por Andréia Martins


Federico García Lorca (1898-1936) chegou a Nova York, nos EUA, em junho de 1929 e vivia um momento delicado em sua carreira. O poeta veio de Madrid (Espanha) para estudar inglês na Universidade de Columbia, a convite do professor Fernando de los Ríos, que convenceu seus pais a bancarem sua viagem. Na época, em sua terra natal, seu mais recente livro, Romancero Gitano, era best-seller, mas havia recebido algumas críticas negativas.

O momento era oportuno para mergulhar em novas vivências. Lorca ficou em Nova York até março de 1930. Nesse tempo, acabou não frequentando muito curso de inglês, mas a cidade o inspirou a escrever e a rever seu papel como artista.

 Da dir. para esq.: Lorca ao lado de Maria Antonieta Rivas, uma milionária mexicana, e um casal de conhecidos (Fundação Federico García Lorca)

Da dir. para esq.: Lorca ao lado de Maria Antonieta Rivas, uma milionária mexicana, e um casal de conhecidos no campus da Columbia University (Fundação Federico García Lorca)

Na cidade ele assistiu aos primeiros filmes falados, ficou maravilhado com a arquitetura, chocado com os problemas da metrópole, viu de perto os efeitos da Crise da Bolsa de 1929, pode vivenciar de forma mais livre a sua sexualidade, conheceu sinagogas e templos de outras religiões, fez novos amigos e ainda passou três meses em Cuba.

A experiência inspirou os poemas do livro Um Poeta em Nova York. Em 1936, já de volta a Madri, Lorca deixou o manuscrito do livro na mesa de seu editor, José “Pepe” Bergamín, com um bilhete dizendo que voltaria no dia seguinte, provavelmente, para falar dos detalhes do livro.

O poeta nunca retornou. Nas semanas seguintes, com a explosão da Guerra Civil Espanhola, Lorca acabou assassinado em Granada (Espanha), por fascistas. Um Poeta em Nova York só seria publicado em 1940.

Abaixo, listamos alguns dos lugares* visitados por Lorca durante sua passagem por Nova York. Se você está programando uma viagem para a cidade e não sabe muito bem por onde começar, os passeios do autor espanhol são uma boa dica.

UNIVERSIDADE DE COLUMBIA

Da janela de seu dormitório na Universidade Columbia (116th St & Broadway), no 12º andar do prédio John Jay Hall (onde o quarto custava US$ 1 por dia), Lorca assistiu à construção da Ponte do Rio Hudson, uma das mais famosas da cidade e mais tarde chamada de Ponte George Washington.

Poucos meses depois ele se mudou para outro prédio no campus, no número 617 do Furnald Hall. De lá ele podia ver a Broadway e as principais avenidas da cidade. O movimento e a grandiosidade dos prédios chamava a atenção do poeta. Em carta escrita à família em 28 de junho de 1929, ele escreve: “Toda Granada (cidade espanhola) caberia em três destes prédios“.

Foto mostra Lorca com amigos ao lado do relógio de sol da Universidade de Columbia (Fundação Federico García Lorca)
Foto mostra Lorca (em pé) com amigos ao lado do relógio de sol da Universidade de Columbia. Hoje, do monumento, resta apenas a base (Fundação Federico García Lorca)
 Quarto no prédio John Jay Hall, no campus da universidade, semelhante ao que hospedou Lorca (Columbia University Library)

Quarto no prédio John Jay Hall, no campus da universidade, semelhante ao que hospedou Lorca (Columbia University Library)

 

Na universidade, ele apresentou algumas poesias em diferentes ocasiões e locais, como no Philosophy Hall, que na época abrigava o Instituto Hispânico, e a Casa Italiana, onde Lorca dirigiu uma noite dedicada à música hispânica.

Ele gostava da sensação de voltar à universidade após um passeio pela cidade. “Retornar para Columbia é como voltar para casa vindo de um país estrangeiro. Tudo está quieto e silencioso“, escreveu o poeta em carta à família.

