por Leonardo de Lucas

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A primeira grande perda que Hitler causou à literatura alemã. Foi assim que Bertolt Brecht se referiu à trágica morte de Walter Benjamin em Portbou, na Espanha.

Como forma de relembrar essa história e de contextualizá-la às novas gerações, a rota de fuga utilizada pelo filósofo alemão de origem judaica entre os Pirineus, assim como os pontos por onde passou na cidade catalã, tornaram-se espaços de memória e de reflexão sobre a guerra e sobre o drama dos refugiados.

Desde o início da ascensão nazista, Benjamin se vê impossibilitado de continuar na Alemanha. Exila-se em Paris, onde permanece por muitos anos. Nesse período, como outros judeus, perde a cidadania alemã. Sai da capital francesa um dia antes da Wehrmacht ocupá-la, em junho de 1940.

Poucos dias depois, um armistício é assinado e o governo constituído se compromete a devolver todos os alemães de origem judia às tropas germânicas. O destino: campos de concentração e, provavelmente, a morte.

O ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo Walter Benjamin
O ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo Walter Benjamin

Desesperado, o filósofo estabelece contatos e procura, dentre as possibilidades de que dispõe, um modo de sair do país. Com a atuação de intelectuais exilados do outro lado do Atlântico, consegue o visto para entrar nos Estados Unidos.

Além disso, também recebe permissões de trânsito entre Espanha e Portugal. O único problema é que não tinha autorização para sair da França. Teria de fazer a travessia de modo ilegal.

Na madrugada do dia 25 de setembro, Benjamin, debilitado e com problemas cardíacos, atravessa a cadeia de montanhas que separa a França da Espanha. Faz o trajeto com um grupo de refugiados na mesma situação que ele.

Já em Portbou, na Catalunha, uma nova legislação/restrição o impede de seguir viagem. A polícia comunica que o grupo seria recambiado para o outro lado dos Pirineus. A possibilidade de ser enviado aos campos de concentração aterroriza o filósofo judeu.

Os militares franquistas lhe concedem uma noite de descanso, antes de enviá-lo de volta. No hotel em que estava hospedado, Benjamin ingere tabletes de morfina que trazia consigo e vem a óbito no dia seguinte.

Por essa e outras rotas que passavam pelos Pirineus, milhares de judeus fizeram a travessia. Entre eles, um número significativo de intelectuais. Fundamental nesse processo foi a atuação do jornalista americano Varian Fry.

Por meio das redes de contato por ele estabelecidas, nomes como os de Hannah Arendt, André Breton, Marc Chagall, Marcel Duchamp, Max Ernst, Siegfried Kracauer, Heinrich Mann e Claude Lévi-Strauss se salvaram. Benjamin não teve o mesmo destino, ficou pelo meio do caminho.

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Walter Benjamin foi um pensador singular, um raro caso de combinações ecléticas e de abrangência intelectual inigualável. Teve relação muito próxima com a teoria literária e com as tendências estéticas de seu tempo: tradutor de Proust, analista da poesia de Baudelaire, especialista em Goethe, admirador de Kafka, crítico de arte, teórico de cinema e entusiasta do surrealismo.

Na juventude, dedicou-se à redescoberta e à reinterpretação da cabala. Estudou sobre moda, colecionou livros infantis, escreveu sobre brinquedos, fez experiências com haxixe, dedicou-se a grafologia, e investigou a propaganda e os meios de comunicação de massa e mais uma dúzia de temas distintos.

Sobre a ROta Walter Benjamin

Há dois trajetos que percorrem os últimos passos de Benjamin: um que trata da travessia dos Pirineus e outro dos pontos pelos quais passou na cidade de Portbou.

A rota transfronteiriça vai de Banyuls, na França, até Portbou, na Catalunha. Ela corresponde a 95% do trajeto original que o filósofo alemão usou em sua fuga. Desde 2009, a rota é equipada e sinalizada em sua totalidade.

Há painéis com imagens de refugiados passando pelo local e detalhes sobre como foi o percurso de Benjamin. São 7 km de trilha pelas montanhas. Esses caminhos também foram muito utilizados por combatentes na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Placas pela Ruta Walter Benjamin
Placas pela Ruta Walter Benjamin

Pelo caminho há alguns mirantes com belas paisagens do litoral, das montanhas e das pequenas cidades fronteiriças. O que se sabe sobre a travessia de Benjamin nos Pirineus se deve principalmente ao livro de memórias escrito por Lisa Fittko, sua guia.

Sabe-se que o filósofo levava consigo uma maleta repleta de manuscritos, o que se acredita ser a última versão de sua grande obra inacabada, Passagens. Infelizmente, essa pesada valise nunca foi encontrada.

A rota urbana, por sua vez, percorre as últimas horas de Benjamin em Portbou. Ela passa pela Estação Ferroviária Internacional, onde o escritor foi apresentado às autoridades; pelo prédio onde ficava o Hotel de Francia, local de sua morte; e pelo cemitério da cidade, lugar em que se encontram a sua sepultura e o memorial em sua homenagem.

A cidade foi construída para ser ponto estratégico e local de parada da linha de trem inaugurada em 1872. Na época em que Benjamin passou por lá, o povoado ainda estava sob o impacto do fim dos conflitos entre republicanos e nacionalistas.

A população tinha sido drasticamente reduzida. Ainda assim, o município era o único que tinha conexões com redes de trens internacionais, como a linha Marselha-Portbou-Madri, e era porta de entrada para muitos refugiados.

