por Carol Cunha

O escritor e compositor Leonard Cohen
O escritor e compositor Leonard Cohen

Localizada a duas horas de barco de Atenas, na Grécia, Hidra é uma pequena ilha rochosa que parece saída de um cartão-postal. Casinhas de pedra, ruas estreitas de paralelepípedo, um belo pôr-do-sol sob o mar Egeu despontam na linha do horizonte.

O nome Hidra significa “água” em grego. No século 17, o lugar era um importante entreposto comercial para Veneza, na Itália. Durante o Império Otomano e no século 19, a região tinha uma poderosa frota naval e, ali, as famílias de capitães da Marinha construíram mansões com uma arquitetura singular.

Hoje a ilha de dois mil habitantes mantém intacta a fama de ser a mais preservada da Grécia. Apesar de ser rota de verão para os europeus e atenienses, o lugar é menos agitado do que as badaladas ilhas de Santorini ou Míconos, sendo indicada para quem busca relaxar e aproveitar o ritmo mais lento da vida.

Ande a pé em Hidra

Uma das maiores experiências em Hidra é andar a pé. Isso porque os carros e bicicletas são proibidos em toda a ilha e as caminhadas são parte da rotina. Para quem não encara o sobe e desce das colinas com facilidade, o transporte pode ser feito na carona de jegues, um dos símbolos da cultura local.

Logo na entrada da baía em formato de ferradura, o turista encontra o Porto de Hidra, lugar central onde tudo acontece: o vaivém dos pescadores, táxis marítimos, cafés, lojinhas de joias, bares e tavernas onde se podem saborear pescados e mariscos frescos.

Vista da ilha de Hydra
Vista da ilha de Hidra

Nos últimos anos, Hidra se tornou um ponto de atração para galerias de arte contemporânea e sede de uma importante escola de Belas Artes. Antes de se tornar um destino para quem gosta de arte, a ilha já foi um refúgio para artistas em busca de isolamento e inspiração criativa.

Henry Miller e outros escritores em Hidra

Durantes os anos de 1930, os escritores Henry Miller, Lawrence Durrell e o poeta grego Giorgos Katsimbalis passaram temporadas na mansão do pintor Nikos Hadjikyriakos-Ghikas, importante nome da arte moderna grega.

Na época, os moradores locais ainda viviam da pesca e do mergulho livre para a coleta de esponjas.

Henry Miller em Hidra, em 1939
Henry Miller em Hidra, em 1939

Miller cita Hidra no livro O Colosso de Marússia, escrito em 1941, onde relata suas viagens pela Grécia, a quem ele se referia como “um mundo de luz” onde havia apenas duas cores, o azul e o branco. Katsimbalis seria o “colosso” real que o escritor faz alusão no título.

A partir dos anos de 1950, a cidade abrigou uma comunidade de escritores e artistas plásticos, que a considerava o lugar ideal para se viver.

O cenário cinematográfico também serviu como locação para diversos filmes do cinema europeu. Como em A Lenda da Estátua Nua (1957), onde uma jovem Sophia Loren emerge das suas águas, e Profanação (1962).

Como Leonard Cohen foi parar em Hidra

O cantor e poeta canadense Leonard Cohen, considerado um mestre da poesia cantada, foi um dos que se apaixonou por Hidra, lugar que fez sua criatividade fluir e foi fundamental para suas primeiras músicas.

De uma tradicional família judaica de Montreal, no Canadá, a primeira vez que Cohen escreveu foi após a morte do pai. Ele era um garoto de 9 anos que, poucos dias depois do enterro, vestiu uma gravata do patriarca e escreveu um verso no papel. Graduado em Letras em 1956, aos 22 anos Cohen publicou seu primeiro livro de poesias, Let Us Compare Mythologies, que o ajudou a ganhar uma bolsa de estudos em Londres.

Na Inglaterra, ele comprou uma máquina de escrever Olivetti 22 e se dedicou a escrever contos e poemas. Cohen já tinha começado as primeiras linhas do seu primeiro romance A Brincadeira Favorita, mas ainda não tinha se adaptado ao clima da cidade inglesa.

Em uma tarde chuvosa, caminhando pelo bairro londrino do East End, Cohen buscou abrigo no Bank of Greece e viu um bancário bronzeado e com óculos escuros. Ele perguntou ao funcionário como estava o tempo na Grécia. “Primavera”, respondeu ele. Em poucos dias Cohen estaria embarcando para Atenas.

Ao visitar Hidra, ele se encantou pelo lugar. Lá, foi bem recebido pela comunidade de artistas expatriados. Em 1960, aos 26 anos, Cohen ganhou uma herança e comprou uma casa do século 19, no bairro de Kala Pigadia.

Em carta a um amigo, ele escreve com confiança sobre sua decisão de morar na ilha: “Os anos estão voando e nós gastamos muito tempo pensando se temos coragem ou não de fazer isso ou aquilo. É preciso dar uma chance”.

Quando o músico chegou na vila não havia eletricidade, esgoto ou telefone. A canção “Bird on the Wire” começou a ser escrita na Grécia, no dia em que o telefone chegou à ilha e ele avistou os primeiros postes. “Eu olhei para fora da janela e vi os fios e pensei em como a civilização me pegou e eu não teria como escapar dela de nenhum jeito”.

