por Maria Fernanda Moraes

Foto: Leo Aversa

Marcelo Moutinho é um escritor.

Também é um guia, podemos dizer.

Ou um cicerone. Ou, ainda, é um olho vivo no Rio de Janeiro.

Mas não só olho, porque não vive apenas de imagens, pelo contrário, as traduz em palavras.

Quando li, há algum tempo, sobre o livro de crônicas que ele iria lançar, logo pensei: se encaixa certinho na coluna 3 lugares, do Roteiros.

Mas, depois de terminar o livro, vi que era mais que isso. “Na dobra do dia” é a essência do Roteiros Literários.

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(foto: Maria Fernanda Moraes)

Trata-se de uma reunião de crônicas curtinhas, que estão divididas em duas partes no livro: Pequenos Amores da Armadilha Terrestre e As Ruas Pensam.

A primeira crônica, que tem o mesmo nome que dá título à obra – Na dobra do dia -, fala desse período do final do expediente, entre o cair da tarde e a chegada da noite. “Existe uma hora imprecisa do dia”, diz o autor. E termina invocando um dos deuses da crônica, homenageado por ele: Paulo Mendes Campos.

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(foto: Maria Fernanda Moraes)

O pôr-do-sol no Rio de Janeiro é o convite de entrada do livro. É uma crônica linda e, ao mesmo tempo faceira, porque te dá a falsa sensação de que o livro vai ficar por ali, naquela cancha da subjetividade, mostrando os pontos turísticos de um Rio de Janeiro poético.

Ledo engano, amigos, porque a segunda crônica já chega te puxando pela mão para um rolê pelo subúrbio. “Recebi um e-mail de minha irmã Lilian sobre o imóvel que temos em Madureira”. Pronto! É aí que começa a imersão.

Entre memórias de infância, nomes de rua, sambas-enredo e tradições como o dia de São Cosme e Damião, a gente vai conhecendo a Madureira do Marcelo.

Conhece, meio que já conhecendo, porque a familiaridade que a narrativa traz parece cutucar também aquelas lembranças que a gente tem em algum lugar-comum do inconsciente: o piso de cacos cor de terra no quintal da casa, a cadeira trançada ou as prateleiras abarrotadas de enfeite – “Espaços livres são praticamente um interdito no subúrbio. Se há um canto sem móveis na sala, instala-se ali uma poltrona”, escreve o autor na crônica Subúrbio.

Na segunda parte, com a benção de João do Rio, Moutinho convida o leitor para um chope – com colarinho! – num dos muitos botecos que aparecem no livro: o Bip Bip, o Villarino, o Coisa da Antiga, o Semente, o Brasil, o Nova Capela o Cosmopolita e o A Paulistinha. É um passeio pela Lapa e pelo centro que tem aquele clima de papo de bar, na melhor síntese que uma crônica pode ter.

Por tudo isso que contei aí em cima, quando fui conversar com o Marcelo para essa matéria, não tinha como fugir do Rio de Janeiro na hora de escolher seus 3 lugares preferidos, aqueles que influenciaram sua escrita. Ele decidiu, então, falar sobre dois bairros cariocas e uma cidade fluminense. Acompanha aí:

MADUREIRA

Infância em Madureira (foto: acervo pessoal)
Infância em Madureira (foto: acervo pessoal)

“Foi o bairro em que eu nasci, que é muito importante em todas as coisas que eu escrevo e na minha própria vida. É onde ficava a casa da minha infância e onde também está a quadra da Império Serrano, minha escola de samba, onde eu desfilo todos os anos e tenho uma convivência com a comunidade local até hoje.

Essa minha Madureira afetiva começa mais ou menos na Rua Carvalho de Souza, que é a rua um pouco antes do viaduto – para quem conhece o bairro – e se encaminha até uns 500 metros, no início da Estrada do Portela, onde tem a quadra do Império Serrano, a parte mais comercial.

O viaduto divide os dois bairros: de um lado um bairro mais residencial e do outro, uma espécie de centro comercial do subúrbio do Rio de Janeiro.

Esse lugar é de fundamental importância porque não foi só a minha primeira convivência de infância, mas por determinar alguns caminhos que eu literariamente exploro, que é esse universo do subúrbio carioca, da classe média baixa, não só nos contos, mas também e, principalmente, nas crônicas. Eu falo sobre esse universo urbano da cidade, a classe média/baixa que circula por esse universo”.

Foi em seu segundo livro, Somos Todos Iguais Nesta Noite, que ele passou a ter consciência de que o subúrbio era parte importante da sua escrita. “Era um momento que me parecia que a gente estava um pouco fechado numa dicotomia: havia os livros que falavam da favela, das comunidades, da violência e tal; e os livros que falavam dos dramas burgueses, e eu achava que aquela vivência que eu tinha experimentado estava sem lugar e eu queria escrever sobre isso – não só como testemunha, mas também usando esse universo como inspiração ficcional”.

