por Ana Campos


Paris e a literatura se retroalimentam, e Julio Cortázar é um caso exemplar: se abasteceu da experiência parisiense e lhe devolveu sua obra-prima, O Jogo da Amarelinha. Na primeira parte do livro, o argentino Horacio Oliveira vaga por ruas e lugares da capital francesa, dividindo o protagonismo com a cidade luz.

Cortázar deixava claro que o livro não era uma autobiografia, desvinculando qualquer relação entre ele e Oliveira. Mas Maga tem, sim, uma versão na vida real. Cortázar conheceu Edith Aron em 1950 numa viagem de navio. Ela, dez anos mais nova do que ele, embarcava sozinha. O contato entre os dois naquele momento se manifestou timidamente. Mas em Paris eles se aproximaram após uma série de encontros casuais que, em O Jogo da Amarelinha, não tinham nada de fortuitos (pelo menos, na concepção de Horacio e Maga).

O relacionamento não evolui, e a inspiração para o romance acaba aí – mas não sem render um capítulo inicial que nos vence por nocaute, embora um romance costume ganhar o leitor por pontos, como Cortázar mesmo alcunhou numa alusão ao boxe.

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Em carta a um amigo francês que vivia no Uruguai, o escritor comenta o processo de criação do livro: “Me ocorre escrever duas vezes um mesmo episódio, em um caso com certos personagens, e em outro com personagens diferentes, ou com os mesmos, mas mudando as circunstâncias (…). Penso em deixar os dois relatos, porque cada vez me convenço mais de que nada ocorre de uma certa maneira, mas de que cada coisa é ao mesmo tempo muitas outras”.

A primeira edição saiu pelo Editorial Sudamericana com um desenho do próprio Cortázar na capa. Foi publicada em outubro de 1963. O escritor tinha 49 anos. Este roteiro, que indica alguns pontos de Paris citados em O Jogo da Amarelinha, é adaptado do projeto “Ruta Cervantes”, do Instituto Cervantes, que produziu um guia parisiense da obra de Cortázar.

Encontraria a Maga?

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‘O menos casual em nossas vidas’

“Andávamos por Paris sem nos procurarmos, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar.” Entre os pontos de encontro não marcados por Oliveira e Maga estão:

Pont des Arts: “e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água.” (Cap. 1)

Metrô Mouton Duvernet: Horacio flagrou Maga saindo da estação.

Rue Monsieur le Prince: “Não era possível que a Maga decidisse dobrar aquela esquina da rua de Vaugirard exatamente no mesmo momento em que ele, cinco quarteirões abaixo, renunciava a subir pela rua de Buci,  e se orientava na direção da rua Monsieur le Prince sem qualquer razão, deixando-se levar, até vê-la de súbito, parada em frente a uma vitrina, absorta na contemplação de um macaco embalsamado.” (Cap. 6)

Rue de Verneuil: “(…) e sei, já que você me disse, que não gostava de que eu a visse entrar na livraria da rua de Verneuil, onde um velho decrépito faz milhares de fichas e sabe tudo o que se pode saber sobre historiografia. Você entrava para brincar com um gato, e o velho deixava você entrar, não fazendo quaisquer outras perguntas.” (Cap. 1)

Casa de Oliveira e Maga

Oliveira morava na rua de la Tome Issoire. A casa de Maga ficava na rue Sommerard, no bairro de Sorbona, onde mais tarde os dois viveriam juntos.

“Ainda que conhecêssemos perfeitamente os nossos endereços, cada recanto dos nossos dois quartos de falsos estudantes em Paris, (…) mesmo assim, era certo, nenhum de nós iria procurar o outro em sua casa.” (Cap. 1)

Hotel na rue Valette

Foi num hotel da rua Valette que a Maga e Oliveira transaram pela primeira vez.