A vida de Cohen em Hidra

Cohen passava os dias lendo, ouvindo vinis e tocando o violão. O cantor aprendeu a falar grego e se apaixonou pelo som do bouzouki, instrumento de cordas tradicional. Gostava de tocar para os amigos e beber o drink ouzo.

“Existe algo nessa luz que é honesto e filosófico”, ele diria a um jornalista em 1963 sobre a Grécia. Cohen escrevia de manhã até o meio-dia no terraço de casa. Ao final da tarde tomava um banho de mar e à noite tocava sob o pinheiro da Douskas Taverna.

Durante sua estada em Hidra, pessoas e artistas de todos os lugares apareciam na ilha. Cohen chegou a hospedar os poetas beatniks Allen Ginsberg e Gregory Corso, que estavam de passagem por Atenas. Nesta época, ele também experimentaria diversas drogas e entraria em contato com o I Ching e o budismo.

Os estrangeiros adotaram um “cantinho” como ponto favorito de encontros. A Katsikas era uma pequena mercearia ao lado do porto que tinha seis mesas onde eles costumavam conversar, beber vinho, declamar poesias e esperar as cartas que chegavam por navio.

O lugar em que Cohen conheceu Marianne

Foi na Katsikas (que já não existe mais) que Cohen fez seu primeiro show oficial e conheceu Marianne Ihlen, sua maior musa e que aparece na contracapa do álbum Songs from a Room. A foto que mostra a norueguesa com a máquina de escrever de Cohen foi clicada na casa grega onde os dois moravam.

Recém-separada do marido, o escritor Axel Jensen, que voltou para a Noruega e a deixou com um bebê, Marianne engatou um romance com Cohen e os dois viveram juntos por 10 anos. Apaixonados, a presença dela trouxe mais tranquilidade para o poeta trabalhar. No poema Days of Kindness, Cohen escreve sobre o período:

No final dos anos 60, sem dinheiro para se sustentar, Cohen precisou voltar para Montreal. A despedida do casal foi retratada na clássica canção “So Long, Marianne”.

Depois Cohen partiu para Nova York, onde começou a escrever músicas e a deslanchar na carreira de compositor.

A temporada grega rendeu três livros de poesias, o mais famoso deles Flores para Hitler (1964), e dois romances, o de estreia, A Brincadeira Favorita (1963), e Beatiful Losers (1966), ainda sem edição no Brasil. Em 2011, ele ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, um dos mais importantes do meio literário.

Ao longo dos anos Cohen sempre voltou para Hidra. Hoje, sua família ainda é dona da mesma casa que o cantor comprou em 1960. Agora, os filhos Adam e Lorca e os netos passam os verões olhando para a vista do mar grego.

Casa de Leonard Cohen em Hydra
Casa de Leonard Cohen em Hydra

No aniversário de 80 anos do cantor, em 2014, fãs fizeram uma campanha para instalar um banco de praça em sua homenagem. O projeto que já foi aprovado pelo prefeito será construído em 2015, na estrada entre a vila de Hidra e Kaminia, a praia de pescadores onde Cohen costumava nadar.

Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)
Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)

COMO CHEGAR

  • Pode-se chegar de ferry boat a partir do Porto de Pireus, próximo a Atenas.
  • A viagem dura cerca de duas horas e a passagem custa 25,50 euros.
  • Ferry Boat
  • Sobre a cidade

PASSEIOS

TAVERNA XERI ELIA-DOUSKOS

Aberta há mais de 200 anos, a Xeri Elia é reconhecida como a taverna mais antiga de Hidra. O restaurante é especializado em frutos do mar e pratos tradicionais gregos. As mesas ficam no charmoso pátio com árvores. À noite, o local promove shows de grupos tradicionais de música grega. Leonard Cohen frequentava o lugar e gostava de tocar no pátio.

ANTIGA BILL´S TAVERN 

Localizado hoje no Bratsera Hotel, é o velho bar onde Leonard Cohen costumava beber

LAZAROS KOUNDOURIOTIS MANSION

Localizado no porto de Hidra, o museu funciona em uma construção de 1780 e mostra um pouco da história da ilha e da Guerra da Independência da Grécia. Entrada: 4 Euros.

DESTE FOUNDATION

O milionário colecionador de arte contemporânea Dakis Ioannou reformou um antigo açougue e o transformou em um anexo da Deste Foundation, sua fundação para a arte contemporânea em Atenas. O local funciona apenas no verão.

MONASTÉRIOS

A ilha possui seis monastérios históricos ligados à Igreja Ortodoxa. Localizado no topo de Hidra, o Monastério do Profeta Elias oferece uma vista panorâmica de todo o lugar. O templo da Igreja Ortodoxa foi fundado por monges em 1813 e durante a revolução de 1821 serviu de prisão e exílio para líderes revolucionários. A caminhada até o topo pode ser feita em até duas horas. O Convento Agia Eupraxia é feminino, foi construído em 1865 e situa-se próximo ao Profeta Elias.

PRAIAS

Apesar do terreno rochoso, Hidra possui pequenas praias de areia branca, que podem ser acessíveis a pé e de barco. Ao sul do porto, estão as praias de Kaminia, Molos e Vlychos. Ao norte encontra-se Mandraki. Hydronetta e Spillia são pontos próximos ao porto, onde é possível nadar. As praias de Bisti, Aghios Nickolas podem ser acessadas via táxi aquático.