por Maria Fernanda Moraes


Na primeira vez que fui ao Rio, um dos lugares da minha listinha de visitação era a estátua de Drummond na orla de Copacabana. Ela estava lá, uma singela estátua, concorrendo deslealmente com outros pontos turísticos famosos como Santa Tereza, a confeitaria Colombo ou os Arcos da Lapa.

Eu não sei explicar ao certo o que acontece, mas as estátuas tem esse poder de atração sobre os turistas – e não só os turistas-literários. A mais recente do Rio, por exemplo, a estátua do Tom Jobim ali no Arpoador, já tem seus fãs e suas fotos espalhadas pelas redes sociais.

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Drummond em Copacabana (foto: Blog Estrela Binária)

Drummond na orla de Copacabana

Drummond fica sentadinho num banco no canto da praia, na Avenida Atlântica, altura do posto 6, perto do Forte de Copacabana, de pernas cruzadas e costas pro mar. No banco, o verso talhado: “No mar estava escrita uma cidade”.

A obra é uma homenagem do Rio de Janeiro ao centenário do poeta e é o segundo monumento público mais visitado da cidade, perdendo apenas para o Cristo Redentor.

Mineiro de Itabira, o poeta se apaixonou pelo Rio de Janeiro quando mudou pra lá na década de 1930.

Aqui
amanhece como em qualquer lugar do mundo
mas vibra o sentimento
de que as coisas se amaram durante a noite.
(Retrato de uma Cidade, Discurso de Primavera, 1977)

Drummond vivia em Belo Horizonte depois de ter saído de sua cidade natal aos 17 anos para estudar. Foi no colégio em BH que conheceu Afonso Arinos de Melo Franco e Gustavo Capanema.

Este último amigo, Capanema, foi quem o convidou para viver perto do mar, no Rio. Capanema  assumiu o Ministério da Educação e Saúde Pública e chamou Drummond para ser seu chefe de gabinete.

Foto original do poeta na orla carioca (Acervo CDA/Cosac Naify/Divulgação)
Foto original do poeta na orla carioca (Acervo CDA/Cosac Naify/Divulgação)

Junto com a esposa Dolores e a filha Maria Julieta, moraram inicialmente na Av. Princesa Isabel numa casa de vila, perto do Túnel Novo.

Seu último endereço, antes de falecer, era o número 60 da Rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana. Nesse intervalo, a família também morou Rua Joaquim Nabuco 81, que ficava perto da praia, do Arpoador.

O que se conta é que Drummond costumava levar a família para o mergulho no mar. E há também outras histórias curiosas, como a relatada por Fernando Sabino.

O escritor conta que passava em frente ao sobrado da rua Joaquim Nabuco e costumava chamar Drummond com um assobio. Da calçada, Sabino conseguia ver o poeta lá dentro, em pânico, tentando se esconder atrás de algum móvel enquanto sobrava para a esposa Dolores a tarefa de avisar ao amigo na calçada que “o Carlos tinha saído”. Sabino achava graça e sabia que Drummond devia estar escrevendo ou lendo alguma coisa.

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O pernambucano Bandeira na ABL

Manuel BandeiraJoaquim Nabuco e Machado de Assis

Mas não é só o escritor mineiro que ficou eternizado na cidade. O Rio ainda tem os pernambucanos Manuel Bandeira e Joaquim Nabuco em bronze, em frente à Academia Brasileira de Letras. Nabuco foi um dos fundadores da academia.

E, claro, que o bruxo do Cosme Velho não poderia faltar nessa seleção. Machado de Assis atrai turistas e leitores para o pátio da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o fundador e o primeiro presidente. Ele é o dono da cadeira n° 23 da instituição.

O bruxo do Cosme Velho na ABL (Foto: Rio Film)
O bruxo do Cosme Velho na ABL (Foto: Rio Film)

O número 18 da Rua Cosme Velho, no bairro de Laranjeiras, foi o endereço em que Machado morou depois que se casou com a portuguesa Carolina, seu primeiro e único amor. Mas, infelizmente, a casa já foi demolida.