“A primeira vez tinha sido num hotel da rua Valette, os dois andavam por aquele bairro, vagueando e parando nos portais; o chuvisco depois do almoço é sempre amargo e tinham de fazer alguma coisa contra aquela poeira gelada, contra os impermeáveis que cheirava a borracha. De repente, a Maga encostou-se muito em Oliveira e ambos, como se aturdidos, enxergaram HOTEL.” (Cap. 5)


 

Sobre cafés e lembranças

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Uma vez juntos…

“Comíamos hambúrgueres no Carrefour de l’Odéon e íamos de bicicleta a Montparnasse, para qualquer hotel, para qualquer travesseiro. Outras vezes, porém, continuávamos até a Port d’Órleans, conhecendo cada vez melhor a zona de terrenos baldios que se encontram para lá do Boulevard Jourdan, onde, por vezes, à meia noite, se reuniam os membros do Clube da Serpente, para falarem com um vidente cego, paradoxo estimulante. Deixávamos as bicicletas na rua e entrávamos pelos terrenos baldios, parando para olhar o céu, pois essa é uma das poucas zonas de Paris onde o céu vale mais do que a terra.” (Cap. 1)

“ – E tudo, o Clube, aquela noite no Quai de Bercy debaixo das árvores, quando caçamos estrelas até de madrugada e nos contamos histórias de príncipes, e você sentiu sede e compramos uma garrafa de champanhe caríssimo, que bebemos nas margens do rio.” (Cap. 20)

Cafés

Maga e Horacio se conheceram quando ela saía de um café na rue Cherche-Midi e foi também em um café, na rua Réaumur, perto do Boulevard Sebastopol, que começaram a se desejar de fato, segundo as lembranças do narrador. Isso já bastaria para deixar clara a importância dos cafés no enredo, mas há um breve capítulo dedicado exclusivamente a eles:

“Eu não sei por que estou no café, em todos os cafés, no Elephant & Castle, no Dupont Barbés, no Sacher, no Pedrocchi, no Café Mozart, no Florian, no Capoulade, (…), no Clune, no Richmond de Suipacha (…) no café Au Chien qui Fume, no Opern Café, no Dôme, no Café au Vieux Port, nos cafés de qualquer lugar…” (Cap. 132)

Alguns ainda existem, como o Café e Restaurante Au Chien qui Fume (33, rua du Pont Neuf), um dos mais antigos da cidade, fundado em 1740 e o café e restaurante La Copoulade(102 Boulevard du Montparnasse)Templo de Art Déco ele foi inaugurado em 1929 e grandes artistas passaram por la, de Henry Miller e James Joyce a Patti Smith e Serge Gainsbourg.

O Le Dôme Café é outro ponto tradicional da cidade, fundado em 1898. Vizinho do La Copoule, está no 108 Boulevard du Montparnasse.

Museu do Louvre

“E, algumas tardes, quando me vinha vontade de percorrer vitrina por vitrina toda a seção egípcia do Louvre e voltava para a casa desejoso de mate e de pão doce, encontrava você debruçada na janela (…)” (Cap. 34)

O Louvre dispensa apresentações, mas vale lembrar o endereço: 75058 Paris, paralelo à rua de Rivoli.


CRONÓPIOS

Trupe

Rua Madame, número 32: nesta rua vivia o escritor Morelli, dono das teorias literárias citadas ao longo do livro.

Place d’Italie: onde ficava o ateliê de Étienne, um dos amigos de Horacio.

Rua de Babylone: apartamento de Ronald e Babs, que servia como sede do Clube da Serpente

Rua Dauphine: Pola, com quem Horacio teve um breve caso, vivia na rua Dauphine, no Bairro Latino.

Berthe Trépat

Uma das cenas mais cinematográficas de “O Jogo da Amarelinha” é a do encontro entre Horacio e a pianista Berthe Trépat, que apresentava na Salle de Géographie um concerto fracassado. Nesse trecho, Cortázar faz referência a Societé Géographique, fundada em 1821, que fica no número 184 do Boulevard Saint Germain.

Alguém que anda por aí

Horacio percorria as ruas parisienses dando permissão para que o inusitado lhe ocorresse e assimilando detalhes que transformam uma cidade estrangeira em uma cidade mais sua. Por exemplo, descobriu que o mate mais barato da cidade era vendido na Estação de Saint Lazare e que na rua du Chemin Vert vendia um vinho ótimo. No capítulo 73 ele é tomado por especulações metafísicas de passagem pela rua de la Huchette: “Ninguém nos curará do fogo surdo, do fogo sem cor que corre, ao anoitecer, pela rue de la Huchette”. Já na rue Danton chegou a falar com um gato preto e na de Médicis flagrou um homem que “urinava muito corretamente até o momento em que, afastando-se um pouco do lugar onde se encontrava, girava sobre si mesmo” (Cap. 1).

 

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Para ler

  • O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar (Civilização Brasileira)