por Maria Fernanda Moraes

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A fachada rosada do museu, de frente para os portões da rua Tenente da Silveira

VISITADO“Parece a Casa Rosada”, foi o que passou pela minha cabeça na primeira vez que vi a fachada do prédio que fica numa esquina do centro de Florianópolis (SC).

Eu, que sempre fui fã de casarões antigos, desconfiava que ali deveria funcionar um museu mas não sabia que ele prestava uma homenagem a um poeta simbolista que faz a gente se recordar das aulas de literatura no colégio, o Cruz e Sousa.

Com paredes em tom de rosa e detalhes neoclassicistas, o sobrado que hoje leva o nome de Palácio Cruz e Sousa – Museu Histórico de Santa Catarina, fica na Praça XV de Novembro, no coração da ilha, que também abriga um outro ponto turístico bem popular, a famosa figueira.

Cheguei para visitar o museu numa terça-feira de céu azul, que ficava bem com o rosado da fachada. Entrei pela Rua Tenente da Silveira, cujos portões já dão as boas vindas a um jardim bonito, onde as pessoas costumam se sentar entre um compromisso e outro.

Subindo as escadas, é possível ver à direita um espaço com paredes de vidros, o memorial Cruz e Sousa, que falarei mais à frente. Depois do último degrau, já se avista uma sala de exposições. É a sala Martinho de Haro, um espaço onde ocorrem lançamentos e exposições sobre arte e história.

Depois de titubear sobre onde seria a entrada, já que as portas dessa sala mantinham uma corda de isolamento e, apesar de abertas, impediam a passagem, me informei com um segurança que me orientou a dar a volta e entrar pelo outro lado, pela fachada que fica de frente à Praça XV.

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Pés preparados para a visita

A entrada no museu custa R$5,00 e uma guia fica à disposição tirando dúvidas e contando um pouco sobre a história do lugar.

Uma coisa curiosa, que eu nunca tinha vivido até então, é que logo após passar a catraca de entrada, fui convidada a enluvar os pés. É uma espécie de pantufa que se calça sobre os sapatos mesmo, adotada para proteção e preservação do assoalho antigo.

Com os pés preparados, vi que dois caminhos me eram possíveis: a bela escadaria que se postava à minha frente dando acesso ao segundo pavimento ou a sala à minha direita, que depois de uma esticada de olhos descobri que expunha a biografia do poeta simbolista.

A imponência do mármore de Carrara das escadarias que se desdobram em dois braços paralelos fez eu seguir meu caminho por ali.

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A clarabóia traz uma luz especial para o hall em que as escadas desembocam

No primeiro descanso da escada, chapeleiros em madeira com espelhos começam a contar a história de um lar que houve ali, apesar de tanta pompa. No teto acima das escadas há uma homenagem aos municípios mais antigos de Florianópolis: florões com os nomes de Palhoça, São José e Santo Amaro da Imperatriz.

Isto porque a história do palácio é a seguinte: em meados do século 18, época em que foi criada a Capitania da Ilha de Santa Catarina e nomeado seu primeiro governador, o brigadeiro José da Silva Paes, foi também construído esse prédio de três seções e dois pavimentos para ser a nova “Casa de Governo”.

O projeto data de 1745. Na construção, os detalhes portugueses e açorianos eram visíveis e a cor do prédio era branca, o que denotava a simplicidade do colonialismo. Durante mais de um século, o palácio passou por diversas modificações, até que na mudança republicana uma grande reforma (1894–1898) foi realizada, adquirindo as características arquitetônicas preservadas até hoje.

No século 19, a casa ganhou um olhar moderno e perdeu a simplicidade de casarão. A cor branca saiu e o Palácio Rosado, como é conhecido, ganhou o tom que prevalece até hoje. Em 1977, foi ampliada e passou por um grande trabalho de restauração, quando foi acrescentada a arte neoclassicista.

