por Carol Cunha


VISITADOSobrados de taipa e casas de portas e janelas estreitas. Poucas ruas e um clima frio e úmido, bem diferente da capital do Império. Quase nada resta do que foi a São Paulo do século 19, onde nasceu o poeta Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852).

Foi num sobrado na esquina da Rua da Freira com a da Cruz Preta, atuais ruas Senador Feijó e Quintino Bocaiuva, no centro de São Paulo, que o poeta nasceu, em 12 de setembro de 1831. O endereço era a casa de seu avô materno, Severo Mota.

Os 21 anos de vida de Maneco, como o poeta era chamado pelos familiares e amigos, dividiram-se, desde cedo, entre Rio e São Paulo. Em 1833, aos 2 anos de idade, em companhia dos pais, mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1840, ingressou no colégio Stoll. Em 1844, retorna a São Paulo com seu tio. Regressa, novamente, ao Rio no ano seguinte, entrando para o internato do Colégio Pedro 2ª.

O POETA ÁLVARES DE AZEVEDO
O POETA ÁLVARES DE AZEVEDO

A vida de Álvares de Azevedo em São Paulo

Em 1848, ele retorna à capital paulista para entrar na Faculdade de Direito de São Paulo, seguindo os passos do pai.

Naquela época, a recém-aberta faculdade (inaugurada em 1827) tinha pouco mais de 60 estudantes, filhos de famílias abastadas de todo o país. Assim como nos colégios por onde passou, consta ter sido excelente aluno.

Álvares tinha apenas 17 anos quando deixou a casa da família no Rio. A terra da garoa ainda era uma bucólica província que ele detestava. Uma de suas constantes reclamações eram o tédio e as calçadas. O poeta se referia a cidade como “mal ladrilhada” e “caipira” e chegou a escrever: “a vida aqui é um bocejar infindo”.

“Não há passeios que entretenham nem bailes, nem sociedades, parece isto uma cidade de mortos – não há nem uma cara bonita em janela – só rugosas caretas desdentadas – e o silêncio das ruas só é quebrado pelo ruído das bestas sapateando no ladrilho das ruas. […] Passam-se dias e dias sem que eu saia de casa – mas que hei de eu fazer? As calçadas não consentem que um par de pés guarnecidos de um par de calos – como os meus – possam andar vagando pelas ruas”, escreve ele em carta de 12 de junho de 1849.

O escritor fez parte da 2ª fase do Romantismo brasileiro, o movimento conhecido como ultrarromantismo, muito influenciado pelo poeta britânico Lord Byron (1788-1824). Ele também gostava de escritores como Shakespeare, Werner, Musset e Victor Hugo.

São Paulo foi retratada em suas cartas e livros, como Macário, que tem como personagem um estudante e poeta romântico que vai estudar em São Paulo e é considerado o melhor documento para entender a cidade no século 19.

O CENTRO VELHO DE SÃO PAULO EM 1840

Outras obras importantes do poeta são Noite na Taverna, uma coletânea de contos cuja principal lição é: o amor verdadeiro só é possível após a morte, e Lira dos Vintes Anos, obra na qual figuram tanto o sentimentalismo típico dos ultrarromânticos quanto humor, ironia e sarcasmo.

Morto aos 21 anos por consequências de uma grave queda do cavalo, Álvares foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, num mausoléu da família, perto dos túmulos de Floriano Peixoto e outros nomes importantes do final do século 19. Em São Paulo, Álvares dá nome a uma biblioteca pública e a um edifício no centro, na Rua Benjamin Constant, 122.

Abaixo, listamos alguns locais que fizeram parte das andanças do poeta pelo centro de São Paulo — e que você pode fazer em uma manhã ou tarde, a pé.


Faculdade de Direito do Largo São Francisco

Instalada no antigo Convento de São Francisco, no século 19 a Faculdade de Direito revolucionou a vida cultural da cidade. Seus alunos faziam saraus, bailes e espetáculos teatrais.  Álvares entrou na faculdade em 1848, e no ano seguinte, fundou a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano.

Na entrada do Largo São Francisco foi erguida uma estátua de bronze do poeta. Esculpida pelo artista Amadeo Zani em 1907, foi encomendada com doações do Centro Acadêmico XI de agosto para homenagear o ilustre estudante.

A estátua é repleta de polêmicas. Ela foi inaugurada originalmente na Praça da República e lá permaneceu até a década de 1950, quando foi retirada do local para um depósito, após a verificação de que ela retrataria na verdade o escritor Fagundes Varela (também ex-aluno).

Com a confusão, o pedestal na praça ficou vazio até 1984, quando membros da Academia Paulista de Letras solicitaram a volta da imagem.

