por Carol Cunha

Os poemas de chão, feitos da junção de duas palavras
Os poemas de chão, feitos da junção de duas palavras, expostos na Frestas – Trienal de Artes de Sorocaba

VISITADONão é de hoje que arte e literatura caminham juntas, sejam livros inspirando artistas plásticos, ou a vida e obra desses artistas inspirando escritores.

O que seria do mundo sem as coisas que não existem? Essa pergunta é o mote da exposição “Frestas- Trienal de Artes”, realizada pelo Sesc, em Sorocaba (SP). O tema surgiu de uma frase do poeta Paul Valéry, que refletia sobre “o que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem”.

Além do Sesc, a exposição ocupa outros espaços da cidade, como o Palacete Scarpa, Barracão Cultural, o simpático Museu da Estrada de Ferro Sorocabana e o shopping Pátio Cianê. A primeira fase da mostra termina em 8 de fevereiro com a participação de artistas nacionais e internacionais. A partir de março, entram em cartaz os artistas que participaram do Ateliê Aberto para Invenção do Inexistente.

Se você está em São Paulo, visitar Sorocaba é fácil e rápido (uma viagem de no máximo duas horas). O Roteiros passou por lá e listou as obras ligadas ao universo literário (e também à filosofia e dramaturgia), de Hilda Hilst a Manoel de Barros – e há muito para ser ver ainda entre outras obras, fotos, instalações e peças.

Todas estão expostas no prédio do Sesc, mas ficam até o dia 8/2. Então corre lá!


Serviço e programação completa da Fresta

Locais da exposição:
-Sesc Sorocaba: Rua Barão de Piratininga, 555 – Jd. Faculdade. Tel.: (15) 3332.9933
-Barracão Cultural: Av. Afonso Vergueiro S/N, ao lado da estação ferroviária, Centro.
-Museu da Estrada de Ferro Sorocabana: Rua Álvaro Soares, 553, Centro. Tel.: (15) 3231.1026
-Palacete Scarpa: Rua Souza Pereira, 448, Centro. Tel.: (15) 3211.2911
-Pátio Cianê Shopping: Av. Doutor Afonso Vergueiro, 823 – Loja 118-1. Tel.: (15) 3333.3333


Hilda Hist: obra Vai dormir, Margarete, de Luísa Nóbrega

A obra Vai dormir, Margarete é resultado de uma residência da artista paulistana Luísa Nóbrega na Casa do Sol, em Campinas (SP), onde morava a escritora Hilda Hilst (1930-2004).

A artista repetiu os experimentos que Hilda realizou na década de 1970 sobre o Electronic Voice Phenomena — escuta de vozes misteriosas a partir de gravações de frequências de rádio. A escritora tratava sua pesquisa como uma questão científica acerca da inexistência da morte e da comunicação com o outro.

Durante dois meses, Luísa tentou identificar as vozes de mortos e palavras e frases em meio ao ruído branco. O resultado é uma instalação onde o visitante coloca fones de ouvido que emitem diferentes sons em frente a um projetor que apresenta frases soltas que eram ouvidas pela escritora durante sua pesquisa.

Manoel de Barros: instalação Tenho o privilégio de não saber quase tudo, de Malu Saddi

Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto (2014) é uma frase do poeta Manoel de Barros (1916-2014) e que dá nome à obra de Malu Saddi.

A instalação é composta por uma mesa com um orifício ao centro, no qual um cone é instalado sugerindo um erro de fábrica e desvinculando esse objeto de sua função. O processo aparentemente ordinário de desordenar permite a perda de sentido e dá um novo significado às coisas. Há ainda um peixe solto no ar, feito de bronze.

Manoel de Barros afirmava que as coisas inúteis ficam para a poesia e gostava de renomear a “função” das palavras e seus sentidos para encontrar nelas novas maneiras de se ver o mundo. Nas palavras do escritor:

“A gente gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias. Porque a gente também sabia que só os absurdos enriquecem a poesia” (poema I).

Instalação 'Tenho o privilégio de não saber quase tudo', de Malu Saddi

Obra Poemas de Chão, de Jorge Menna Barreto

O artista gaúcho possui o trabalho Poemas de Chão, 2102, no qual criou palavras em tapetes. Em Desleituras (2014) ele criou tapetes de borracha com frases inventadas a partir da leitura de obras da exposição.

