por Carol Cunha

A estação de metrô Arts et Métiers, recriada com base no livro '20 Mil Léguas Submarinas', de Júlio Verne
A estação de metrô Arts et Métiers, em Paris, recriada de forma a lembrar um submarino inspirado no livro ’20 Mil Léguas Submarinas’, de Júlio Verne

steampunk é um gênero da ficção científica que se inspira no século 19 e na Era Vitoriana inglesa. As histórias se passam em uma realidade alternativa no século em que a principal fonte de energia era o vapor (“steam” em inglês).

Foi após a Revolução Industrial que surgiram tecnologias como o vapor e o motor a explosão. O mundo ficou fascinado pelas máquinas e iniciou a corrida pelo domínio dos céus, os transportes e para a descoberta da eletricidade.

Cartolas, fraques, balões, dirigíveis, trens e todo tipo de engenhocas, engrenagens e cenários vitorianos foram absorvidos por esta literatura, misturando o imaginário científico do século 19 e o período eduardino (1901-1913), tempo de efervescência cultural, a elementos de fantasia.

As obras clássicas de literatura fantástica de H.G Wells, Júlio Verne e H.P. Lovecraft inspiraram o gênero, que despontou nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990, com histórias ambientadas na chamada “Era do Vapor”.

Embora o steampunk tenha como principal referência a Inglaterra, a França também esteve na vanguarda da inovação tecnológica da época, com destaque para as experiências aeronáuticas, descobertas no campo da química e física e as explorações geográficas. Um dos marcos na cidade foi a realização da famosa Exposição Universal de Paris (1900), feira com quase 50 pavilhões dedicados a inovações.

A França é a terra de Júlio Verne (Nantes, 1828-1905), precursor da ficção científica, e também do ilustrador Albert Robida (Compiègne, 1848-1926), autor de uma série de desenhos futuristas e um dos pioneiros do romance gráfico. Os dois têm obras retratam como seriam os edifícios, roupas e veículos da Paris do século 20.

Em 1882, o artista francês Albert Robida fez uma litografia de como seria uma ida à Ópera no ano de 2000.
Em 1882, o artista francês Albert Robida fez uma litografia de como seria uma ida à Ópera no ano de 2000.

Se vocês gosta da atmosfera da literatura steampunk, o Roteiros Literários selecionou lugares que você precisa conhecer quando estiver em Paris:


Torre Eiffel

Ponto do turístico mais famoso da Cidade das Luzes, a Torre Eiffel se tornou o símbolo do progresso na virada para o século 20. Ela foi desenhada por Gustave Eiffel para celebrar o centenário da Revolução Francesa, ocorrido em 1889. Até 1930, ela era a construção mais alta da Europa.

Sua intrincada estrutura de ferro foi um feito para arquitetônico. Para ver a vista de Paris de uma maneira nova, os charmosos telescópios retrô localizados no alto da Torre são objetos que qualquer fã da época pode curtir.

Em 19 de outubro de 1901, o aviador brasileiro, Santos Dumont contornou a Torre Eiffel com o seu dirigível nº 6, transformando-se em um marco da história da aviação. Mais tarde, a torre foi vista em muitas viagens de zeppelins, comuns em Paris no início do século 20.

Para quem quer viver a experiência de viajar numa aeronave dessas, a empresa AirShip Paris oferece passeios de zeppelin.

Estação de metrô Arts et Métiers

Inaugurada em 1904, em 1994 a estação de metrô foi redesenhada pelo artista belga François Schuiten, que se inspirou na ficção científica de Júlio Verne para criar o novo ambiente. A linha 11 lembra o interior de um submarino e traz escotilhas na parede.

No livro 20 Mil Léguas Submarinas, de Verne, o professor Aronnax, seu fiel ajudante e o exímio arpoador Ned Land são feitos prisioneiros pelo Capitão Nemo e passam a viver a bordo do submarino Náutilus enquanto navegam por paisagens remotas do oceano.

Detalhe da estação de metrô Arts et Métiers
Detalhe da estação de metrô Arts et Métiers

Le Musée des Arts et Métiers

A estação de metrô fica em frente ao Museu de Artes e Ofícios (localizado no nº 60 da rua Réaumur), que pode ser considerado um “paraíso steampunk”.

O museu fica na antiga igreja de Saint-Martin-des-Champs e foi criado em 1794 para receber as novas invenções da época. Seu acervo conta com mais de 80 mil peças e protótipos classificados em categorias como Instrumentos Científicos, Materiais, Energia, Mecânica, Construção, Comunicação e Transporte.

O visitante poderá conhecer protótipos originais de calculadoras antigas, binóculos, as primeiras máquinas de escrever, câmaras obscuras, robôs “ancestrais”, entre outros itens. Existe ainda uma réplica do laboratório de Lavoisier, considerado o pai da química moderna (1787). Alguns dos protótipos mais importantes para a ciência estão lá:

L’Avion n° 3 de Clément Ader (1890): Antes de Santos Dumont, diversos inventores haviam tentado voos em aparelhos motorizados, mais pesados que o ar. Em 1897, o engenheiro francês Clément Ader criou uma máquina voadora que lembrava um morcego de asas abertas e deu a ela o nome de “avião”.  As asas eram  feitas de seda e bambu e planaram apenas por alguns metros.

