por Ana Campos


O escritor Julio Cortázar nasceu em Ixelles, comuna em Bruxelas, na Bélgica, em 26 de agosto de 1914. Na época, seus pais argentinos e diplomatas trabalhavam na embaixada belga do país natal. Era o ano da Primeira Guerra Mundial, que havia estourado há pouco mais de dois meses. Depois de passar por Zurique (Suíça) e Barcelona (Espanha), ele chegaria à Argentina com 4 anos de idade, e lá moraria até 1951, quando optou por morar na França. Veja os lugares que marcaram a sua história, entre Buenos Aires e Paris:

BANFIELD, ARGENTINA (1918-1934)

Ao chegar ao país, a família de Cortázar fixou residência em Banfield, uma cidade na Grande Buenos Aires, a 20 minutos do sul da capital argentina. Morou em uma casa na rua Rodríguez Peña, 585, que hoje não existe mais. Ele tinha uma definição bem particular do lugar: “Banfield era para um garoto um paraíso, porque meu jardim dava para outro jardim. Era meu reino”. A poucas quadras de casa estava a escola que ele frequentava, no nº 10, na esquina das ruas Maipú e Belgrano. A escola se chamava Julio A. Roca e hoje leva o nome de Julio Cortázar. Nesta esquina, na comemoração de seu centenário, em 2014, foi inaugurado um busto do escritor.

Entrada da escola onde Cortázar estudou em Banfield e que hoje leva seu nome
Entrada da escola onde Cortázar estudou em Banfield e que hoje leva seu nome

O tempo que o escritor passou na cidade, até os 17 anos, inspirou muitos de seus contos, entre eles Bestiário (1951), Os Venenos, do livro Final do Jogo (1956), Casa Tomada (de 1969, que se passa no mesmo endereço de sua casa), Deshoras (1982), um de seus últimos contos, onde ele narra as ruas de paralelepípedos onde ficava sua casa, as brincadeiras de criança e seu primeiro amor, aos 12 anos, entre outros.

BUENOS AIRES, ARGENTINA (1934 – 1951)

A próxima parada de Cortázar foi na capital argentina, onde ele morou com a mãe, Hermínia Descotte, e a irmã Memé no terceiro andar de um prédio na rua Artigas, 3.246, no bairro Rawson. Cursou a Escola Normal Superior de Professores Mariano Acosta, na rua General Urquiza, 277, onde se formou professor em 1935. Lá também pegou gosto pela literatura clássica. Nessa época, passou a dar aulas nas províncias de Bolívar, Mendonza e Chvilcoy, nesta última, morou por cinco anos, entre 1939 e 1944, lecionando literatura na Escola Normal.

Os locais de Buenos Aires são citados em muitos de seus livros. A Praça Cortázar, no bairro de Palermo (também chamada de Praça Serrano), por exemplo, aparece no conto Simulacros. A Confeitaria London City (fechada), que ele frequentava e que fica na esquina da Avenida de Mayo com a rua Peru, aparece no livro Os Prêmios. Já a Praça de Mayo serve de cenário para o livro O Exame, publicado postumamente.

Quando Juan Domingo Perón assumiu o governo na Argentina, o escritor pediu demissão de seu cargo de professor de literatura na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional de Cuyo e decidiu ir embora por não concordar com o governo do ditador.

Exilou-se em Paris (França) e de lá escreveu uma lista com os lugares da capital argentina que mais sentia falta: Praça Itália em dias de sol (em Palermo), a “penumbra alucinatória da Galeria Guemes” (na rua Florida, 165), o cheiro dos jardins e das praças do bairro Villa del Parque e o estádio coberto Luna Park (Avenida Madero, 420), onde ele assistia às lutas de boxe, seu esporte preferido. Ele só retornaria ao país em 1983, já muito doente, com a volta a democracia na Argentina.


PARIS, FRANÇA

Em 1951, aos 37 anos, Cortázar aceitou bolsa do governo francês para estudar por dez meses e partiu para Paris (França). Acabou se instalando definitivamente na cidade onde escreveu suas grandes obras e se casou duas vezes: em 1953, com a tradutora argentina Aurora Bernárdez, e depois em 1981, com Carol Dunlop, a quem conheceu em 1977.

Caminhar por Paris significa avançar até mim | Cortázar

Vários contos e livros de Cortázar citam lugares de Paris que ele costumava frequentar, como o Jardim das Plantas (na rua Cuvier, 57), jardim botânico aberto ao público que integra o Museu Nacional de História Natural e aparece logo no início do conto Axolotl (leia aqui, em espanhol), do livro Final de Jogo (1956), e a Galeria Vivienne (rua Vivienne 6), um dos cenários do conto O Outro Céu. Muitos outros lugares também se tornaram cenários de seus livros, como em O Jogo da Amarelinha (à Paris deste livro dedicamos um roteiro especial: O labirinto parisiense de Cortázar).

