

 

*A entrevista com Rossana, onde ela contou algumas histórias sobre o tio no apê de Higienópolis, foi feita em 2006, para meu livro independente sobre o Henfil. No início de 2013 ela nos deixou e, para relembrá-la, nada melhor do que compartilhar as boas histórias que ela dividiu com a gente.