por Leonardo de Lucas

Busto de Marx no jardim da casa onde ele nasceu em Trier, hoje, um museu sobre o sociólogo
Busto de Marx no jardim da casa onde ele nasceu em Trier, hoje, um museu sobre o sociólogo

VISITADOA relação de Karl Marx com a cidade de Trier é lembrada nas entrelinhas da primeira cena de A grande viagem, romance do espanhol Jorge Semprun sobre o holocausto nazista.

Nela é narrado o episódio da chegada de um trem de prisioneiros à cidade da região da Renânia. Ao ver um menino atirar uma pedra na direção das pessoas amontoadas no vagão, o protagonista se lamenta por aquele fato ocorrer justamente em Trier. Perguntas são feitas por uma pessoa próxima sobre o motivo de ele estar tão chocado. Um amigo de infância é daqui, responde.

Na realidade, o romancista fazia ali uma referência àquele que tanto o influenciou em sua vida política e intelectual, o filho mais ilustre e polêmico da cidade. Trier é um município alemão singular. Sendo o mais antigo do país, tem uma origem romana ainda presente em muitos prédios históricos.

Além disso, possui uma influência francesa, fruto da ocupação no apogeu napoleônico. Essa trajetória histórica cria um universo próprio no qual os ideais iluministas burgueses terão profundo impacto sobre a organização daquela sociedade.

Apesar dos anos de liberdade civil, de imprensa e de tolerância religiosa, em 1815 há a reincorporarão da região à Prússia imperial, pelo Congresso de Viena. Com a Renânia sob domínio do governo prussiano, os judeus voltaram a ser considerados cidadãos de segunda classe, não podendo mais ocupar cargos públicos ou exercer profissões liberais.

Porta Nigra, antigo portão romano
Porta Nigra, antigo portão romano

 

Casa onde Karl Marx nasceu em Trier
Casa onde Karl Marx nasceu em Trier

A casa onde Marx nasceu

É nesse contexto de supressão dos avanços conquistados que, três anos depois, no dia 5 de maio, num quarto do segundo andar da casa nº 664 da Brückengasse (atual nº 10 da Brückenstrasse), nasce Karl Marx.

O personagem que terá peso marcante na história do pensamento e da política globais vem ao mundo numa edificação em estilo barroco do início do século 18, alugada pelo pai para acomodar a família e servir de escritório de advocacia.

Hirschel Marx, dono de dois pequenos vinhedos no vale do Mosel e membro de uma classe média instruída, converte-se ao luteranismo para não se submeter às limitações impostas aos judeus e renasce como Heinrich Marx.

O trabalho como advogado prospera e pouco mais de um ano depois Heinrich se muda com a família para uma residência própria onde hoje é o nº 8 da Simeonstrasse, perto do antigo portão romano, Porta Nigra.

O judaísmo é um fator importante na história da família de Karl. Em ambos os lados, materno e paterno, alguns dos rabinos mais importantes da Europa estão entre seus antepassados. Em Trier, há líderes religiosos da linhagem desde 1693.

Marx
Casa na Simeonstrasse, n°8

O sobrenome Marx veio de seu avô, Meyer Halevi, que em Trier era conhecido como Marx Levi. Quando se tornou o rabino da cidade, incorporou-o ao nome.

Infância de Marx

Pouco se sabe da infância de Karl Marx. Quando pequeno, foi educado pelo pai e depois por Ludwig von Westphalen, seu futuro sogro.

Sob orientação de Ludwig, desenvolveu paixão pela literatura, especialmente por Shakespeare e pelos românticos alemães, como Schiller e Goethe. Os dois passavam horas discutindo filosofia em meio a florestas de pinheiros às margens do rio Mosel. Com doze anos frequenta a escola estatal Friedrich Wilhelm Gymnasium (localizada na Olewiger Strasse, nº2).

Durante o período escolar, Karl presencia a interferência direta do Estado prussiano sobre os conteúdos que eram ensinados. A filosofia francesa e seus ideais políticos são proibidos e substituídos pela filosofia alemã oficial, de caráter conservador. Oficiais prussianos passam a espionar docentes e estudantes. Um aluno é preso e o diretor da escola, demitido.

Placa na escola que identifica o período em que Marx lá estudou
Placa na escola que identifica o período em que Marx lá estudou

Com dezessete anos, antes de deixar Trier e ingressar na universidade, Karl faz um ensaio para o exame de Abitur intitulado “Considerações de um jovem para a escolha de uma profissão”.

O texto traz, entre outras, duas ideias interessantes: a de que a melhor profissão é aquela que proporciona ao homem a oportunidade de trabalhar pela felicidade do maior número de pessoas; e a de que há sempre obstáculos e dificuldades que fazem com que a vida se desenvolva sem que as pessoas tenham condições de determiná-la.

Na escola Karl cultivou grande amizade com Edgar von Westphalen, colega de classe e futuro cunhado. Foi da proximidade com o irmão e do relacionamento com o pai, Ludwig, que Jenny von Westphalen se encantou com aquele rapaz cabeludo, rebelde e incrivelmente inteligente.

