por Andréia Martins


O humorista e escritor Jô Soares nunca escondeu sua paixão pelo Rio de Janeiro. Morando em São Paulo, ele guarda boas histórias e recordações do tempo em que morou e trabalhou na capital fluminense. Talvez por isso dois de seus livros, O Xangô de Baker Street (1995), no qual Sherlock Holmes vem ao Rio imperial investigar o desaparecimento de um valioso violino, e o As Esganadas (2011), sobre a morte misteriosa de várias mulheres obesas no fim dos anos 30, funcionem como um verdadeiro guia cultural e histórico do Rio de Janeiro.

A MULTIDÃO NA RUA DO OUVIDOR NOS ANOS 1930 (REPRODUÇÃO)
A MULTIDÃO NA RUA DO OUVIDOR NOS ANOS 1930 (REPRODUÇÃO)

UMA RUA FAMOSA

Tanto em O Xangô de Baker Street quanto em As Esganadas, que se passa em 1938, ano em que Jô nasceu, uma rua em especial não passa em branco: a rua do Ouvidor, no centro do Rio. Sobre ela já escreveram Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, José França Júnior e Joaquim Manuel de Macedo, que lhe dedicou um livro, Memórias da Rua do Ouvidor (1878).

Conhecida pela sua elegância e por reunir alguns dos principais pontos de encontro da intelectualidade carioca, a rua teve vários outros nomes até 1775. Lá estavam sedes de diversos jornais, editoras e empresas tradicionais. No entanto, a rua perdeu seu destaque com a inauguração da Avenida Rio Branco, em 1900. Hoje, concentra bares e prédios antigos que guardam histórias bem particulares da era imperial.

UM GIRO PELO CENTRO HISTÓRICO DO RIO

Do Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, palco da lendária apresentação da atriz francesa Sarah Bernhardt no século 19, ao Teatro Santana, passando pelo Teatro Príncipe Imperial, fundado em 1881 e famoso pelas peças do teatro de revista, e pelas competições de cavalos no hipódromo Derby Club, em São Cristóvão, e ainda no Jockey Club, onde a nata da sociedade carioca se reunia. Esse seria sem dúvida um belo passeio pela vida cultural e social do Rio imperial, indicado nas páginas de O Xangô. E hoje, como seria esse passeio pelo Rio?

Dos três teatros, todos localizados no mesmo local, antiga Praça da Constituição, hoje a Praça Tiradentes, apenas o terceiro não existe mais. O primeiro, que chegou a se chamar Real Theatro de São João, passou por reformas e, desde 1930, se chama Teatro João Caetano, a sala de espetáculos mais antiga do Rio, enquanto o Teatro Santana se transformou no Teatro Municipal Carlos Gomes. Já o Derby Club deu espaço ao complexo esportivo do Maracanã.

PRAÇA TIRADENTES, NO CENTRO DO RIO (REPRODUÇÃO)
PRAÇA TIRADENTES, NO CENTRO DO RIO (REPRODUÇÃO)

Ali, nas proximidades da antiga Praça da Constituição também estava localizado o Museu Nacional e Imperial, hoje o Paço Imperial, centro cultural que abriga exposições e uma sala de cinema. Em O Xangô, Jô Soares destaca a famosa coleção de múmias do local, “autênticas dos tempos dos faraós”, em um trecho cheio de ironia.

A região do centro histórico do Rio volta a aparecer em As Esganadas, com a história se desenrolando em ruas como a Sete de Setembro e a rua da Carioca, no Largo da Carioca, conhecida pelos antigos sobrados e pelo trânsito dos bondes.

Ali também é o endereço da centenária Confeitaria Colombo, onde começa a trama. Símbolo da Belle Époque tropical, a confeitaria foi inaugurada em 1884 e virou ponto de encontro da alta sociedade carioca do início do século 20. Entre chás, casadinhos e pastéis de Belém, era comum a presença de políticos bigodudos, como Rui Barbosa, artistas como o compositor Heitor Villa-Lobos e imortais da ABL, como Olavo Bilac, que tinha uma mesa reservada para ele. Hoje, o local é patrimônio histórico tombado e ainda mantém a decoração original, como os espelhos belgas, móveis em jacarandá e bancadas de mármore.

A confeitaria está na rua Gonçalves Dias, 32, no Centro, mas abriu outros estabelecimentos que vale a pena conhecer. Um detalhe importante: a Colombo não abre no carnaval.

CENTRO, 1919 - INTERIOR DA CONFEITARIA COLOMBO NA OCASIÃO DA COMEMORAÇÃO DOS SEUS 25 ANOS. A CONFEITARIA LOCALIZA-SE NA RUA GONÇALVES DIAS (REPRODUÇÃO)
CENTRO, 1919 – INTERIOR DA CONFEITARIA COLOMBO NA OCASIÃO DA COMEMORAÇÃO DOS SEUS 25 ANOS. A CONFEITARIA LOCALIZA-SE NA RUA GONÇALVES DIAS (REPRODUÇÃO)

 

Para fechar o itinerário pelo centro, temos a rua Primeiro de Março, antiga rua da Direita, a mais importante do Rio no século 19, com casas de governadores e ponto badalado por mercadores de escravos. É lá que estão o Café Globo e o Beco dos Barbeiros, cenários de As Esganadas.