L’Avion n° 3 de Clément Ader (1890)
L’Avion n° 3 de Clément Ader (1890)

Máquina a vapor de Nicolas Cugnot (1769): O museu possui uma réplica do primeiro carro movido a vapor. Em 1769, o engenheiro francês Nicolas Cugnot criou uma carruagem movida a vapor, considerada um ancestral do automóvel.

Pêndulo de Foucault (1851): As esferas chamadas de Pêndulo de Foucault fazem referência ao físico francês Jean Bernard Léon Foucault, que demonstrou em experimento a rotação da Terra sob seu eixo. Um protótipo do pêndulo pode ser apreciado no museu.


Veja também: Museu Júlio Verne, em Nantes, completa o roteiro francês pelo universo steampunk


Musée des Automates

Autômatos são engenhocas mecânicas que se movem sem a ajuda de eletricidade e são considerados os ancestrais dos robôs. Esses objetos aparecem em diversas histórias steampunk. O período de 1860 a 1910 é conhecido como “A Era de Ouro dos Autômatos”. Em Paris, era comum a venda de relógios autômatos e pássaros mecânicos que cantavam.

Já que os franceses amavam esses objetos, seria natural que eles tivessem um museu dedicado apenas a eles. O Musée des Automates (rua Saint-Paul, 11) é um pequeno museu com brinquedos e bonecos que usam a força dos motores de corda, além dos mais variados (e esquisitos) artefatos que se mexem sozinhos. O museu também é vizinho do Musée de la Magie, dedicado à arte da mágica.

O relógio autômato “Le Défenseur du temps”

Próximo ao Centro Georges Pompidou fica o Quartier de l’Horloge (quartier do relógio, na rua Bernard de Clairvaux, 8, em frente à estação de metrô Rambuteau), nomeado devido a um relógio mecânico chamado Défenseur du temps (Defensor do tempo), considerado uma obra de inspiração steampunk.

O relógio autômato foi criado em 1979 pelo artista francês Jacques Monastier e retrata uma cena épica: um gladiador que luta contra um dragão, um pássaro e um caranguejo, enfrentando cada um em uma determinada hora do dia. Infelizmente, desde 2003 o relógio está quebrado.

O relógio do Le Train Bleu
O relógio do Le Train Bleu

George Méliès e o Autômato de Hugo Cabret

O ilusionista e cineasta francês Georges Mélies é autor do filme Viagem à Lua (1902), baseado nos romances Da Terra à Lua, de Júlio Verne, e Os Primeiros Homens na Lua, de H.G.Wells. Ele é considerado o pai da ficção científica e dos efeitos especiais no cinema.

Baseado no livro homônimo, o filme A Invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese) foi inspirado no trabalho do ilusionista (ele, também um fã de objetos autômatos). O boneco autômato (foto abaixo) que aparece no filme foi adquirido pelo Musée de la Cinémathèque (Museu da Cinemateca Francesa; rua de Bercy, 51), que tem uma das coleções mais ricas do mundo sobre o trabalho de Mélies.

O boneco autômato do filme "Hugo Cabret"
O boneco autômato do filme “Hugo Cabret”

BIBLIOTHÈQUE SAINTE-GENEVIÈVE

Fundada em 1851, a Biblioteca Sainte-Genèvieve (Place du Panthéon, 10) é considerada uma obra-prima do arquiteto Henri Labrouste (1801-1875), que quis transformar o lugar em um templo do conhecimento.

A biblioteca é conhecida pela sua estrutura de ferro e pela sua ampla sala de leitura, que pode receber até 700 pessoas. Seu desenho arquitetônico foi pioneiro no modernismo e o protótipo de biblioteca moderna seria muito copiado nos Estados Unidos. Um dos detalhes mais curiosos é que Labrouste projetou um sistema de abastecimento a gás que acendia as luminárias da biblioteca, uma inovação para a época.

No filme A invenção de Hugo Cabret, os personagens Hugo e Isabelle buscam livros em prateleiras da Sainte-Genèvieve, esperando encontrar os mistérios dos desenhos dos autômatos.

A biblioteca Sainte-Genèvieve
A biblioteca Sainte-Genèvieve

O restaurante Le Train Bleu da estação de trem

O luxuoso restaurante Le Train Bleu traduz toda a extravagância da Belle Époque. Em 1900, Paris estava se preparando para a sua Exposição Universal e, para promover a cidade, uma antiga estação de trem foi transformada em palácio.

O projeto da estação foi feito pelo arquiteto Marius Toudoire, que construiu um relógio de 64 metros. Também foi criado um bufê na Estação Central, reinaugurado como um restaurante em 1963, o Le Train Bleu (O Trem Azul). O lugar funciona no hall da estação de trem Gare de Lyon.