A Estação Ferroviária
A Estação Ferroviária

A Estação Ferroviária é facilmente reconhecida pela sua bela estrutura de ferro. Lembra essas estações cenográficas que aparecem em filmes. Lá estão painéis e sinalizações sobre a curta passagem de Walter Benjamin pelo local. Aliás, toda a cidade tem esse cuidado e parece respirar o espírito do grande pensador.

Hoje o departamento de informação turística local tem folders com a história do filósofo judeu e com os lugares por onde passou (além de livros que abordam o tema). De uns anos para cá, a cidade tem recebido cada vez mais pessoas interessadas em saber sobre o destino trágico de Benjamin.

Depois de passar pela estação, onde foi detido, o filósofo foi escoltado por dois guardas até o Hotel de Francia. Devido ao desgaste físico e à precária condição de saúde, as autoridades o deixaram descansar para que no outro dia fosse enviado de volta para a França de Vichy (região não ocupada, mas que era alinhada aos interesses de Hitler).

Visão antiga do hotel (prédio vermelho)
Visão antiga do Hotel de Francia (prédio vermelho)

O edifício desse pequeno hotel não existe mais. Em seu lugar há hoje um terreno abandonado, fruto da onda recente de especulação imobiliária que varreu o país.

O que aconteceu na antiga pousada ainda não está totalmente esclarecido. Ao longo dos anos, várias teorias foram surgindo para desmentir a tese do suicídio. Há um documentário, chamado Quién mató a Walter Benjamin, que provoca o questionamento da versão oficial.

Outros apontamentos falam em morte acidental por conta da fadiga provocada pela travessia dos Pirineus e em assassinato provocado por militares franquistas, por ação da Gestapo ou até por agentes da polícia secreta de Stalin.

Cada uma dessas perspectivas encontra algum respaldo, mas nenhuma ainda conseguiu se contrapor à ideia consolidada e estabelecida, que é a do suicídio provocado pela ingestão de tabletes de morfina.

No topo de Portbou, encontra-se o cemitério da cidade. Lá também está situado o memorial dedicado ao filósofo. Passagens é o nome da criação do artista israelense Dani Karavan feita para marcar o 50º aniversário da sua morte. Financiado pelos governos da Catalunha e da Alemanha, foi inaugurado em 15 de Maio de 1994.

O título escolhido por Karavan, Passagens, refere-se não só à passagem decisiva de Benjamin para a Portbou, mas também à sua grande obra inacabada, Das Passagen-Werk, na qual o filósofo trabalhava há mais de dez anos.

Na criação de seu memorial, Karavan adotou uma abordagem semelhante à do próprio Benjamin, que liga os traços de dor do passado, da memória e do exílio, com a possibilidade de um futuro novo e melhor. O memorial também incorpora uma série de reflexões características do pensador sobre a história, a possibilidade e a necessidade da experiência, a noção de aura, de progresso e de imagem dialética, e a memória.

No cemitério, apesar de haver um túmulo com a inscrição do nome do filósofo, seu corpo não está enterrado ali. Quando Benjamin morreu, a mulher que viajava com ele, a fotógrafa Henny Gurland, comprou um jazigo com validade para cinco anos. Quando venceu esse prazo, seus restos mortais foram jogados numa vala comum. Posteriormente, a prefeitura de Portbou construiu uma sepultura simbólica em sua homenagem.

Monumento Passagens, próximo ao cemitério
Monumento Passagens, próximo ao cemitério
Placa deixada em sepultura simbólica feita para Walter Benjamin
Placa deixada em sepultura simbólica feita para Walter Benjamin

Na placa, fixada na grande pedra, há um trecho de uma de suas teses, seu último texto, escrito no início de 1940, Sobre o conceito de história: Es ist niemals ein Dokument der Kultur, ohne zugleich ein solches der Barbarei zu sein (Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie). Uma cópia do ensaio foi confiada a Hannah Arendt, que, depois de ter entrado nos Estados Unidos, entregou-o a Theodor W. Adorno.

No ano passado, 75 anos após a morte de Benjamin, um evento homenageou o legado do filósofo e sua atualidade frente ao drama dos refugiados na Europa. Na ocasião, foi apresentado o projeto de se construir um espaço dedicado à obra do filósofo na cidade de Portbou.

No cemitério, foi inaugurada uma inscrição. Estiveram presentes o cineasta alemão Wim Wenders, o artista israelense Dani Karavan e a neta do filósofo, Chantal Benjamin.

Trata-se de uma versão da última mensagem escrita por Walter Benjamin. Acredita-se que o filósofo a teria deixado com a fotógrafa Henny Gurland, sua companheira de fuga. A carta original foi destruída pela acompanhante como medida de segurança.

Assim que Gurland alcançou solo seguro, possivelmente Lisboa, o texto, guardado na memória, foi repassado por correspondência. Essas últimas palavras jazem agora próximas ao seu túmulo simbólico:

“Numa situação sem saída, não tenho outra escolha senão pôr fim a tudo. É num vilarejo nos Pirineus onde ninguém me conhece que minha vida vai se acabar. Peço-lhe que transmita meus pensamentos ao meu amigo Adorno e lhe explique a situação em que me vi colocado. Não me resta muito tempo para escrever todas aquelas cartas que eu desejara”.


 


PARA LER (E VER)
    • Passagens, Walter Benjamin
    • Sobre o conceito de história, Walter Benjamin
    • Correspondência 1928-1940, Theodor W. