por Leonardo de Lucas

O AUTOR STEFAZ ZWEIG
O AUTOR STEFAN ZWEIG

VISITADOPetrópolis é uma cidade fluminense reconhecida pelo seu passado imperial. Antigo recanto de veraneio da família real, o município traz em seus casarões e palácios a imponência daquele período.

A influência europeia, principalmente germânica, é marcante. É essa pequena Viena dos trópicos encravada nas montanhas que em 1936 atraiu a atenção de Stefan Zweig (1881-1942), renomado escritor austríaco de origem judaica.

Era apenas o segundo dia de sua visita ao país e a reação numa carta à ex-mulher prova que gostou do que viu: “o lugar mais bonito que encontrei”. Zweig estava no auge da produção literária e do reconhecimento internacional.

Fazia três anos que Hitler havia chegado ao poder na Alemanha, o nazismo ainda não tinha mostrado o seu lado mais nefasto e a Segunda Guerra era uma possibilidade distante. Mal sabia naquele momento que essa região serrana seria sua última morada e ali encerraria sua vida num trágico desfecho.

Um pouco da história de Zweig

Nascido na Viena do final do século 19, Stefan Zweig vivenciou uma época de intensas e radicais transformações científico-tecnológicas, políticas, culturais e artísticas.

Educado pela mais refinada burguesia judaica, chocou-se com a desintegração da cultura europeia, o renascimento do ódio racial e do nacionalismo e a transubstanciação do progresso técnico em armas de destruição em massa.

No período entreguerras era o autor mais lido e traduzido em todo o mundo. Nessa época também teve atuação marcante junto a outros escritores europeus na defesa do pacifismo, do humanismo e do internacionalismo.

Tinha trânsito livre entre pensadores de vertentes que iam do liberalismo ao socialismo e que formavam uma complexa rede de relacionamentos e de circulação de ideias.

Zweig teve inúmeros amigos intelectuais, dentre eles: Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Theodor Herzl, Maxim Gorki, Arthur Schnitzler, Sigmund Freud, Thomas Mann, Émile Verhaeren e Richard Strauss. Correspondeu-se e entrou em contato com Hermann Hesse, James Joyce, Sergei Eisenstein, Salvador Dalí, Albert Einstein, Max Brod, Martin Buber, H. G. Wells, Paul Valéry, Alban Berg e Arturo Toscanini.

Por ser judeu e pela sua proximidade a importantes escritores e políticos de origem judaica, Zweig sente a pressão da ascensão do nazismo e se vê obrigado a deixar a Áustria em 1933/34 para se estabelecer na Inglaterra.

Durante esse período, seus livros são queimados em praça pública na Alemanha. Começa o período de exílio, em que o escritor se vê sozinho, desterrado, sentindo-se em toda parte um estrangeiro.

Depois da primeira visita ao Brasil, o romancista voltaria mais uma vez em agosto de 1940 para escrever um livro sobre o país, como havia prometido aos repórteres. As principais cidades foram percorridas e daí nasceria o controverso Brasil, país do futuro.

Em plena ditadura Vargas, era difícil compreender um texto tão elogioso à nação. No ano seguinte, em seu lançamento, o ensaio receberia uma enxurrada de críticas de jornalistas e da intelectualidade brasileira.

No terceiro e último retorno, em agosto de 1941, Zweig prefere ficar distante da agitação e das polêmicas. Escolhe a Petrópolis que o encantou outrora para morar. Aluga uma pequena casa no número 34 da Rua Gonçalves Dias. Lotte, sua segunda esposa, a descreve como um bangalô. Numa carta à ex-mulher, o autor dá detalhes sobre sua nova situação:

“Hoje nos mudamos felizes. É uma casa minúscula, mas com amplo terraço coberto e uma bela vista. Um pouco fresco agora no inverno e o local é tão maravilhosamente deserto como Ischl em outubro e novembro. Finalmente um lugar para descansar por alguns meses. E as malas serão guardadas para não serem mais vistas por longo tempo”.

PLACA NA CASA DE ZWEIG
PLACA NA CASA DE ZWEIG
A CASA DE ZWEIG, EM PETROPÓLIS (RJ)
A CASA DE ZWEIG, EM PETROPÓLIS (RJ)

É no terraço citado que Zweig comemora seu aniversário de 60 anos. Sua estadia também rende frutos literários. Escreve lá a Novela de Xadrez, a introdução ao ensaio Montaigne, retoca a obra inacabada Clarissa e termina a autobiografia, O mundo de ontem. Três coleções de livros o fazem companhia: as obras de Goethe, de Montaigne e de Balzac.