A Galerie Vivienne, em Paris (Divulgação)
A Galerie Vivienne, em Paris (Divulgação)

 

Sua primeira residência foi o apartamento 40 da Casa da Argentina (no nº 25 do Boulevard Jourdan), na Cidade Universitária, onde morou por poucos meses e onde teve parte de seus livros pessoais roubados. Depois, já com Aurora, morou em diversos imóveis: no número 56 da rua d’Alesia; na rua Gentilly, 10; num apartamento na rua Broca, 91; depois mudaram-se para a rua Pierre Leroux, 24, e para o número 9 da Place du General Beuret, onde viveram entre 1960 e 1968. Sobre essa casa, ele dizia: “nossa casa é como como uma bicicleta, toda de perfil, sem terceira dimensão, e cabe apenas nós e os livros”.

A Casa da Argentina, primeira residência de Cortázar em Paris (Divulgação)
A Casa da Argentina, primeira residência de Cortázar em Paris (Divulgação)

Assim que chegou à cidade, um dos primeiros lugares que visitou foi a casa do escritor Charles Baudelaire (1821-1867), no Hotel Lauzun (na Quai d’Anjou, 17), local não aberto para visitação. Trabalhou por longos anos como tradutor na sede parisiense da Unesco (no número 7 da Praça de Fontenoy). Como ganhou passe livre para visitar o Museu do Louvre, estima-se que tenha feito centenas de visitas ao local. Quando ia ou voltava do museu, Cortázar passava pela Ponte do Carrousel, onde gostava de apreciar a vista.

Entre os cafés e bares, era frequentador do Le Dôme (Boulevard du Montparnasse) e do La Coupole, que segundo Cortázar escreve na orelha do livro Paris, ou a vocação da imagem (1981) era o “nosso refúgio após uma festa”. No Café Old Navy (no Boulevard Saint Germain, 150), aberto nas madrugadas parisienses, Cortázar gostava de beber e escrever e passava longas horas. O colombiano Gabriel García Márquez certo dia ficou por horas no local esperando o escritor chegar. Soubera que ele passava muito tempo ali, escrevendo. No dia em que o viu chegar, não teve coragem de se apresentar e apenas observou Cortázar trabalhando. Ele conta essa e outras histórias no texto El argentino que se hizo querer de todos.

Outros lugares que figuram na lista de preferidos dos escritor são a Praça Dauphine (no bairro Ille de la Cité) e o Parque Montsouris (na rua Gazan). Para Cortázar o parque era um local “mágico”, “carregado de forças” que ele sentia “profundamente” cada vez que passava por lá.

A Praça Dauphine, em Paris, um dos locais preferidos de Cortázar
A Praça Dauphine, em Paris, um dos locais preferidos de Cortázar

A praça, rodeada de galerias de arte e cafés, era um símbolo forte da cidade para o escritor. Em uma entrevista ao jornalista Alberto Manguel, em 1969, Cortázar deu sua interpretação sobre o local: “Paris é absolutamente feminina, não no sentido rude da metáfora, mas da sutileza, a intuição profunda que a desperta. Paris é uma mulher estendida, sensual, secreta. Tem algo de mágico, como se tivesse sido transformada por um feiticeiro. E dessa mulher, a Praça Dauphine é o sexo”.

Há ainda a Pont Neuf e o metrô, dois locais muito significativos para o escritor e sobre os quais ele mesmo fala em uma entrevista concedida ao canal TVE2 (assista um trecho abaixo):

A partir de 1979, o escritor foi viver em um pequeno apartamento na rua Martel, 4, no bairro Châteu d’Eau, com sua mulher Carol Dunlop. Ali escreveu, entre outros livros, Um tal Lucas (1979), Queremos tanto a Glenda (1980) e Os Autonautas da Cosmopista, este último, um projeto do casal, mas que Cortázar finalizou sozinho após a morte de Carol, em 1982.

Placa no prédio na rua Martel onde Cortázar morou em Paris
Placa no prédio na rua Martel onde Cortázar morou em Paris

Frequentava muito o Barrio Latino, uma das regiões mais animadas de Paris. Ali, tinha uma de suas livrarias preferidas na cidade, La Hune, que na época estava localizada no Boulevard Saint-Germain e hoje está instalada no número 18 da rua de L’Abbaye. Além de abastecer sua biblioteca pessoal, atendia às encomendas de livros dos amigos de Buenos Aires.

Vista noturna da livraria La Hune (Divulgação)
Vista noturna da livraria La Hune (Divulgação)

 

O escritor argentino também visitava muito a biblioteca Arsenal (no nº 1 da rua de Sully), usando-a inúmeras vezes como local de trabalho. Carlos Álvarez Garriga, coeditor da obra póstuma de Cortázar, conta no prólogo do livro Cuentos Inolvidables según Julio Cortázar que o escritor quis voltar à biblioteca pouco antes de morrer. Foi de táxi com um amigo e a ex-mulher, Aurora, mas não conseguiu subir as escadas. Aurora sim. Após observar o local, ela disse ao escritor: “Está tudo igual”. Acredita-se que foi ali que ele colocou o ponto final no livro Imagem de John Keats, escrito entre 1951 e 1952.

Seu último endereço na capital francesa foi o Cemitério Montparnasse (no Boulevard Edgar Quinet, 3),onde está enterrado ao lado de Carol. Em sua tumba se ergue a imagem de um “cronópio”, personagem criado por ele no livro Histórias de Cronópios e Famas.

O local já era bem conhecido do argentino, que costumava visitar no cemitério a tumba do poeta peruano César Vallejo (1892-1938), considerado um dos maiores poetas hispano-americanos do século 20.