O beco é um dos últimos vestígios das vielas dos tempos coloniais, assim como a rua da Assembleia, pela qual Tiradentes caminhou enquanto esteve preso na Cadeia Velha e que também ficou conhecida como a rua dos “artigos para vestir”.

ORGULHO DO IMPERADOR

“Com mais de 100.000 volumes distribuídos por 42 salas, a Biblioteca Nacional era um dos orgulhos do imperador”. Assim Jô descreve uma das principais atrações culturais do Rio. Em O Xangô, o local serve de esconderijo para um “fugitivo” que tentava, em vão, despistar o detetive Sherlock.

VISTA AÉREA DA BIBLIOTECA NACIONAL
VISTA AÉREA DA BIBLIOTECA NACIONAL (DIVULGAÇÃO)

Com 200 anos, a construção da biblioteca foi iniciada com a vinda da família real para o Brasil. Se antes já era motivo de orgulho do imperador, o que será que D. Pedro II diria ao saber que hoje o local possui um acervo de mais de oito milhões de obras, o oitavo maior acervo da América Latina?

  • Serviço
    Endereço: Avenida Rio Branco, 219 – Centro
    Horário de funcionamento: todos os dias, das 9h às 20h

CEMITÉRIO POP

O cemitério mais pop do mundo ainda é o Père Lachaise, em Paris, com as sepulturas de personalidades como Jim Morrison, Balzac, Oscar Wilde e Allan Kardec. No Brasil, esse título pertence ao Cemitério de São João Batista (Rua Real Grandeza, s/n – Botafogo). Cenário de As Esganadas – no livro, ele está localizado perto da funerária fictícia Estige, que pertence ao vilão Caronte –, na vida real o local é conhecido como “cemitério das estrelas” por abrigar túmulos como os de Tom Jobim, Luís Carlos Prestes, Santos Dumont, Janete Clair e de nove ex-presidentes, entre eles, Arthur Bernardes e Costa e Silva.

PROGRAMA NATUREBA

Os jardins da Quinta da Boa Vista, localizado em São Cristóvão, zona norte da cidade, também aparecem em As Esganadas. Nos anos 1930, o local era o pátio do Palácio Imperial de São Cristóvão e hoje, embora não esteja entre os principais roteiros da cidade, é um dos melhores lugares para aproveitar belos jardins e o sossego da natureza.

O local é a antiga residência da realeza. No antigo Palácio de São Cristóvão viveram seis gerações da família imperial brasileira e nasceram, entre outros, a Rainha D. Maria da Glória II, D. Pedro II e a Princesa Isabel.

Indo lá você aproveita para conhecer outros dois lugares que estão na mesma área: o Museu Nacional de História Natural e o zoológico da cidade.

  • Serviço
    Endereço: Avenida Pedro II, s/n – São Cristóvão | Telefone: (21) 2234-1181
    Estacionamento gratuito| Horário de funcionamento: todos os dias, das 7h às 17h

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A BOEMIA E A GASTRONOMIA FLUMINENSES

Dicas de gastronomia e da vida boêmia no Rio também são o forte dos livros de Jô Soares. Além da famosa confeitaria Colombo, há o centenário Café Lamas, hoje no Flamengo. O local – que já foi citado até em músicas de Alcione, como “Rio Bonito” – era reduto da boemia carioca, recebendo comunistas, artistas, jornalistas, políticos e intelectuais.

O SALÃO DO CAFÉ LAMAS_DIVULGACAO
O SALÃO DO CAFÉ LAMAS (DIVULGAÇÃO)
ENTRADA DO CAFÉ LAMAS_DIVULGACAO
A ENTRADA DO CAFÉ LAMAS (DIVULGAÇÃO)

Quem visitar o local fará uma volta ao passado ao perceber vestígios de presenças ilustres como Ruy Barbosa, Machado de Assis, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, Emilio de Meneses e João do Rio. Políticos como Oswaldo Aranha, Teotônio Vilela, Getúlio Vargas e Epitácio Pessoa também frequentaram o café. Diz a história que D. Pedro II adorava a canja do Lamas.

  • Serviço
    Rua Marquês de Abrantes, 18 Loja A- Flamengo | Telefone:(21) 2556-0799
    Horário de funcionamento: 9h30 a 2h30
RARA IMAGEM DA FACHADA DO CAFÉ NICE (REPRODUÇÃO)
RARA IMAGEM DA FACHADA DO CAFÉ NICE (REPRODUÇÃO)

Além dos locais que ainda estão abertos, Jô relembra outros que deixaram seu nome na história cultural do Rio. É o caso do Café Nice, no nº 174 da avenida Rio Branco. Fundado em 1928, o Nice funcionou durante 26 anos. Viveu seu auge na chamada fase de ouro da MPB, entre 1928 e 1946. Compositores e bambas como Ari Barroso, Mario Lago, Cartola e Noel Rosa eram alguns dos clientes que batiam cartão no local.

Da próxima vez que for ao Rio, você já sabe: se não tiver um guia nas mãos, é simples: basta seguir os passos dos detetives Sherlock Holmes, Mello Noronha e Tobias Esteves para se aventurar em locais que fizeram história na cidade.


PARA LER

  • O Xangô de Baker Street, Jô Soares (Companhia das Letras)
  • As Esganadas, Jô Soares (Companhia das Letras)