Para colocar o ponto final no imbróglio, o imortal Lycurgo de Castro Santos Filho declarou na época: “Quanto à semelhança, parece que a imagem corresponde à de Fagundes Varela na fase final de sua vida. Todavia, a referida herma foi esculpida com a intenção de representar e rememorar Álvares de Azevedo”.

Em 2005, o Centro Acadêmico XI de Agosto lançou a campanha “Volta, Álvares!” para recuperar o busto. Os estudantes reclamavam do estado de má conservação da obra na praça e diziam que faculdade seria sua verdadeira morada.

Na noite do dia 20 de maio daquele ano, durante o evento da Virada Cultural, os estudantes postaram-se diante de Álvares de Azevedo. Após uma procissão com declamação de poesias e vinho, um guindaste removeu a herma, que seria restaurada e levada finalmente para a entrada da faculdade.

O nome de Álvares é um dos que estão no pórtico da entrada principal da faculdade de Direito de São Paulo. Mais dois nomes também estão gravados: os dos escritores românticos Fagundes Varela e Castro Alves, que, assim como o poeta, estudaram na instituição.

ESCULTURA DE ÁLVARES DE AZEVEDO; DETALHE DA FRASE CRAVADA NA BASE POSTERIOR DA ESCULTURA (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)
ESCULTURA DE ÁLVARES DE AZEVEDO; DETALHE DA FRASE CRAVADA NA BASE POSTERIOR DA ESCULTURA (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)
ESCULTURA DE ÁLVARES DE AZEVEDO EM FRENTE À FACULDADE DE DIREITO DE SÃO PAULO, NO LARGO SÃO FRANCISCO (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)
ESCULTURA DE ÁLVARES DE AZEVEDO EM FRENTE À FACULDADE DE DIREITO DE SÃO PAULO, NO LARGO SÃO FRANCISCO (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)

 

O NOME DO POETA ESTÁ NUM DOS TRÊS PÓRTICOS DA ENTRADA DA UNIVERSIDADE (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)
O NOME DO POETA ESTÁ NUM DOS TRÊS PÓRTICOS DA ENTRADA DA UNIVERSIDADE (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)

Outro ponto de interesse na faculdade é o mausoléu do alemão Júlio Frank. O corpo do professor de história foi sepultado na própria instituição em 1841. Como não era católico, ele teria de ser sepultado no cemitério reservado para os escravos. Os alunos não permitiram e o enterraram na própria faculdade.

Tido como um homem culto e de vanguarda, Frank veio para o Brasil para lecionar na faculdade. Na década de 1830 ele criou a “Bucha”, apelido da Burschenschaft, uma associação estudantil criada para ajudar alunos mais pobres.

Considerada uma sociedade secreta, seus integrantes também tinham um pensamento liberal, como o abolicionismo e ideais republicanos. Durante o Império, foram “bucheiros” inúmeros políticos e intelectuais como Álvares de Azevedo, Castro Alves, o barão do Rio Branco, Rui Barbosa, visconde de Ouro Preto, entre outros.

Entre repúblicas, pensões e casa do satã

A cidade vivia um tempo de marasmo e as atividades culturais eram impulsionadas pelos estudantes que moravam em repúblicas e pensões. O poeta morou em várias delas, na Rua Boa Vista e na Ladeira de São Francisco (atual Rua do Riachuelo).

Entre seus contemporâneos encontravam-se José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, os dois últimos suas maiores amizades em São Paulo e com os quais constituiu uma república de estudantes na Chácara dos Ingleses (também chamada de Casa do Satã) e fundou a Sociedade Epicuréia.

O solar foi construído no local onde hoje se situa a Praça Almeida Jr. (bairro da Liberdade). De praça sobrou apenas o nome, já que na verdade a área é um gramado vizinho à movimentada Avenida Radial Leste.

A CHÁCARA DOS INGLESES, NA VISÃO DO PINTOR PEDRO ALEXANDRINO (Divulgação)
A CHÁCARA DOS INGLESES, NA VISÃO DO PINTOR PEDRO ALEXANDRINO (Divulgação)

Álvares de Azevedo teria vivido ali em 1847. Na obra Macário, o casarão aparece como sendo a “Casa Negra”. No livro, quando o poeta revela o endereço do demônio, ele não poderia ser outro senão o solar da Chácara dos Ingleses: “Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando à direita, defronte ao cemitério…”, diz Satã. A referência foi suficiente para criar uma áurea mítica em torno da casa.

As sessões da Sociedade Epicuréia – realizadas na Chácaras dos Ingleses e em outras repúblicas da periferia – abalaram a pacata São Paulo. O grupo era famoso pelas festas regadas a álcool e as visitas noturnas ao cemitério dos Aflitos, que ficava próximo ao casarão.