RIVERSIDE DRIVE

O campus da universidade, localizada em Manhattan, ficava à beira do rio Hudson. Ali, Lorca costumava fazer longas caminhadas no Riverside Drive, uma via norte-sul no bairro, acompanhado de amigos. À noite, o local já era frequentado pela comunidade GLBT. Aliás, relatos de amigos dão a entender que Lorca se sentiu confortável para viver sua sexualidade em Nova York, longe dos olhares da família e sem a pressão da religião.

Os edifícios antigos, residenciais e comerciais, e o parque são alguma das atrações do Riverside Drive. No livro Um Poeta em Nova York o local é palco de um assassinato.

BRONX ZOO

O escritor espanhol simpatizou muito com o zoológico quando o visitou em 1929. “Onde eu me senti novamente criança e lembrei de todas as crianças do mundo”, disse ele sobre o local durante uma leitura de seus textos de Um Poeta em Nova York, na Espanha, entre 1932-1933. O Bronx Zoo (2300 Southern Boulevard, Bronx) é o maior zoológico urbano dos EUA.

CONEY ISLAND

Lorca embarcou numa “viagem” feita de pedalinho no dia 4 de julho de 1929, dia da independência norte-americana, até a península de Coney Island, no Brooklyn. Lá ele visitou o Luna Park e se assustou com a multidão que teve a mesma ideia naquele domingo.

No livro Um Poeta em Nova York ele comenta a experiência no poema “Landscape of a Vomiting Multitude: Nightfall at Coney Island”. Acredita-se que o passeio noturno Trip to the Moon, o mais famoso do parque, tenha inspirado o poeta a escrever o roteiro de um filme surrealista que ele acabou não produzindo.

O Luna Park que Lorca conheceu funcionou até 1944. Um segundo parque foi reaberto no mesmo local, em 2010, e funciona até hoje. Do que Lorca viu no parque restaram alguns elementos como o pórtico da entrada principal e o rosto de um homem sorrindo em tom de deboche, um dos cartões de visita de Coney Island.

A ilha tem muitas outras atrações  — só não escolha ir lá no 4 de julho, ou você pode repetir a experiência de Lorca.

HARLEM

Uma das melhores experiências de Lorca na Big Apple foi conhecer o bairro do Harlem. Dois poemas de Um Poeta em Nova York fazem clara referência ao bairro: “Norm and Paradise of the Blacks” e “The King of Harlem”.

Em um dos passeios por lá, Lorca entrou no cabaré Smalls Paradise (na época, na 2294 da 7ª Avenida) e assistiu ao show de uma dançarina negra. Para o poeta, os afro-americanos eram “o elemento mais espiritual de um EUA sem alma”. Sobre o show, ele escreveu:

Em um cabaret – Smalls Paradise – no qual o público dançante era negro, suado, e granulado como uma lata de caviar, eu vi uma dançarina nua estremecendo convulsivamente em baixo de uma chuva de fogo. Mas enquanto todos gritavam achando que ela estava possuída pelo ritmo, eu a encarei e, apenas por um segundo, senti sua reserva, seu afastamento, sua certeza interior de que ela não tinha o que fazer com aquela audiência de admiradores americanos e estrangeiros. Todo o Harlem era como ela“.

GRAND CENTRAL STATION

Lorca embarcou ali para uma breve temporada de férias em Vermont após o término das aulas, em agosto de 1929. Em carta aos pais, teceu comentários sobre Grand Central Station (89 East 42nd Street): “A Grande Estação Central [sic] assusta qualquer um… mas esse país mecânico parece ter sido feito para tolos… Você não se perde mesmo se quiser!”.

IGREJAS E SINAGOGA

Localizada na 15 East 97th Street, ao lado ao Central Park, a Russian Orthodox Church of Christ (Igreja Russa Ortodoxa de Cristo) foi visitada por Lorca no seu primeiro ano na cidade. A visita foi descrita em carta aos pais:

A Igreja Russa é admirável, quase-quase uma Católica. Mas é extremamente bonita e cheia de emoção. A massa atinge o clímax quando o padre levanta o crucifixo e explode em um alto lamento com uma linda melodia. (…) A cerimônia durou para sempre – tem que ficar de pé e ajoelhado por quase duas horas, e eles me purificaram com incenso 12 ou 15 vezes“.