Foram apenas cinco meses que o casal ficou no imóvel. A condição aparentemente favorável não conseguiu reverter o estado de espírito do romancista.

A expansão nazista pela Europa, a perseguição e o massacre de judeus, a distância de seu universo cultural, a solidão que de benéfica se tornou opressiva, a morte de seus amigos e a perspectiva trágica que se avizinhava sobre os que ainda viviam, o quadro depressivo que se agravava dia após dia, o estado precário da saúde de Lotte, a falta de seus livros para trabalhar adequadamente, todos esses fatores foram se aglutinando e tomaram a forma de ação no dia 23 de fevereiro de 1942, quando os dois se mataram.

Transformação da casa em museu

Poucos dias depois da tragédia, um jornalista propôs que essa casa fosse transformada em museu. Mas não aconteceu. A casa foi trocando de donos até ser tombada pelo patrimônio histórico no início dos anos 80.

Tal medida não impediu alterações no interior e na fachada. Mesmo sem ter uma referência institucional, turistas europeus, principalmente austríacos e alemães, visitavam Petrópolis, procurando pela última morada de Zweig e pelo cemitério onde está enterrado.

Quase setenta anos depois de sua morte, em 2006, um grupo de admiradores comprou a casa com a intenção de transformá-la num museu em sua homenagem.

Nascia então a Casa Stefan Zweig, uma entidade cultural de direito privado sem fins lucrativos que, além de resgatar a história de Zweig no Brasil, também atua como um centro memorial do exílio, organizando e divulgando biografias de intelectuais e cientistas europeus que se refugiaram no país por conta do horror nazista.

Alguns anos depois, começam as reformas para recuperar a aparência externa da residência e para adaptar o imóvel às condições necessárias para abrigar o museu.

Nesse ínterim, a Casa Stefan Zweig, como entidade, começa a funcionar por meio de uma website e de palestras, encontros e vídeos disponibilizados na internet. No fim de junho de 2012, a Casa é aberta à visitação e começa a receber exposições.

Graças ao esforço hercúleo desse grupo de admiradores o país retribuiria, décadas depois, os agradecimentos que Zweig expôs em seu ultimo texto literário, sua declaração de despedida:

“Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida.”

AS INSTALAÇÕES DO INTERIOR DA CASA
AS INSTALAÇÕES DO INTERIOR DA CASA

A Casa tem como presidente o jornalista Alberto Dines, estudioso dedicado a reconstituir a trajetória e a memória de Zweig no país. O jornalista é um dos idealizadores do projeto e também responsável pela divulgação e redescoberta da obra do escritor em âmbito nacional.

Em reconhecimento a atuação de Dines, o governo austríaco concedeu a ele dois prêmios importantes: a Condecoração Austríaca de Ciência e Arte e o Prêmio Austríaco de Comemoração do Holocausto.

Como reflexo desses êxitos, a Casa Stefan Zweig passou a contar com a parceria da organização sem fins lucrativos Österreichischer Auslandsdienst (Associação de Serviços Alternativos no Estrangeiro), que oferece aos austríacos a possibilidade de realizar serviço civil no exterior por 12 meses em vez de cumprir o serviço militar no próprio país. Quem opta pelo Auslandsdienst realiza serviço social, memorial ou de paz.

A Casa pertence ao grupo das instituições vinculadas ao serviço memorial (Serviço Austríaco da Memória do Holocausto). Por conta disso, o museu recebe um austríaco que auxilia nas atividades e na organização. Atualmente, presta serviço na Casa Stefan Zweig o atencioso e gentil Harris Maneka, que em poucos meses já fala português fluentemente.

O espaço da casa em si é pequeno, mas muito bem aproveitado. As paredes estão repletas de pôsteres e há muitos recursos audiovisuais interativos.

Há uma pequena vitrine em que estão alguns objetos que pertenceram a Zweig, como livros, um tabuleiro de xadrez, um cachimbo e uma foto autografada. No cômodo onde era o quarto em que o casal se suicidou, encontra-se a máscara mortuária do escritor e a tradução da declaração de despedida em português e inglês.

OBJETOS E INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR NA CASA
OBJETOS E INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR NA CASA

 

OBJETOS PESSOAIS DE ZWEIG NA CASA
OBJETOS PESSOAIS DE ZWEIG NA CASA

A gerente da Casa, Dora Martini, recebe os visitantes de forma muito amistosa e acolhedora. Ela é uma apaixonada pela vida e obra de Zweig. Não se cansa de dar explicações e de contar fatos sobre a residência e sobre a vida do casal em Petrópolis.