Dos encontros entre Jenny e Marx nasceu uma grande paixão que perdurou com a mesma vitalidade, ainda que em contextos extremamente difíceis, até os últimos dias. Jenny von Westphalen era a moça mais cobiçada da cidade.

A ela os habitantes se referiam como “a menina mais bonita de Trier” ou de “a rainha do baile”. Nenhuma outra combinava tamanha beleza com presença de espírito e intelecto tão vibrantes. Além disso, Jenny pertencia a uma das famílias mais influentes da aristocracia local.

Tinha paixão pelo romantismo alemão. Sob a tutela do pai, realizava estudos sobre filosofia alemã e francesa. Também era corajosa: violou o protocolo social da época ao desfazer um noivado com um jovem tenente.

O casamento de Marx com Jenny

Em 1836 Jenny concorda secretamente em se casar com Karl. Nesse momento Marx tenta a vida universitária em Berlim, depois de um início sem tanto êxito em Bonn. E é na capital prussiana que o jovem de Trier entrará em contato com ideias que moverão seus pensamentos e ações por toda a vida.

Karl Marx e Jenny von Westphalen
Karl Marx e Jenny von Westphalen

Até 1843, ano em que se casou, Marx visitou a cidade natal principalmente para se encontrar com sua amada. Nessa época, conheceu intelectuais como Bruno Bauer, Ludwig Feuerbach e Max Stirner (da fase de Berlim), e editores de jornais como Arnold Ruge e Moses Hess (da fase de Colônia).

Marx voltaria a Trier somente em 1861 e no ano seguinte em decorrência das complicações de saúde e da morte de sua mãe, Henriette Pressburg.

Lá, Marx inicia sua jornada de lutas políticas e de estudos filosóficos e econômicos que o levam a questionar com profundidade o âmago do status quo do mundo de seu tempo. Pelo caminho somam-se inimigos, expulsões de países, turbulências políticas e carências de recursos.

Mesmo em tais contextos, Marx continua escrevendo incansavelmente e erige uma vasta obra inquietante e crítica. Como disse o escritor irlandês George Bernard Shaw, que foi amigo de uma das filhas do filósofo alemão: “Ele realizou a maior proeza literária que um homem pode almejar. Marx mudou a consciência do mundo”.

Museu Karl-Marx-Haus

Trier tem em Marx um atrativo que é lembrado para promovê-la. No ônibus da empresa City Sightseeing, linha turística que percorre a cidade, a imagem do senhor barbudo tem grande destaque, sendo até maior que o principal destino, Porta Nigra.

No entanto, verifica-se com facilidade que parte significativa das pessoas que visita o município está lá por outros motivos, em nada vinculados ao filósofo alemão. A cidade é o ponto final da rota que percorre o Vale do Mosel e combina história, cultura e gastronomia.

Rosto de Marx estampado em ônibus de turismo de Trier
Ilustração de Marx estampado em ônibus de turismo de Trier

Apesar de ser uma grande construção, a casa onde Marx nasceu pode passar despercebida para a maioria das pessoas. Enquanto você fica parado para tirar fotos, é possível notar a surpresa de transeuntes/turistas ao descobrirem que ali nasceu Karl Marx.

A história da casa de Marx

Quando a bandeira indicativa do ponto turístico não está hasteada, é preciso muita atenção para encontrá-la. Use um mapa ou um aplicativo de celular para ter uma noção de onde fica. A casa nº 10 da atual Brückenstrasse foi modificada e estendida de acordo com as intenções de seus diversos donos.

Um inventário de 1860, décadas depois do nascimento de Marx, a descreve como tendo dois pavimentos e um jardim, nos fundos. Em 1875 um incêndio destruiu o telhado e em seu lugar construíram mais um andar. No início do século 20, ela passa a ser dividida para o uso de vários inquilinos e é instalada uma loja de comércio no piso térreo.

Detalhe da placa na frente da casa em que Marx nasceu
Detalhe da placa na frente da casa em que Marx nasceu

A relação da casa com Karl Marx permaneceu esquecida até que, em 1904, um artista gráfico encontrou em um jornal de abril de 1818 o anúncio da mudança de Heinrich Marx para o local.

A partir de então, foram várias as tentativas de comprar o imóvel, que só se concretizaria em 1928. O SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha) venceu o Partido Comunista Alemão (KPD) nessa disputa.

Com isso ficou decidido que depois do trabalho de restauro da casa o espaço seria destinado a ser um monumento à vida e obra de Marx e à história do movimento operário. A ascensão nazista fez com que o local se tornasse palco de intensas lutas e embates políticos.

O corpo de um jornalista e político social-democrata, assassinado por milícias nazistas, foi deixado em frente ao prédio. A Frente de Ferro (Eiserne Front), organização paramilitar anti-nazista, numa demonstração de ousadia, ocupou o imóvel para protegê-lo.

