Em tempos de selfie, a palavra oficial de 2013, viajar se tornou de forma mais enfática uma cultura de ver-e-registrar-para-ver-de-novo. Atlas (1984), livro em que Jorge Luis Borges  e a sua companheira María Kodama narram experiências de viagem por meio de relatos e poemas (ele) e fotos (ela), ganha uma conotação diferente quando lembramos que a obra foi escrita por alguém que não enxergava. Borges viajou ao lado de María a partir de 1975, ou seja, havia perdido a visão há décadas. Suas histórias se tornam um compilado de imaginação, lembranças, associações literárias e impressões captadas pelos outros sentidos.

Em certo ponto do livro, ele diz: “comprovo com uma espécie de melancolia agridoce que todas as coisas do mundo me conduzem a um encontro ou a um livro”. María admite que tal modus operandi lhe despertou, em alguns lugares que visitaram juntos, a sensação de que quem não via era ela.

A escolha dos destinos era aleatória: “antes de uma viagem, olhos fechados, unidas as mãos, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as gemas de nosso dedos adivinhassem o impossível”, revela María. Dessas aventuras, o Roteiros destaca sete descritas em Atlas.

Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor.

Irlanda

“De todas elas [as circunstâncias] a mais vívida é a Torre Redonda, que não vi, mas que minhas mãos tatearam, onde monges que são nossos benfeitores salvaram para nós em duros tempos o grego e o latim, ou seja, a cultura. Para mim a Irlanda é um país de pessoas essencialmente boas, naturalmente cristãs, tomadas pela curiosa paixão de ser incessantemente irlandesas.

Andei pelas ruas que percorreram, e continuam percorrendo, todos os habitantes de Ulisses.”

Veneza (ITÁLIA)

“Uma vez escrevi num prólogo Veneza de cristal e de crepúsculo. Para mim, crepúsculo e Veneza são duas palavras quase sinônimas, mas nosso crepúsculo perdeu a luz e teme a noite e o de Veneza é um crepúsculo delicado e eterno, sem antes nem depois.”

Passeio de balão na Califórnia (EUA)

Borges e María Kodama viajaram de balão no Vale de Napa, na Califórnia. Segundo María, a tradição diz que é preciso levar champanhe para dar aos donos da terra onde aterrissam.

“Na Califórnia, há cerca de trinta dias, María Kodama e eu fomos a um modesto escritório perdido no vale de Napa. Eram quatro ou cinco da manhã, sabíamos que os primeiros clarões da aurora estavam por ocorrer. (…) O espaço era aberto, o ocioso vento nos levava como se fosse um lento rio nos acariciava a testa, a nuca ou a face. Todos sentimos, acho, uma felicidade quase física. O passeio, que duraria uma hora e meia, era também uma viagem por aquele paraíso perdido que constitui o século XIX. Viajar no balão imaginado por Montgolfier também era voltar às páginas de Poe, de Júlio Verne e de Wells.”

[highlight]#dica:[/highlight] o Vale de Napa, perto de São Francisco, nos EUA, tem muitas atrações turísticas, com direito a um passeio de trem pelas principais vinículas (são várias) na região. No site oficial da cidade você tem todas as informações para dar um bom rolê por lá.

Genebra (SUÍÇA)

Embora tenha nascido em Buenos Aires, a vida de Borges se dividia entre a capital argentina e a cidade suíça. “Sei que voltarei sempre a Genebra, quem sabe depois da morte do corpo”, afirma em Atlas. Em 14 de junho de 1986, o escritor morreu na cidade e foi enterrado no cemitério de Plainpalais.

“Diferentemente de outras cidades, Genebra não é enfática. Paris não ignora que é Paris, a decorosa Londres sabe que é Londres, Genebra quase não sabe que é Genebra. As grandes sombras de Calvino, de Rousseau, de Amiel e de Ferdinand Hodler estão aqui, mas ninguém as evoca para o viajante. Genebra, um pouco à semelhança do Japão, renovou-se sem perder seus ontens.”

Meu último tigre (LUJÁN, ARGENTINA)

“Em minha vida sempre houve tigres”, conta Borges, no seu texto sobre o encontro tardio com um tigre real, em um zoológico de Luján, na Argentina, e a realização desse sonho de infância. O contato compensou a visão. “Com evidente e aterrada felicidade me aproximei desse tigre, cuja língua lambeu meu rosto, cuja garra indiferente ou carinhosa se demorou em minha cabeça.”

María Kodama conta que, mais tarde, enriquecendo a experiência, Borges distinguiu algo à contraluz: “Não me diga que é o que eu estou pensando”, “Sim, são seis tigres de Bengala passeando em torno da mesa”, respondeu ela.

#dica: Luján fica a 75km de Buenos Aires. Mas a gente avisa: o zoológico não coleciona muitos elogios na web de quem já o visitou. Há relatos negativos sobre as condições dos animais e do local. Pesquise antes de ir — e não apenas no site do zoo.

O deserto do Saara (EGITO)

“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara. O ato era insignificante, mas as palavras nada engenhosas eram justas e pensei que fora necessária toda a minha vida para que eu pudesse pronunciá-las. A memória daquele momento é uma das mais significativas de minha estadia no Egito.”

Colônia de Sacramento (EUA)

“Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música.”


PARA LER

  • Atlas, Jorge Luis Borges com María Kodama (Companhia das Letras)