por Leonardo de Lucas

Castelo de Heidelberg
Castelo de Heidelberg ao fundo e o rio Neckar: duas referências importantes para a trajetória de Weber na cidade

O sociólogo Max Weber
O sociólogo Max Weber

Heidelberg é reconhecida mundialmente como uma cidade universitária. E não é à toa. A instituição de ensino mais antiga e conhecida da Alemanha está lá: a Universidade Ruprecht Karl de Heidelberg.

Esse fato é determinante e fez da pequena cidade um grande centro cosmopolita, aberto a estrangeiros e a debates desde a Idade Média.

É nesse lugar que muitos séculos depois Max Weber (1864-1920) será peça chave daquilo que Norbert Elias chamou em sua autobiografia de a Meca da sociologia.

A relação de Weber com Heidelberg começa na infância, época em que ele morava em Berlim. Com seis anos, passa as férias na casa de seus avôs, na margem do Neckar, na mesma casa em que mais tarde residiria (Max-Weber-Haus).

Presencia com seus familiares a tensão do inicio da guerra franco-prussiana de 1870. A vitória selará o último capítulo da unificação alemã.

A VIDA DE ESTUDANTE DE WEBER

Weber foi estudante e depois professor na Universidade de Heidelberg. Hoje, o edifício abriga um museu sobre a história da instituição
Weber foi estudante e depois professor na Universidade de Heidelberg. Hoje, o edifício abriga um museu sobre a história da instituição

Em 1882, Weber inscreveu-se na Universidade de Heidelberg. Como o pai, ex-aluno da instituição de ensino, escolheu a Jurisprudência/Direito como sua principal matéria e formação profissional. Frequentou aulas de Direito Romano, mas também estudou história, filosofia e economia.

Nesta época, morou num quarto em frente ao castelo da cidade. A pousada, situada à margem direita do rio Neckar, foi demolida. Era conhecida por Waldhorn, depois chamada de Scheffelhaus.

Scheffelhaus: pousada de estudantes que abrigou Weber na juventude e que depois será ponto de encontro com amigos; o prédio não existe mais
Scheffelhaus: pousada de estudantes que abrigou Weber na juventude e que depois será ponto de encontro com amigos; o prédio não existe mais

Entrou para a fraternidade Allemannia. Lá o rapaz magro transformou-se num corpulento esgrimista, praticante de duelos. Também bebia e comia em excesso nas festas estudantis. Além da diversão, a organização da irmandade trazia um regime de rigor quase militar: uso de gorros vermelhos e trajes próprios, canto de melodias e existência de hierarquia entre os membros.

Sede da fraternidade Allemannia
Sede da fraternidade Allemannia

Weber passa a servir ao exército em 1883 e se transfere para Estrasburgo. Depois vem a terminar seus estudos na Universidade de Berlim.

Em 1892, conhece Marianne, sobrinha neta de Max Weber pai. Casam-se no ano seguinte. A mulher que viria a ser sua esposa tinha ideias e visões de mundo próprias, que repensavam a condição feminina na sociedade e na organização familiar.

OS ANOS COMO PROFESSOR

Quatro anos mais tarde, a Philosophische Fakultät da Universidade de Heidelberg o nomeou sucessor do acadêmico e professor de economia Karl Knies.

Weber tornou-se colega de ex-professores e começou a ter muita influência nas áreas de humanas, propondo mudanças na organização dos cursos e na divisão das atividades docentes e das pesquisas.

A extrema dedicação acadêmica exaure as forças físicas e psicológicas de Weber. A conjuntura se complica por conta de atritos familiares com o pai. A partir daí, passa a enfrentar uma situação que será recorrente até o fim de seus dias: crises e mais crises nervosas, sendo sucedidas por internações em diversas clínicas.

Apesar de pedir dispensa do cargo, o governo encontra meios para manter de alguma forma seu vínculo com a universidade. Embora relutante, aceita a condição por um tempo. Depois, não encontra mais meios de continuar com a atividade didática. Demite-se do cargo letivo. Recebe o título de professor honorário, além de uma nomeação adjunta para fazer conferências.

A partir de 1903, Weber dedica-se a desenvolver suas ideias e pesquisas. Algumas palestras e viagens, como para os Estados Unidos, serão essenciais para auxiliar seus estudos. Sua principal obra, A ética protestante e o espírito do capitalismo, começa a ser trabalhada nessa época. O autor participa de debates teóricos e metodológicos sobre a ciência sociológica.

Edifício em que Weber morou nos primeiros anos da docência
Edifício em que Weber morou nos primeiros anos da docência

Por esses anos, Weber morou com sua esposa num apartamento na Hauptstrasse, 73. No piso térreo do prédio encontra-se atualmente uma loja de sapatos. Tudo indica que a arquitetura do edifício é a mesma do tempo em que o sociólogo lá residiu.

