por Carol Cunha

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Calçada em frente à estátua de Fernando Pessoa no Café A Brasileira, em Lisboa

“A mansidão de não ter pretensões, de não reivindicar nada, e, mesmo assim, ter o privilégio de andar pelo mundo e testemunhá-lo na sua crueza,na sua beleza, na sua imperfeição… É por isso que eu viajo”, escreve Ana Raspini.

A literatura e a viagem são duas paixões da gaúcha de 30 anos. Em 2014, a professora de inglês e mestre em literatura inglesa que mora em Araranguá (SC) iniciou o blog Diário Lírico de Viagem, que abastece com crônicas sobre os lugares que mais a marcaram.

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Ana Raspini

Hoje viajar se tornou um estilo de vida que Ana compartilha com o marido. “Pelos últimos sete anos, meu maior objetivo de vida tem sido economizar para viajar, e viajar gastando o mínimo possível. Ficamos em albergues, pegamos metrô, procuramos pelos restaurantes mais escondidos, mais baratos, porém, não menos deliciosos. Cada dia livre da minha vida serve para viajar, planejar a próxima viagem, ou escrever sobre a viagem anterior.”

Ana acredita que viajar é abrir uma janela para o mundo e para experiências transformadoras. Foi assim desde criança quando ainda morava em um pequeno vilarejo do Rio Grande do Sul e era fascinada pelas serras gaúchas. Ou em 2009, quando embarcou rumo à Alemanha, terra natal do marido.

Pegar a estrada a deixou com os pés no chão e com a vontade de uma vida mais simples e com mais sentido.

“Viajar é um processo de aprendizado intensivo, um bombardeio de constatações metafísicas sobre a condição humana, e todo esse aprendizado faz com que eu viva uma vida mais serena. Viajar me dá, ao mesmo tempo, a compreensão avassaladora da minha insignificância num mundo tão grande e complexo, e uma noção tremenda de fazer parte de um todo.”

Para o Roteiros Literários, Ana escreveu sobre Lisboa e indicou dois escritores que não podem faltar na bagagem.

A Lisboa do Estrangeiro

Para um brasileiro, chegar a Lisboa traz uma sensação ambivalente de estranheza e familiaridade, ao mesmo tempo. Tudo que se vê, que se ouve, que se prova, é de certa forma familiar, mas não completamente. As avenidas com canteiros centrais, as colinas, a arquitetura dos cortiços, o idioma, os doces nos lembram alguma cidade litorânea brasileira (Florianópolis, talvez?), mas a cada minuto são as diferenças que nos chamam a atenção.

A diferença do português, chiado, rápido, às vezes cômico; a diferença da comida, das calçadas, da vista do centro antigo que não é para o mar, mas para o rio, é quando nos damos conta de que é mesmo Portugal.

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Restos mortais de Fernando Pessoa no Mosteiro dos Jerónimos

Creio que para visitar Lisboa bem acompanhado, o viajante deve ter consigo alguma coletânea de Fernando Pessoa, qualquer uma, para entender a cidade com a licença poética de um local que se sentia estrangeiro, em Lisboa assim como em qualquer outro lugar do mundo (“Estrangeiro aqui como em tôda parte”); e uma cópia de Trem Noturno para Lisboa, para entender a cidade na sua estranheza, como o estrangeiro que somos nela.

Fernando Pessoa ainda vive em Lisboa: vive em seus restos mortais no Mosteiro dos Jerônimos; vive em uma pintura no Museu do Azulejo; vive na sua estátua no Café A Brasileira; vive em seus poemas pintados pelas calçadas de Belém… Ler poemas como Lisbon Revisited (tanto o de 1923, quanto o de 1926) em Lisboa é como vê-la através dos olhos atordoados de Pessoa, é entender a importância do Tejo e do mar para o povo português, e vê-los como Pessoa os via: uma verdade absoluta porque é muda.

Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier (pseudônimo de Peter Bieri), não é apenas um livro, ele é um livro que contém outro. Na história, um professor de línguas clássicas, Raimund Gregorius, que vive uma vida pacata em Berna, na Suíça, ouve uma portuguesa pronunciar a palavra “Português” (purtuguêx) e a sonoridade do idioma desencadeia sentimentos que ele nunca antes havia sentido.

Então, Gregorius vai a uma livraria a procura de livros em Português e vê a essência mais profunda e desnuda de sua alma descrita em um livro de pensamentos de um médico e poeta Português chamado Amadeu de Prado. Gregorius fica tão obcecado pelo livro, pelo autor e pelo idioma que abandona tudo – profissão e apartamento – e pega um trem noturno para Lisboa, na esperança de encontrar esse médico, seu “irmão de alma”.

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Poema do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caieiro, numa calçada em Belém, em Lisboa

A cultura portuguesa, a dinâmica das relações interpessoais entre os portugueses (na sua eterna necessidade de indicar pessoas), mas, principalmente, a resiliência dos portugueses são descritas com proximidade e admiração no livro.

Fica muito fácil entender a melancolia e a rigidez desse povo que viu seu país completamente destruído por um grande terremoto seguido de Tsunami, que viu uma ditadura tirar sua liberdade e seus mais bravos cidadãos, e se orgulha de ter sobrevivido a ambos e se libertado do último.

Conhecer Lisboa sob esse ponto de vista faz o viajante entender aquele cansaço vestido de rispidez dos portugueses; ajuda o viajante a entender a relação dos portugueses com o mar e como a cultura deles influenciou a nossa.

A semelhança entre um professor suíço e um médico português e a sensação de familiaridade que este sente em um lugar no qual nunca havia estado antes fazem alusão ao fato de que, mesmo distantes, estamos de alguma forma interligados.

Creio que o maior protagonista da estória seja a força que um livro pode ter, a força da Literatura. Ler um livro significa herdar toda a experiência do autor que está contida no livro, como se sabedoria fosse transferível. Por conta de um livro, Gregorius se apaixona por uma mente e assim ganha um país”.


PARA LER
  • Nossos Clássicos, de Fernando Pessoa (Agir)
  • Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier (BestBolso)