DSC04144


VISITADOAo redor de uma pequena praça cercada por ruas de pedras largas e traiçoeiras, a vida na Cidade de Goiás acontece. A sorveteria é refúgio para o dia quente. À noite, o movimento se concentra na loja de tapiocas – o point mais animado da cidade em dias comuns. Nos becos, vizinhos colocam as espreguiçadeiras na calçada para jogar conversa fora enquanto a noite cai. De manhã, o entregador passa levando na moto um filtro que enche as leiteiras de porta em porta.

A Cidade de Goiás (GO) é hoje um dos principais atrativos turísticos da região centro-oeste. Tombada pela Unesco, o lugar preserva suas ruas de pedras, casarios de arquitetura colonial, igrejas antigas e becos. Basta um par de dias na cidade para entender a inspiração de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ou melhor, Cora Coralina (1889-1985), em seus poemas.

Foi nesta cidade que a escritora ganhou fama ao publicar, aos 76 anos, seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, em 1965. Ao todo foram 15 obras publicadas, mas apenas três em vida. As festas religiosas (como a Festa do Divino), a comida típica, os moradores e causos da cidade foram importantes para sua escrita. Além dos livros, visitar a casa da poeta e os cantos da cidade é a melhor forma de conhecer Cora.

CASA DE CORA CORALINA (Roteiros Literários)
CASA DE CORA CORALINA (Roteiros Literários)

 

A PONTE DA CIDADE DE GOIÁS. POR FICAR AO LADO, A CASA DE CORA SEMPRE FOI CHAMADA DE "A CASA DA PONTE" (Roteiros Literários)
A PONTE DA CIDADE DE GOIÁS, SOBRE O RIO VERMELHO. POR FICAR AO LADO, A CASA DE CORA SEMPRE FOI CHAMADA DE “A CASA VELHA DA DA PONTE” (Roteiros Literários)

A casa onde a escritora viveu é hoje o Museu Casa de Cora Coralina. Lá, a visita guiada começa pela cozinha, onde após retornar de São Paulo, onde ficou de 1934 a 1956, já viúva, Cora fez doces para vender durante anos, era o seu ganha pão. Estão ali a geladeira amarela retrô – tão famosa quanto sua dona na cidade estampando os ímãs de geladeira à venda nas lojinhas de souvenirs –, as colheres de pau, panelas de ferro antigas sobre o fogão a lenha e quatro conchas suspensas na parede – exatamente como ela deixou da última vez em que esteve ali, reforça o guia.

A casa de poucos cômodos é grande e tem duas portas de entrada, costume na época (ela foi construída em 1770). Caso a porta do meio estivesse fechada, era um recado aos visitantes de que a dona não estava na residência.

Na sala, um retrato de Cora sentada em sua cadeira preferida decora a parede central. Encostada está a muleta original que amparou a escritora em seus últimos anos. Outra parede sustenta um quadro com fotos de Padre Cícero e Lampião, ambos figuras do Nordeste. A escolha foi uma homenagem da poeta ao pai, também nordestino.

A SALA DA  CASA DE CORA CORALINA (Roteiros Literários)
A SALA DA CASA DE CORA CORALINA (Divulgação)

Nem tudo que está na casa é original. Em 2001, uma enchente atingiu a casa danificando muita coisa. Réplicas de móveis e peças foram feitas para preservar a memória da autora – uma batalha que não foi tão simples.

Mais alguns passos e chegamos a uma pequena sala. Ali está uma imagem de Maria Grampinho, uma andarilha da cidade conhecida por usar dezenas de grampos na cabeça. Ela foi acolhida por Cora em sua casa. A atitude espantou muita gente, mas Cora não se importava. Escreveu que a casa era tão grande, tão vazia, mas cheia de sonhos. Não hesitou em trazer a amiga para dentro dela. Foram 29 anos de convivência.

Cora fez a mesma coisa com o jardineiro e fiel escudeiro Vicente Tomé dos Santos e abriu as portas da casa para ele, que viveu na residência em 1988, e morreu no ano seguinte, o mesmo ano em que o Museu Casa de Cora Coralina foi inaugurado. A esses dois amigos, ela dedicou poemas que estão nos livros Vintém de Cobre e Meu Livro de Cordel.

O que se vê no quarto da escritora, que ela chamava de ‘sobradinho’, também está como ela deixou. A escova e o relógio repousam no criado mudo ao lado da cama de solteiro — faltam o caderninho e a esferográfica que ela contou em um poema que mantinha sempre ao lado da cama para as inspirações surgidas no meio da noite. O quarto singelo tem ainda um guarda-roupa, um cabideiro com as roupas de mais uso, um humilde santuário e a mesa com a máquina de costura, outra habilidade de Cora.

O QUARTO DA ESCRITORA (Roteiros Literários)
O QUARTO DA ESCRITORA (Divulgação)
NA JANELA DO QUARTO FOI COLOCADO UM BUSTO DA POETISA PARA RELEMBRAR UM DE SEUS HÁBITOS: OBSERVAR A CIDADE DA JANELA (Roteiros Literários)
NA JANELA DO QUARTO FOI COLOCADO UM BUSTO DA POETISA PARA RELEMBRAR UM DE SEUS HÁBITOS: OBSERVAR A CIDADE DA JANELA (Roteiros Literários)
A CASA DA PONTE (Roteiros Literários)
A CASA DA PONTE (Roteiros Literários)

 

Na sala ao lado estão sua máquina de datilografar — uma Olivetti Studio 44 –, uma peça de louça herdada da avó – o único pedaço que restou de um conjunto de 92 peças, após um acidente – e uma foto com Jorge Amado, seu amigo querido.

Há quem não saiba, mas Cora foi uma mulher atuante na cidade. Embora o livro tenha vindo apenas depois dos 70 anos, ela sempre foi engajada na literatura. Aos 20 e poucos anos frequentava o grupo Gabinete Literário, reuniões entre escritores que ocorriam na Cidade de Goiás. Uma foto exposta na casa mostra Cora rodeada de homens, ou seja, era a única mulher do grupo.

Na Sala das Condecorações estão reunidas as diversas homenagens que a escritora recebeu, bem como parte de sua biblioteca com livros de Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Érico Veríssimo, livros sobre Gaulle e Churchill, e ainda da independência de Goiás. Um quadro ao lado da porta de saída reproduz um dos últimos poemas escritos por Cora. Homenagem à Festa do Divino, tradição na Cidade de Goiás.

Um dia, em 1979, Cora Coralina recebeu uma carta de Carlos Drummond de Andrade. O poeta não a conhecia, mas havia tomado contato com sua obra. Algumas cartas, trocadas entre a escritora e familiares e outros autores, estão expostas no museu. Drummond está lá, nas muitas correspondências que os dois trocaram a partir da primeira carta.

A visita na casa dura em média 1h30 e termina em uma sala com vídeos em que a escritora aparece declamando seus poemas.

PARTE DA BIBLIOTECA DE CORA E A BANDEIRA DO DIVINO, AO LADO DE UM RETRATO DA ESCRITORA (Roteiros Literários)
PARTE DA BIBLIOTECA DE CORA E A BANDEIRA DO DIVINO, AO LADO DE UM RETRATO DA ESCRITORA (Divulgação)

 

Entre todos os ambientes da casa é o jardim que impressiona. O lado humano, simples e ligado à natureza de Cora está todo ali. Na entrada do jardim, o visitante encontra a biquinha d’água. A água pura e cristalina era um dos orgulhos de Cora. Ali, você pode experimentar.

No jardim há maracujá, jabuticaba e caju. Árvores e flores e um banco para sentar, quase uma praça particular – mas somos avisadas a não relaxar demais ali já que os mosquitos e abelhas não estão para brincadeira.

JARDIM DE CORA CORALINA (Roteiros Literários)
JARDIM DE CORA CORALINA (Divulgação)

 

[toggle title=”SERVIÇO“]
Museu Casa de Cora Coralina

Endereço: Rua Dom Cândido (Rua dos Mercadores), n.º 20- Cidade de Goiás (Goiás Velho) – GO

Telefone: (62) 3371-1990

Visitação: terça a sábado, de 09h às 17h, e domingo de 9h às 16h
[/toggle]

A Cidade de Goiás guarda muitos lugares ligados à memória de Cora. Sua escola, no número 13 da rua da Direita (não há nada no local que remeta à escola), as doceiras em suas vendas, as igrejas, entre outros. A cidade despediu-se de Cora foi na Igreja Nossa Senhora do Rosário, que sempre esteve olhando por ela, localizada no final da rua de sua casa.

Ela morreu no dia 10 de abril de 1985, num hospital em Goiânia, devido a complicações de uma pneumonia. Foi velada na igreja vizinha e enterrada a poucos metros de casa, no Cemitério João Miguel. Tudo tão perto de onde ela sempre esteve. Até parece que a cidade é uma extensão do jardim de Cora.

TÚMULO DE CORA CORALINA NO CEMITÉRIO JOÃO MIGUEL (Roteiros Literários)
TÚMULO DE CORA CORALINA NO CEMITÉRIO JOÃO MIGUEL (Roteiros Literários)

[button url=http://google.com icon=pin]MAPA: CASA DE CORA CORALINA[/button]

[put_wpgm id=113]


PARA LER

[ul]

  • Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, de Cora Coralina
  • Estórias da Casa Velha da Ponte, de Cora Coralina

[/ul]