A Igreja Russa Ortodoxa de Cristo (Wiki Commons)
A Igreja Russa Ortodoxa de Cristo (Wiki Commons)

 

Do outro lado do Central Park está a Sinagoga Shearith Israel (8 West 70th Street). A visita ao local foi mais uma vontade de Lorca de conhecer outras religiões e ritos. “Eu também estive em uma sinagoga, para judeus espanhóis. Eles cantam coisas maravilhosas, e o cantor era um verdadeiro prodígio de emoção. Eu conclui que em Granada quase todos nós somos judeus. Foi incrível — eles todos pareciam ser de Granada“, escreveu ele em carta aos pais.

A peregrinação por templos religiosos não parou por aí. Na noite de Natal de 1929, após se reunir com amigos no apartamento do casal Norma e Herschel Brickell, Lorca conheceu a igreja Saint Paul the Apostle (igreja do Apóstolo São Paulo, na 405 West 59th Street). Para Lorca, “a igreja era a mais bonita do mundo e a música também, muito melhor do que qualquer coisa que eu tenha ouvido na Espanha”.

MUSEU METROPOLITANO DE ARTE

Eu passei a manhã inteira no [Metropolitan] Museu de Nova York, que é maravilhoso, tomando notas sobre virgens pintadas pelos primitivos do século 14 para o meu estudo sobre Gonzalo de Berceo“, escreveu ele em carta aos pais datada de novembro de 1929.

O Metropolitan Museum of Art (nº 1000 da 5ª Avenida) também tem entrada por dentro do Central Park. Hoje, ele é um dos maiores e mais importantes museus do mundo. Em sua coleção destacam-se a coleção de pintura europeia dos séculos XII-XX e obras da arte antiga (grega, romana, egípcia e assírio-babilônica) e oriental.

COLUMBUS CIRCLE

No Natal de 1929 Lorca foi levado pelos amigos ao Childs Restaurant na rotatória Columbus Circle. O Childs hoje não existe mais. No entanto, vale a pena conhecer a rotatória, a segunda praça mais visitada de Manhattan, atrás apenas da Times Square.

A Columbus Circle é a interseção da Broadway com a Central Park West, Central Park South (59th Street) e a Eighth Avenue.

CEMITÉRIO BETH HAIM

O poema “Cemitério Judeu” foi inspirado neste cemitério judeu, situado na St. James Place com a Oliver Street, próximo da praça Chatham. É o mais antigo cemitério judeu em Nova York.

O edifício comercial Woolworth Building, em Manhattan
O edifício comercial Woolworth Building, em Manhattan

CHINATOWN

Lorca acabou no bairro por engano. Lá encontrou baixas casas de madeira e, claro, muitos chineses. No almoço, comeu em um restaurante chinês por US$ 0,60 centavos, segundo ele, “uma refeição bem estranha, fria, mas, incompreensivelmente, saborosa”.

ARQUITETURA GÓTICA

Uma das coisas que fascinaram Lorca foi a arquitetura da cidade, especialmente o Woolworth Building (Broadway, 233, entre o Park Place e Barclay Street) conhecido como a catedral do comércio. Os arcos góticos do edifício de 57 andares, citados no poema ”Nascimento de Cristo”, também do livro Um Poeta em Nova York, deixaram Lorca boquiaberto.

BATTERY PARK

Battery Park é uma área no sul da ilha de Manhattan que abriga um parque urbano. Mas na região você encontra prédios residenciais e comerciais. Ou seja, é um local muito movimentado, com amplo espaço para caminhadas, prática de esportes, locais para comer à beira do rio Hudson, entre outras opções.

Na região você também encontra o Aquário de Nova York, visitado por Lorca e o mais antigo aquário em operação nos EUA.


PARA LER

  • Um Poeta em Nova York. Federico García Lorca

 

*O texto foi baseado no Streets and Dreams – García Lorca in New York, mapa interativo produzido por Christopher Maurer e pela Fundação Federico García Lorca