Com criatividade, imprimiu neologismos inusitados como “influânsia”, “corigem”, “enchãozado”, “frouxura”, “escritica”. Os tapetes estão espalhados pelo Sesc Sorocaba e outros locais que abrigam a exposição.

Os poemas de chão, feitos da junção de duas palavras
Os poemas de chão, feitos da junção de duas palavras

Samuel Beckett, na obra Teto, do Coletivo Irmãos Guimarães

A sala com lâmpadas incandescentes, vidros e um texto escrito a carvão sobre a parede chama a atenção. O Coletivo Irmãos Guimarães (Fernando e Adriano Guimarães), de Brasília, traz para o Sesc a obra Teto (2014), na qual o texto homônimo do dramaturgo Samuel Beckett é transcrito na íntegra, de cabeça para baixo.

É o tipo da instalação suntuosa: uma sala completamente iluminada com uma luz que vai reduzindo sua intensidade. Dado o tamanho da sala, o texto em carvão é pouco perceptível; mas a ousadia e grandiosidade da ideia chama atenção.

Teto, obra do Coletivo Irmãos Guimarães
Teto, obra do Coletivo Irmãos Guimarães

Ao voltar a si a primeira visão é de branco. Algum tempo depois de voltar a si a primeira visão é de branco opaco. Por algum tempo depois de voltar a si os olhos continuam fechados. Quando por fim se abrem são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência fechados de ter voltado a si. Quando por fim se abrem são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência obscura obrigados a se fechar e ter voltado parcialmente voltado a si. Quando por fim obrigados se abrem eles são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência obscura desobrigados de se fechar de ter parcialmente voltado a si. Quando por fim desobrigados se abrem eles são saudados por esse branco opaco. Mais além não se pode. Adiante. |  trecho do texto “Teto”

MICHEL FOUCAULT E NOAM CHOMSKI NA OBRA BATALHA, DE KAUÉ GARCIA

Você já imaginou ver os filósofos Michel Foucault (1926-1984) e Noam Chomsky dando uma de MCs? Bem, é assim que eles aparecem na vídeoinstalação de Kauê Garcia, Batalha (2013), exposta em uma pequena sala do Sesc Sorocaba.

O projeto faz um duelo de MCs (mestres de cerimônias, que no caso proposto, seria focado no MC de hip hop, que canta improvisos sobre uma base em ritmo de RAP ), onde um oponente enfrenta o outro “armado” de um discurso cantado a fim de desmoralizar ou desqualificar o argumento do “adversário”, que em muito se assemelha a estrutura composta por tese e antítese.

Nesse caso, os dois pensadores protagonizam o duelo através de uma colagem sonora realizada a partir da apropriação de um famoso debate realizado entre eles na Holanda em 1974. Na sala do Sesc, dois telões exibem o vídeo, cada um dando voz a um dos MCs.

Batalha – 2013 – Kauê Garcia from kauegarcia on Vimeo.

Menos Um, de Veronica Stigger

A violência é tema da obra da escritora e crítica de arte gaúcha Veronica Stigger – que em 2014 venceu o prêmio SP de Literatura com o melhor livro do ano de autor estreante com Opisanie Swiata (Cosac Naify).

Na videoinstalação Menos Um (2014), Veronica aborda recentes assassinatos e violações de direitos dos indígenas no Brasil. Os conflitos pela posse da terra têm influenciado o aumento de suicídios entre índios, principalmente da etnia Guarani-Kaiowá.

A obra apresenta imagens dessas narrativas, todas elas extraídas de reportagens encontradas na internet e de frases deixadas nos comentários dos mesmos textos. A frase mais repetida nesses comentários é exatamente “menos um”.

Menos um (vídeo 1) from Eduardo Sterzi on Vimeo.


PARA LER
  • Poesia Completa, Manoel de Barros (Leya)
  • Opisanie Swiata, Veronica Stigger (Cosac Naify)
  • Companhia e Outros Textos, Samuel Beckett (Editora Globo)