Diz a lenda, que na Casa Negra havia declamação de poemas, orgias, brindes a Baco, a Epicuro e a Sileno, encenações d’A Divina Comédia e leituras de contos de horror — função que cabia a Álvares. Na época, o escritor e seus colegas pintaram a casa toda de preto. Foi ali que Álvares escreveu a famosa obra Noite na Taverna.

A capela dos Aflitos (Liberdade)

Ao lado da Chácara dos Ingleses ficava o Cemitério dos Aflitos, na atual Rua da Glória, no bairro da Liberdade (para ser mais exato, o cemitério ocupava boa parte da atual praça do metrô Liberdade). A Praça da Liberdade era conhecida como o Largo da Forca ou dos Enforcados, local em que prisioneiros eram enforcados.

Já o cemitério foi construído entre 1774 e 1789 e foi o primeiro cemitério da cidade de São Paulo. Enquanto famílias ricas eram enterradas em igrejas, o Aflitos recebia escravos, indigentes, animais e os condenados à morte.Para imitar Byron, Álvares e os amigos andavam de capas pretas e faziam visitas noturnas ao terreno, onde bebiam vinho em caveiras roubadas.

Do antigo cemitério, desativado em 1858, sobrou apenas uma pequena igreja, a Capela dos Aflitos, localizada no final de um beco de cerca de 100 metros na Rua dos Aflitos.

A capela ficou popular devido a Chaguinha, soldado negro que foi condenado à morte em 1821, por liderar uma revolta contra a falta de pagamento do soldo. Conta-se que no Largo da Forca houve 3 tentativas de enforcamento, mas a corda sempre arrebentava. Não se sabe exatamente como ele morreu, mas a história correu São Paulo e atraiu a devoção de fieis que creditam ao soldado a realização de milagres.

Dentro da capela, os devotos acendem velas e costumam bater três vezes na porta de madeira que dá para a sala onde ficava a cela dos que aguardavam a execução. O visitante tem que bater para Chaguinha ouvir o pedido.

A CAPELA DOS AFLITOS, NA LIBERDADE, EM SÃO PAULO (FOTO: Andréia Martins/Roteiros Literários)
A CAPELA DOS AFLITOS, NA LIBERDADE, EM SÃO PAULO (Foto: Andréia Martins/Roteiros Literários)

Solar da Marquesa de Santos

O Solar da Marquesa de Santos foi construído no século 18 na Rua do Carmo, hoje Rua Roberto Simonsen. Dona Domitila de Castro Canto e Melo, a famosa amante do imperador D. Pedro I, comprou o sobrado em 1834 e viveu ali por mais de 30 anos, depois de se casar com Tobias Aguiar.

Ela era uma das pessoas mais ricas da província e  promovia grandes bailes na sua casa. A marquesa também era uma espécie de “madrinha dos estudantes” da faculdade do Largo São Francisco. Era amiga dos professores de Direito e três de seus filhos se formaram na Academia.

Álvares de Azevedo era filho de uma amiga de infância da Marquesa de Santos e frequentava diversos eventos na casa. Em carta para a mãe datada de 5 de setembro de 1844, ele comenta sobre um evento de aniversário: “Ontem a marquesa de Santos me mandou convidar para ir jantar em sua casa por ser o dia de anos do Tobias.”

Hoje, o Solar da Marquesa abriga a sede do Museu da Cidade de São Paulo e está aberto à visitação. Entre os objetos que pertenceram à Marquesa estão uma cama de jacarandá e um piano, além de fotos e histórias dos convidados ilustres de suas festas e ceias. A foto do jovem de olhar melancólico, Álvares de Azevedo, está lá.

 

O SOLAR DA MARQUESA, CONSTRUÇÃO EM TAIPA DE PILÃO DO SÉCULO 18 (Divulgação)
O SOLAR DA MARQUESA, CONSTRUÇÃO EM TAIPA DE PILÃO DO SÉCULO 18 (Divulgação)

 

UM DOS AMPLOS SALÕES DO SOLAR DA MARQUESA, PALCO DE FESTAS E BAILES (Divulgação)
UM DOS AMPLOS SALÕES DO SOLAR DA MARQUESA, PALCO DE FESTAS E BAILES (Divulgação)

Serviço – Museu da Cidade de São Paulo

O Solar da Marquesa de Santos hoje abriga o Museu da Cidade de São Paulo. O local abriga diferentes exposições no 1º piso, além de realizar visitas na casa. Há serviço educativo no local.

  • Onde: Rua Roberto Simonsen, 136 – Sé
  • Quando: Aberto de terça a Domingo, das 9h às 17h
  • Quanto: Entrada gratuita Mais informações Telefone: 3241-1081 e-mail: museudacidade@prefeitura.sp.gov.br

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