O fato de Heidelberg não ter sido bombardeada durante a Segunda Guerra pode ser um elemento a mais para dar respaldo à hipótese. A cidade, no geral, também não modificou sua urbanização. Tirando o comércio, o turismo e o número de veículos, trata-se da mesma vista que Weber tinha há mais de cem anos.

Em 1906, Weber muda-se para uma casa no lado sul do rio Neckar, a Riviera de Heidelberg, na Ziegelhäuser Landstrasse nº 27. O imóvel possui mais espaço do que o apartamento, com jardins, pomares e vista para o famoso castelo da cidade.

Para se exercitar, o sociólogo faz caminhadas pelas margens do rio, passeia pelo Philosophenweg e com frequência sobe até o alto do morro que abriga o castelo.

Casa de Weber vista do alto do castelo – Max-Weber-Haus
Casa de Weber vista do alto do castelo – Max-Weber-Haus

A partir de 1910, Weber passa a morar na grande casa que pertenceu a seus avôs, na mesma Ziegelhäuser Landstrasse, agora no número 17. O escritor e teólogo Ernst Troeltsch fica com um dos andares para ajudar nas despesas. Essa é a residência que será conhecida pelos encontros literários de estudantes e intelectuais da época.

Por ali passaram, dentre inúmeros outros, Ferdinand Tönnies, Werner Sombart, Georg Simmel, Alfred Weber (irmão), Ernst Toller, Paul Honigsheim, Wilhelm Windelband, Karl Jaspers, Stephan George, Ernst Bloch, Nikolai von Bubnov e Georg Lukács.

Casa de Max Weber
Casa de Max Weber

Hoje em dia a casa é propriedade da Universidade de Heidelberg, chama-se Max-Weber-Haus, e funciona como centro de estudos internacionais sobre a língua e a cultura alemãs.

Jovens acadêmicos de várias partes do mundo são introduzidos à vida universitária e preparados para testes de proficiência em alemão. Infelizmente, não há resquícios da época em que Weber ali residiu, como um escritório ou uma biblioteca.

Detalhe da placa no portão da casa
Detalhe da placa no portão da casa

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Quando se inicia a Primeira Guerra Mundial, Weber, que já tinha feito serviço militar, logo se apresenta às forças armadas. Recebe o cargo de oficial disciplinar da Comissão de Hospitais Militares do Corpo de Reserva e é encarregado de criar hospitais de reserva em Heidelberg.

Nove centros de atendimento novos passam a existir na cidade, sendo que o sociólogo faz toda a gestão deles. A jurisdição de Weber como oficial disciplinar se estende a cerca de quarenta hospitais militares do distrito. Com o fim da guerra, Weber faz parte de uma delegação, como consultor dos negociantes alemães, que vai a Versalhes em busca de um tratado de paz.

ÚLTIMOS ANOS

Durante esse período, Weber aceita um cargo de professor de economia na Universidade de Viena e em 1919 muda-se para Munique para trabalhar na instituição de ensino de lá.

Em 14 de junho de 1920, sucumbe à pneumonia e seu corpo volta para Heidelberg, sendo sepultado no Cemitério de Bergfriedhof.

Na lápide de seu túmulo, Marianne decidiu pôr nos lados opostos frases que falam sobre a grandeza e a limitação humanas: “Jamais se verá alguém como ele” (Wir finden nimmer seinesgleichen) e “Tudo que é temporal é apenas uma imagem” (Alles Vergängliche ist nur ein Gleichnis). A primeira é uma parte da fala de Hamlet, de Shakespeare, e a outra é um trecho do Fausto, de Goethe.

O túmulo de Weber e de sua esposa, Marianne
O túmulo de Weber e de sua esposa, Marianne

INSTITUTO MAX WEBER

Numa parte mais recente da universidade, Campus Bergheim, encontra-se o prédio que abriga o Max-Weber-Institut für Soziologie (Instituto Max Weber). É lá que o professor Wolfgang Schluchter comanda o grande projeto de edição das obras completas de Weber.

O instituto em si é composto de salas e escritórios. Não é possível visitá-lo e também não há exposição de fotos ou de escritos originais do autor. Mas vale a pena conhecer para sentir o ambiente universitário de Heidelberg.

Campus Bergheim, no Instituto Max Weber
Campus Bergheim, no Instituto Max Weber

Philosophenweg

Uma das atrações turísticas da cidade, conhecida pela bela vista que proporciona. É uma estrada de quase dois quilômetros com partes íngremes e bastante contato com a natureza. Weber e Marianne passeavam muito por esse caminho.

Vista da cidade pelo Philosophenweg
Vista da cidade pelo Philosophenweg

PARA LER

  • A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber
  • Economia e Sociedade, Max Weber
  • A “Objetividade” do Conhecimento nas Ciências Sociais, Max Weber
  • Ciência e Política: duas vocações, Max Weber
  • Max Weber: uma biografia, Marianne Weber