Academia Brasileira de Letras

Avenida Presidente Wilson, 203 – Castelo, Rio de Janeiro – RJ, 20030-021
(21) 3974-2500
Para visitas guiadas, é necessário fazer inscrição pelo site. Clique aqui

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Otto Lara Resende numa esquina do Jardim Botânico

Padre Antônio Vieira e Otto Lara Resende

O Padre Antônio Vieira e Otto Lara Resende são outros dois imortais do bronze. O escritor e orador da Companhia de Jesus ganhou uma estátua no jardim da PUC do Rio de Janeiro, no bairro da Gávea.

O monumento foi uma doação da Prefeitura de Lisboa em retribuição ao busto do escritor Machado de Assis, doado aos portugueses em 2008.

A estátua de Otto Lara Resende respira o ar puro do Jardim Botânico . Ele fica numa esquina, próximo a um ponto de ônibus, como se esperasse os visitantes com um livro na mão e os convidassem a sentar em escritório reproduzido ali.

Lima Barreto e João Ubaldo Ribeiro

Na Lapa, na altura do número 126 da Rua do Lavradio, há também uma  homenagem ao jornalista e escritor Lima Barreto, autor de O Triste fim de Policarpo Quaresma. A obra foi instalada na rua onde o escritor morou.

O próximo escritor a ser eternizado é João Ubaldo Ribeiro. Uma estátua em tamanho real passará a ocupar, ainda no primeiro semestre de 2015, a Praça Antero de Quental, no Leblon. Foi nesse bairro que o escritor morou por 20 anos até sua morte, em julho de 2014.

Projeto da homenagem a Ubaldo, no Leblon
Projeto da homenagem à Ubaldo

Rio, cidade dos escritores

A história da cidade do Rio se confunde também com a de muitos escritores. A Lapa, por exemplo, local dos cortiços, jogatina e cabarés, foi a moradia do poeta Manuel Bandeira, que, em 1933, se mudou para a Rua Moraes e Valle, em frente ao Beco das Carmelitas, imortalizado no Poema do Beco.

Ali, ele também escreveu os poemas de “Estrela da Manhã” (1936) e “Lira dos Cinquenta Anos” (1940).

Para falar dos mais contemporâneos, o Rio foi casa de Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes e tantos outros. Mas isso rende um outro post 🙂

PARA LER:

  • Discurso de Primavera e Algumas Sombras (Companhia das Letras), de Carlos Drummond de Andrade: publicado em 1977, quando Drummond estava com setenta e cinco anos, este livro não é, como se poderia esperar, a obra outonal de um escritor na terceira idade. Ainda vibrando com a vida e observando a passagem do tempo, o poeta publicou originalmente estes poemas na coluna que mantinha no Jornal do Brasil
  • O Triste fim de Policarpo Quaresma (L&PM), de Lima Barreto: publicado em 1911, é um clássico da literatura brasileira que denuncia os males da sociedade brasileira da época: a burocracia das repartições públicas, o clientelismo, a bajulação, a injustiça social, o problema da terra, etc
  • Noites Lebloninas (Alfaguara), de João Ubaldo Ribeiro: livro póstumo. O projeto, inacabado, seria composto por uma série de textos sobre a boemia carioca, mas o escritor terminou apenas dois dos contos antes de sua morte. Os cenários e os personagens do Baixo Leblon ganham vida nestes dois contos saborosos, narrados por um porteiro que tudo vê e tudo escuta.
  • Boca do Inferno (Companhia das Letras), de Otto Lara Resende: publicado originalmente em 1957, em um contexto em que a religião dita as regras, o autor traz à superfície os mais bem guardados baús dos porões da família mineira. As sete narrativas aqui reunidas têm como protagonistas meninos e meninas que, no fim da infância, são lançados de um momento para outro no conhecimento tenebroso das coisas.