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(foto: Maria Fernanda Moraes)

Marcelo vive atualmente em Botafogo. Morou em Madureira até os 10 anos. O pai era comerciante local. E, depois, embora não morasse mais no bairro, ainda tinha um vínculo, já que a bisavó e as tias-avós moravam, e era lá onde ele estudava. “Embora eu não dormisse, passava praticamente o dia lá até o momento do vestibular, aos 17 anos”.

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Com a esposa, em setembro, na quadra do Império Serrano (foto: acervo pessoal)
Com Aluisio Machado, em agosto, celebrando a escolha do samba no Império Serrano (foto: acervo pessoal)
Com Aluisio Machado, em agosto, celebrando a escolha do samba no Império Serrano (foto: acervo pessoal)

Ele também falou sobre o contato com Madureira hoje em dia. “Minha relação é muita atravessada pelo Império Serrano, que é a escola de samba que eu desfilo todo ano.

Então, por exemplo, amanhã eu tenho ensaio e vou pra Madureira. Minha família não tem mais a loja, mas eu acabo frequentando o bairro por causa da quadra”.

CENTRO DA CIDADE

“O centro é onde eu trabalho desde os 19 anos e onde morei até o ano passado (na Lapa). O que me encanta no centro é uma coisa que talvez só a praia no Rio de Janeiro tenha: que é o espaço onde se juntam as pessoas de todos os cantos da cidade.

As pessoas que vêm das zonas suburbanas; da zona sul – a zona mais nobre; as que vem da zona oeste e acabam indo para o centro trabalhar. Acho que é um universo muito rico de encontros e de sínteses. Quer dizer, numa cidade que, ao contrário do que se pensa, é muito setorizada – os ricos estão na zona sul, os mais ou menos ricos na Tijuca; e os mais pobres estão nas zonas periféricas – o centro, assim como a praia, é o espaço de convivência democrática dessas pessoas.

Fora isso, tem uma outra coisa bacana do centro que é a história. É onde a história do Rio de Janeiro praticamente começou, tem muitos prédios preservados… então há ali um sentimento de pertencimento e de ligação com o passado muito forte. É como se o passado tivesse sendo evocado o tempo todo, apesar da gente estar hoje vivendo em outro tempo”.

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(foto: Maria Fernanda Moraes)

Moutinho trabalha na Ordem dos Advogados do Brasil, na avenida Marechal Câmara, que é perto do Aeroporto Santos Dumont e razoavelmente perto do Morro do Castelo. “Tem vários lugares próximos que eu frequento, por exemplo: o bar Villarino, que tem uma crônica dedicada a ele no livro. É o bar onde o Tom Jobim conheceu o Vinicius de Moraes.

Ele é muito famoso por isso hoje em dia, mas antes já era o bar da boemia antiga. Minha livraria preferida é a Folha Seca, na Rua do Ouvidor. Está para além do ir e vir do trabalho – de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Eu frequento muito o centro como o lugar para beber com meus amigos, para ir a livrarias, para ouvir samba e tudo mais”.

PARATY

“Meu irmão morou 12 anos em Paraty, desde antes da FLIP existir. Muita gente conhece a Paraty da FLIP, que é completamente diferente do tempo sem a FLIP. Tem uma crônica no livro sobre isso também. Acho bacana as pessoas irem também a esta outra Paraty.

Na FLIP em 2014, quando Marcelo participou do tradicional jogo entre escritores (foto: acervo pessoal)

Foi uma cidade que eu tive grande intimidade. Embora não seja tão perto do Rio, volta e meia eu estava lá. Parece que na FLIP ela se enche e perde um pouco das características próprias, fazendo uma espécie de cenário para uma importante festa literária.

Talvez não seja muito possível observar os casarios, as lojas com aqueles pequenos balões da cidade. Me parece que a alma de Paraty é ser uma cidade um pouco vazia, não uma cidade cheia. É como se fosse uma cidade em que o tempo é um pouco mais lento, em que se vive um tempo de outro tempo, do passado.

E essa minha Paraty não fica apenas no centro histórico. Se estende, por exemplo, para Paraty Mirim, onde ficam as reservas indígenas e uma praia; para a estrada pra Cunha, que é uma parte mais rural; para a praia de São Gonçalo… quer dizer, é uma Paraty de uma desaceleração da vida [que na FLIP nem é possível já que você está sendo o tempo todo demandado] e que mistura de maneira incrível rio, mar, aldeia indígena, igrejas de referências portuguesas.

Em Paraty Mirim tem a capela de Nossa Senhora da Conceição que fica na areia, uma ruína da época colonial dentro de uma reserva indígena. É uma síntese de natureza e de cultura muito incrível.

Gosto de Paraty quando ela está mais vazia, as praias estão mais vazias, você consegue caminhar, vagabundear, flanar pela cidade sem pressa e podendo demorar 3 horas num almoço, tomando cachaça e cerveja”

PARA LER:

  • Somos todos iguais nesta noite, de Marcelo Moutinho, Editora Rocco
  • Na dobra do dia, de Marcelo Moutinho, Editora Rocco
  • A palavra ausente, de Marcelo Moutinho, Editora Rocco