Em 1979, o edifício foi rebatizado de Palácio Cruz e Sousa, uma homenagem ao poeta catarinense. Cinco anos depois, foi tombado como Patrimônio Histórico de Santa Catarina e passou por nova restauração. Só em 1986 o local foi reaberto com o nome de Museu Histórico de Santa Catarina Palácio Cruz e Sousa.

Em 2005, foram reiniciadas as restaurações nas pinturas decorativas das paredes internas e dos forros de estuque (mistura de areia e cal, segurados por madeira). Na entrada do palácio, há três estátuas em mármore: a principal simboliza a federação Brasileira, as outras, a Europa e América Latina.

Como o palácio foi morada de várias pessoas do governo até 1954, ele reflete os diferentes estilos de seus moradores: há claraboias no telhado, desenhos de gesso nas salas, paredes pintadas à mão como se fosse um papel de parede (são lindos!), marchetaria com influência açoriana nos assoalhos.

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A sala de estar principal, que recebe o visitante

Mas, voltando à visita, os lances de escada desembocam numa grande sala principal, que estende os braços ligando-se a outros cômodos laterais.

Me pareceu uma sala de visitas que ainda mantém um tapete no centro, com cadeiras de madeira dispostas em torno de uma mesa de centro.

Todo o acervo mobiliário foi feito no Rio de Janeiro, ao estilo de D. João V.

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Detalhe dos móveis do Salão Nobre

À direita dessa sala, ficam o Salão Nobre e Sala de Música. No primeiro, eram onde aconteciam as cerimônias mais importantes e onde eram recebidas visitas ilustres, como o imperador Dom Pedro I e II.

O salão ainda guarda sua pompa em cadeiras estofadas em estilo clássico, armas do estado e uma pintura lindíssima nas paredes, em azul e dourado. O teto, cheio de rebuscamento, também vale a olhada. Várias partes dele, inclusive, ainda estão em processo de restauração.

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O piano francês na Sala de Música e o belíssimo piso

A Sala de Música foi disparada a minha preferida do sobrado. A começar pelo piso, que são mosaicos de madeira originais de 1894. O mosaico desenha uma espécie de rosa dos ventos no centro, de onde saem raios diagonais para o resto da sala. Sobre esse desenho da rosa fica o piano francês, de 1910.

No canto próximo à janela uma caixa de música alemã estilo art nouveau, e na direção oposta, em cima de uma mesinha estão expostas algumas louças da sala de refeição, que está fechada para restauração.

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Detalhe das louças expostas na Sala de Música

Simone de Lurdes Coelho foi a guia que me acompanhou na visita e trabalha no museu há 14 anos. Ela me contou a que sua sala preferida é o Salão Nobre, pela riqueza de detalhes e que o mais gosta dali é poder conversar com os visitantes.

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Os móveis ao estilo de D. João V e a pintura nas paredes

Na parte lateral do palácio estão os quartos e banheiros, que foram descaracterizados, não fazem parte da visitação e é onde fica a reserva técnica do museu.

Há ainda o gabinete do governador, a sala do chefe da casa militar e as saletas de estar, todos com mesas e poltronas, tal qual o final do século 19.

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Uma das saletas de descanso. Em cada sala, há um tipo diferente de pintura nas paredes

Alguns objetos que o museu guarda são: a cópia do quadro da Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles e a primeira lâmpada elétrica residencial de Santa Catarina.

Na calçada da frente do palácio, os ladrilhos também enchem os olhos. Eles foram importados e assentados no ano de 1910.

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O ladrilho de 1910 na calçada que dá para a Praça XV 

Tá, mas e o Cruz e Sousa?

Bom, depois dessa pequena viagem no tempo é isso que você deve estar pensando, né, caro leitor?

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Na sala que traz a biografia do poeta: um retrato de Cruz e Sousa e, embaixo, o documento do translado de suas cinzas

Pois bem, depois que terminei minha visita ao pavimento de cima, voltei à recepção para perguntar melhor sobre a homenagem que o museu fazia ao poeta.