O restaurante Le Train Bleu
O restaurante Le Train Bleu
Passagens Cobertas e o primeiro detetive da literatura

Entrar nas Passagens Cobertas de Paris é como fazer uma viagem ao tempo e sentir a atmosfera do século 19. Concentradas na margem direita do Sena, as passagens cobertas por um teto de vidro são uma espécie de shopping center do passado e foram originalmente construídas em 1799. Hoje são repletas de lojas para colecionadores de arte e objetos antigos.

No número 12 da passagem Verdeau, o destaque é a Thierry Roy’s Le Cabinet des Curieux, que vende coisas curiosas e bizarras. Já na rua Vivienne, nº6, a linda e luxuosa Galerie Vivienne, aberta em 1866, se tornou ponto de fashionistas. Lá é possível comprar chapéus e roupas, inclusive na butique de Jean-Paul Gaultier. á também você encontra ótimos restaurantes. Vale consultar os preços antes de se aventurar..

A escadaria do número 13 leva para a antiga casa de Eugène-François Vidocq (1775-1857), um ex-militar e ex-ladrão que criou em Paris a Brigade de la Sureté, um grupo de agentes secretos da polícia francesa que agia no submundo de Paris em 1818. Vidocq é considerado o precursor de muitos métodos investigativos e mantinha um pequeno laboratório para analisar provas da cena do crime.

Em 1833, ele abriu a Bureau de Renseignements pour le Commerce, a primeira agência de detetives da França. Ele foi inspiração para Balzac (O Pai Goriot), Victor Hugo (Os Miseráveis), Edgar Allan Poe (detetive Auguste Dupin) e Conan Doyle (Sherlock Holmes). O detetive Auguste Dupin, do livro Os Assassinatos da Rua Morgue, de 1841, foi o primeiro detetive a aparecer nas páginas de um livro. Na história, ele mora em Paris e precisa desvendar dois assassinatos.

Loja Theatr´Hall

Para quem quer montar um visual cosplay com roupas de época, a dica é a boutique Theatr´Hall (no Carrefour de l’Odéon, 3), que fica longe das Passagens, do outro lado do rio Sena, mas é especializada no vestuário dos séculos 17 ao 19, além do período eduardino.

Museu de História Natural e os Gabinetes de Curiosidades

A ideia de um viajante aventureiro que busca conhecer e estudar lugares novos reflete um espírito de uma época, o positivismo científico do século 19. Na Era Vitoriana, era muito comum que aristocratas colecionassem objetos “exóticos” de viagens a lugares distantes como a África e as Américas.

No campo da biologia, o naturalista britânico Charles Darwin (1809- 1882) chacoalhava o mundo com sua teoria evolucionista. Foi nesse período que também surgiram os museus dedicados às ciências naturais.

O Museu de História Natural de Paris (rua Cuvier, 57), complexo conhecido como o “Louvre da Ciência”, foi fundado em 1793 e durante o século 19 foi um importante centro de pesquisa. Possui um amplo acervo com fósseis, minerais e tudo relacionado à vida na Terra. Suas estufas e jardins floridos são uma experiência à parte.

Museu de História Natural de Paris2

estufa do Museu de História Natural

Um pouco antes dos museus existiam os Gabinetes de Curiosidades, salas ou quartos onde eram expostos objetos raros, instrumentos tecnicamente avançados ou estranhos, oriundos de diversas partes do mundo. Esse tipo de coleção surgiu após as Grandes Navegações e poderia ser encontrada até o final do século 19 na Europa.

O Gabinete de Bonnier de la Mosson
O Gabinete de Bonnier de la Mosson

Nas paredes da atual Biblioteca do Museu de História Natural (no Jardin des Plantes) existe o que restou de um rico Gabinete de Curiosidades que remonta ao século 18. Criado em 1735, o Gabinete de Bonnier de la Mosson impressiona pela estética e seu acervo já foi considerado um dos mais interessantes de Paris.

Seu criador foi um aristocrata chamado Joseph Bonnier de la Mosson (1702-1744), um cientista amador e colecionador de arte. Ele colecionava fósseis e animais empalhados como pássaros e répteis, muitos dos quais ele adquiriu em suas viagens.

Um dos lugares mais curiosos de Paris é a Deyrolle (rua du Bac, 46), loja fundada em 1831 e que se tornou um ponto de referência para colecionadores e taxidermistas. A estranha loja é devotada à taxidermia, entomologia (insetos) e à cultura do conhecimento vintage. Ela possui e (monta) gabinetes de curiosidades personalizados.



PARA LER

  • 20 mil Léguas Submarinas, Júlio Verne
  • Da Terra à Lua, Júlio Verne
  • Os Primeiros Homens na Lua, H.G.Wells
  • A Máquina do Tempo, H. G. Wells
  • Os Assassinatos da Rua Morgue, Edgar Allan Poe
  • A Liga Extraordinaria, Alan Moore
  • A Invenção de Hugo Cabret, Brian Selznick
  • Leviatã: A Missão Secreta, Scott Westerfeld