por Leonardo de Lucas

O autor Erico Verissimo (Divulgação)
O autor Erico Verissimo (Divulgação)

VISITADOAntes de chegar à cidade, uma placa lhe dá as boas-vindas, dizendo que você está na terra de Erico Verissimo (1905-1975). Cruz Alta, município localizado no centro-norte gaúcho, orgulha-se de seu mais ilustre filho. Em suas obras, há muitas referências diretas e indiretas a esse lugar em que o escritor passou a infância e boa parte da juventude.

O acesso não é fácil. De Porto Alegre, são quase 340 km, passando por trechos de serra. Apesar de ser uma das mais antigas da região, a cidade é tranquila e simpática, como uma localidade de interior.

Lá se encontra a Casa Museu Erico Verissimo, local onde o escritor nasceu e viveu até o fim de 1922. A prefeitura comprou a casa em 1968 e a transformou num museu. Em 1986, surgiu a Fundação Erico Verissimo, que passou a administrar o espaço.

A residência, construída em 1883, foi comprada pelo avô do escritor, Franklin Verissimo, uma década depois e ficou nas mãos da família até 1930, quando foi a leilão.

Localizada na região central da cidade, a edificação é majestosa. As grandes janelas com sacadas dão um charme especial ao lugar, além de serem locais privilegiados para fotos.

Placa da entrada da cidade de Cruz Alta (RS)
Placa da entrada da cidade de Cruz Alta (RS)
Casa Museu Erico Verissimo, em Cruz Alta (RS) (Reprodução)
Casa Museu Erico Verissimo, em Cruz Alta (RS) (Reprodução)
Fachada da Casa Museu Erico Verissimo (Reprodução)
Detalhe da placa com o nome do escritor na Casa Museu Erico Verissimo (Reprodução)

No entorno ficava a Farmácia Brasileira de Sebastião Verissimo, pai do escritor. O convívio com esse estabelecimento teve profundo impacto no imaginário do pequeno Erico. A importância da drogaria era enorme para a cidade e funcionava também como um mini-hospital.

A entrada da casa se dá por um imponente portão de ferro. Ao entrar, o visitante se depara com um corredor, externo à residência, que conduz ao quintal.

Exprimida, no fundo desse corredor, há uma árvore. Parece uma árvore qualquer, comum, que provavelmente passa despercebida por alguns visitantes. No entanto, é muito especial para o escritor. Ela é testemunha da imensa criatividade e do rápido desenvolvimento intelectual do romancista.

Trata-se de uma nespeira, também chamada de ameixeira-do-Japão. É a mesma árvore que fez companhia ao escritor em suas brincadeiras, que o acompanhou nas primeiras leituras e nos primeiros escritos, que sofreu, riu e chorou com o menino e também com o jovem Érico.

Como representação da importância dessa árvore para a vida do autor, o nome de um dos capítulos da sua autobiografia, Solo de Clarineta (volume 1), é exatamente ameixeira-do-Japão.

Ao entrar pela casa propriamente dita, o visitante se depara com cômodos repletos de fotos e de objetos que foram importantes para a biografia do escritor. Estão ali, entre outros, desenhos, cadernos com anotações (rascunhos de textos e livros), documentos pessoais e a primeira máquina de escrever. As imagens mostram diversas fases da vida de Erico.

Há ainda uma maquete da Vila de Santa Fé de O Tempo e o Vento e diversas edições de seus livros, inclusive em outras línguas.

Estar nesse museu é mergulhar no universo do autor e imaginar sua infância e juventude. Toda essa história é narrada em Solo de Clarineta. Lá o autor descreve a personalidade de seus pais, os primeiros casos amorosos, as brincadeiras com os amigos, a paixão pelos livros, o interesse pelo cinema e a curiosidade pelas pessoas e pelo mundo.

O livro também narra os momentos delicados passados pelo escritor nos cômodos dessa casa. Destes quartos ele viu, entre outras coisas: o excesso das festas oferecidas pelo seu pai, um homem que apesar de muito culto, era um bon vivant sem igual; as discussões entre seus pais, boa parte por conta das traições de Sebastião Verissimo; o descaso de seu pai com a contabilidade da farmácia; e o desespero de sua mãe, que teve de costurar para fora para sustentar a família.

Acervo de fotos da Casa Museu Erico Verissimo (Reprodução)
Acervo de fotos da Casa Museu Erico Verissimo (Reprodução)

 

Primeira máquina de escrever de Erico Verissimo, exposta na casa (Reprodução)
Primeira máquina de escrever de Erico Verissimo, exposta na casa (Reprodução)
Maquete da Vila de Santa Fé, do livro O Tempo e o Vento, exposta na casa (Reprodução)
Maquete da Vila de Santa Fé, do livro O Tempo e o Vento, exposta na casa (Reprodução)
Desenhos de Erico Verissimo (Reprodução)
Desenhos de Erico Verissimo (Reprodução)

Os funcionários também contribuem para a constituição desse centro memorial. Sempre solícitos, eles fazem a imersão do visitante, contando histórias sobre a família Verissimo, sobre a infância e a juventude do escritor, sobre o contexto histórico da época e também sobre a relação dos livros com a própria trajetória de vida do autor.

Neste espaço o visitante tem contato, principalmente através de fotos, com o reconhecimento que o escritor teve tanto no Brasil como em outros países.

Erico é o autor que mais bem representou sua região na literatura. Em O Tempo e o Vento é narrada a história do Rio Grande do Sul de 1680 a 1945, com a saga das famílias Cambará e Terra.

Há também romances políticos como O Senhor Embaixador e Incidente em Antares. Além disso, é reconhecido como um dos melhores romancistas de temática urbana, como em Olhai os Lírios do Campo e O Resto é Silêncio.

Esse cruzaltense tímido que brincava sob a copa da ameixeira-do-Japão voou longe. Anos depois lecionou literatura na Universidade da Califórnia em Berkeley nos Estados Unidos, foi diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos e conheceu alguns dos mais importantes escritores, artistas de cinema e intelectuais de seu tempo.

Numa entrevista à Revista Manchete, em 1973, ele destaca assim a importância de ter nascido em Cruz Alta:

Você não pode calcular como é bom, fecundo para um romancista, ter nascido e vivido numa cidade pequena. O computador do meu inconsciente foi programado em Cruz Alta. Numa cidade do interior a gente vive mais perto das coisas.

Sobre a casa museu

Em 18 de outubro de 1975, quarenta dias antes de falecer, o autor fez sua última visita à casa que havia se transformado em museu (Reprodução)
Em 18 de outubro de 1975, quarenta dias antes de falecer, o autor fez sua última visita à casa que havia se transformado em museu (Reprodução)

O museu passou por reformas estruturais nos últimos anos, nas paredes e no teto. Toda a pintura interna foi refeita. O jardim da casa está sendo reconstruído com base nos registros feitos por Erico em Solo de Clarineta (volume 1). O horário de funcionamento também está sendo ampliado, incluindo fins de semana e visitas noturnas mediante prévio agendamento. A entrada é gratuita.


PARA LER

  • Solo de Clarineta (volume 1), Erico Verissimo
  • O Tempo e o Vento, Erico Verissimo