A guia Simone já tinha me adiantado que o palácio não tinha tido nenhuma ligação direta com Cruz e Sousa, apenas ganhara seu nome como uma forma de reconhecimento carinhoso.

A recepcionista me indicou, então, a sala que fica à direita de quem entra no palácio, que é dedicada à biografia do poeta simbolista.

Nela, estão expostos nas paredes vários quadros com cronologias que se dividem em narrar os fatos marcantes da vida de Cruz e Sousa e a história do prédio. Apesar de reconhecer a importância da ação, confesso que fiquei um pouco decepcionada, já que são informações que a gente pode encontrar facilmente na internet, nada de espetacular.

O documento mais interessante da sala é o Termo de Translado, que autoriza a exumação dos restos mortais do poeta no cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, para serem guardados no memorial que fica no jardim do museu (lembra que eu comentei sobre ele no começo?)

E é aqui que começa a parte triste dessa história. Depois da visita à sala da biografia, dei a volta por fora do museu e voltei ao jardim, onde fica a sala de vidro que seria o memorial. Eu já tinha sido informada ali dentro que ele estava fechado, mas ao avistá-lo mais de perto, a sensação não foi nada agradável. O lugar está realmente abandonado.

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O memorial, na parte externa do museu, está lacrado, impedindo a visitação

Inaugurado em 2010, o memorial abriga os restos mortais do poeta que estão depositados em uma lápide na parede do espaço projetado para receber um futuro café.

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As cinzas do poeta estão aqui

Mas, segundo uma matéria publicada no jornal local, ele sequer foi aberto para exposição pública. E, segundo a administração do palácio, não há previsão de reabertura do espaço. Mal sabia o poeta que seus próprios versos selariam esse descaso:

Os mortos são ainda o bem profundo, que nos faz esquecer o horror dos vivos.

Assim, o resumo da ópera é: a visita é bem interessante para quem gosta de arquitetura e história, como eu. E acho super válida a iniciativa de se homenagear Cruz e Sousa, já que dá popularidade a um poeta simbolista pouco conhecido. Mas a sua obra ainda pode ser bem mais explorada e, infelizmente, seus restos mortais não estão sendo bem cuidados.

Horário de funcionamento do museu:

Horário de visitação:
De terça a sexta-feira: das 10h às 18h 
Sábado e domingo: das 10h às 16h
 
Ingressos:
R$ 5. Alunos e professores de escolas da rede particular pagam R$ 2. Gratuito, mediante comprovação, para crianças de até 5 anos, alunos e professores da rede pública de ensino (municipal, estadual e federal), brasileiros maiores de 65 anos e guias turísticos. Aos domingos a entrada é gratuita para todos.
 
Contato:

Fone : (48) 3665-6363

Conheça mais sobre Cruz e Sousa

Nome de nascimento é João da Cruz e Souza, nasceu em 24 de novembro de 1861, na antiga Desterro. O pai era escravo e a mãe alforriada. Morou na casa do Marechal Guilherme Xavier de Sousa, onde recebeu uma educação exemplar, que em conjunto com a mente pensadora e abolicionista transformou a trajetória da própria vida. É classificado como um ícone do Simbolismo.

Conheceu muitos lugares pelo Brasil trabalhando com companhias teatrais. Atuou como diretor de um jornal, onde publicava artigos abolicionistas. O preconceito e a discriminação impediam o poeta de participar de círculos literários da época.

Casou-se e teve quatro filhos. Todos faleceram de tuberculose, o mais velho ainda alcançou os 17 anos. O poeta catarinense faleceu em 1898, na miséria, e a causa da morte também foi a tuberculose. Cada trecho dos poemas do artista traz sonoridades que despertam intensas emoções no leitor. (a fonte é essa aqui)

PARA LER

  • Bróqueis, de Cruz e Sousa  (L&PM): o livro traz 54 poemas, sendo 47 sonetos. Junto com Missal, ele representa o início do simbolismo no Brasil 
  • As obras do poeta estão em domínio público, acesse aqui

[Com informações do site do museu]