Essa proximidade com as pessoas que trabalham e organizam o museu faz dele um lugar ainda mais especial. Em poucos minutos você se sente à vontade para conhecer, perguntar e interagir com tudo que o cerca.

Além do material relacionado à passagem de Zweig pela casa e pelo Brasil, ainda há uma parte dedicada a exposições temporárias e outra intitulada Canto dos Exilados. Voltada ao resgate da vida e obra de artistas, intelectuais e cientistas que se refugiaram no país entre 1933 e 1945, a seção dos exilados é fruto de uma pesquisa organizada e coordenada pelo historiador Fábio Koifman.

Dentre os nomes que fazem parte desse setor estão: Henry Jolles, Frank Arnau, Paulo Rónai, Anatol Rosenfeld e Herbert Caro. Essas ações são parte da ideia de que, além de museu ao escritor austríaco, a Casa é também um Memorial ao Exílio.

DORA MARTINI NA RECEPÇÃO DO MUSEU. À ESQUERDA, NO PÔSTER ROSA, O CANTO DOS EXILADOS
DORA MARTINI NA RECEPÇÃO DO MUSEU. À DIREITA (PÔSTER ROSA), O CANTO DOS EXILADOS

No interior da casa, boa parte dos equipamentos audiovisuais passa trechos de documentários sobre a história do museu e sobre como era a vida de Lotte e Stefan em Petrópolis (incluindo uma simulação de como era a disposição dos móveis e dos cômodos da residência).

A Casa Stefan Zweig também reúne em suas ações a exibição de filmes baseados na obra do escritor, apresentações musicais, publicações de livros e a realização de palestras e outras atividades que tenham ligação com a vida e a obra do romancista austríaco.

Na parte externa e no terraço, há referências à Novela de Xadrez, texto escrito na época em que o escritor morou na casa: são tabuleiros organizados sobre as mesas da grande sacada e um em tamanho gigante no jardim, na parte inferior do imóvel. É possível passar bons momentos apreciando a vista e se divertindo com esses atrativos.

 

NO JARDIM, O VISITANTE ENCONTRA UMA REFERÊNCIA AO LIVRO NOVELA DE XADREZ, ESCRITO POR ZWEIG ENQUANTO MOROU NA CASA
NO JARDIM, O VISITANTE ENCONTRA UMA REFERÊNCIA AO LIVRO NOVELA DE XADREZ, ESCRITO POR ZWEIG ENQUANTO MOROU NA CASA

 

MESAS DE XADREZ DISPOSTAS NA VARANDA DA CASA
MESAS DE XADREZ DISPOSTAS NA VARANDA DA CASA

Mesmo com toda a ousadia de criar essa casa-museu, o projeto Casa Stefan Zweig ainda vai além. Numa segunda etapa será construída uma biblioteca e anexos para visitantes e pesquisadores em um terreno contíguo. No final de um documentário sobre a instituição, Alberto Dines destaca o desafio que esta empreitada demanda:

“Stefan Zweig nos legou uma missão muito importante: a de reconstituir toda a documentação espalhada e reconstituir a sua passagem pelo Brasil. Nós temos a obrigação moral de reconstituir, costurar, amarrar e dar ao mundo a ideia do que foram os últimos seis anos da vida de Stefan Zweig. O Brasil não aconteceu por acaso.

O Brasil está na vida de Stefan Zweig desde 1928; depois quando ele veio ao Brasil em 1936. Então esse pedaço da história do Stefan Zweig está aqui no Brasil e cabe a nós, pesquisadores brasileiros, pesquisadores internacionais, recompor esse pedaço da vida, a vida brasileira de Stefan Zweig.”

Cemitério de Petrópolis

No principal cemitério da cidade está enterrado, espremido entre grandes jazigos, o casal Lotte e Stefan Zweig. Trata-se do túmulo mais visitado, principalmente por europeus dos países de língua alemã. O acesso não é simples. Não há mapas, nem indicações desta ou de outras sepulturas famosas que estão no local. Para visitá-lo, vá até a administração do cemitério e peça uma indicação da localização.

TÚMULOS DE LOTTE E STEFAN ZWEIG
TÚMULOS DE LOTTE E STEFAN ZWEIG

 


SERVIÇO E LOCALIZAÇÃO

A Casa fica em Petrópolis, região serrana do Estado do Rio de Janeiro, situada no bairro de Valparaíso. A entrada é gratuita.


PARA LER

  • Novela de Xadrez, Stefan Zweig
  • O mundo de ontem, Stefan Zweig
  • Montaigne, Stefan Zweig
  • Brasil, um país do futuro” de Stefan Zweig
  • Morte no paraíso, Alberto Dines