No início de 1933, cerca de cem soldados da SA e da SS invadiram a casa, retiraram a bandeira do grupo de esquerda e a queimaram na rua. Confiscado pelo governo, o espaço foi usado até o final da Segunda Guerra como residência de um líder distrital e sede de um dos jornais do partido nazista.

Todo o material adquirido antes de 1933 para constituir o museu foi destruído. Com ajuda internacional de organizações de esquerda, a casa retornou às mãos dos social-democratas, que a reabriram como monumento a Karl Marx, em 1947.

Painel que retrata a morte de Marx, exposto na casa-museu
Painel que retrata a morte de Marx, exposto na casa-museu

Em 1968 o SPD confiou os cuidados do memorial à fundação Friedrich Ebert. Pouco mais de dez anos depois foram construídos um centro de estudos e uma biblioteca especializada. Nessa época, o prédio ganhou o aspecto de museu que tem hoje em dia, apesar de a organização das exposições e de seus temas terem sido montados ao longo dos anos.

Exposição atual

A exibição atual é parte de uma concepção nova e que é vista desde 2005. A exposição tem dois eixos principais: a vida e obra de Karl Marx e a sua influência sobre os movimentos dos trabalhadores em nível global. São salas e mais salas, nos três pisos, repletas de painéis com fotos e textos.

Há também livros do autor publicados em outras línguas, alguns objetos pessoais (como um relógio) e manuscritos com a caligrafia de Marx (parecem originais, mas são cópias).

A casa museu reúne diversos objetos pessoais de Marc, como manuscritos com sua caligafria
A casa museu reúne diversos objetos pessoais de Marc, como manuscritos com sua caligafria

Os cômodos que estão dedicados a contar a vida e a obra de Marx são conduzidos por uma linha do tempo que estabelece momentos-chave na vida do filósofo alemão: a juventude, os tempos de jornalista político e de filósofo, a revolução de 1848, a vida no exílio, a economia política como tema de sua vida e a relação do autor com o movimento operário.

A partir daí, inicia-se um trecho da exposição que trata de Friedrich Engels e do início do marxismo. Depois se encontram salas com temas mais históricos e atuais, como a cisão do movimento operário e a divisão da Europa.

Por fim, num grande espaço, há um mapa-múndi que retrata o modo como as ideias de Marx foram se espalhando pelo mundo. Há também um belo jardim nos fundos.

Não dá para saber se toda a área já fazia parte da casa ou se foi formada para criar um espaço externo para caminhar e apreciar as plantas. Em meio à paisagem bucólica, existem estátuas de Marx com tamanhos e tipos variados. O mais estranho, ou incrivelmente chocante, é que a maioria delas está à venda. Essa situação se repete também em outros ambientes do museu.

Ao final da exibição, próximo à porta de entrada, o visitante passa por uma pequena loja com souvenires para todos os bolsos e gostos. São bonecos, canecas, bustos, camisetas, bonés e até garrafas de vinho.

É difícil presenciar esse ambiente abusivamente mercadológico e não estranhar sua localização e seu objeto de venda. Apesar de a maioria das grandes galerias e dos espaços de cultura ter espaços dedicados ao consumo de lembrancinhas, ver que até na casa onde Karl Marx nasceu tal prática é disseminada e explícita é prova de como a experiência de visitar um museu está cada vez mais empobrecida, homogênea e programada.

Loja de souvenires do museu
Loja de souvenirs do museu

 

Estátua de Marx à venda no museu
Estátua de Marx à venda no museu

A exposição, a despeito desses detalhes, é bem organizada e atraente, principalmente em termos das imagens e da disposição visual. Talvez por ser fruto de um grupo partidário, o museu dê muita ênfase aos aspectos políticos que envolvem a vida e a obra de Marx, em especial, sobre partidos comunistas e socialistas mundo afora.

Não há o mesmo cuidado com relação à trajetória acadêmica do autor e sua influência sobre a filosofia, a sociologia, a estética e a política do século 20. Infelizmente, os painéis estão em alemão. Se você não tiver familiaridade com a língua de Goethe, é indispensável adquirir um audioguia.

Com ele é possível acompanhar a explicação de cada sala, digitando o número correspondente. Está disponível em alguns idiomas, mas não em português.

SERVIÇO

A fundação que dirige o museu tem incluído nos últimos anos aparelhos mais interativos de multimídia. Para visitação, além dos audioguias há livretos em alguns idiomas (ainda não há nada em português). São adquiridos gratuitamente na recepção.

  • Entrada: adultos, 4 euros; estudantes, 2,5 euros
  • De abril a outubro, de segunda a domingo, das 10h às 18h (última entrada às 17:30h). De novembro a março, de terça a domingo, das 11h às 17h; na segunda, das 14h às 17h
  • https://www.fes.de/marx/index_gr.html
  • E-mail: info.trier@fes.de


PARA LER

  • Manuscritos econômico-filosóficos, Karl Marx
  • A ideologia alemã, Karl Marx e Friedrich Engels
  • Manifesto comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
  • O Capital, Karl Marx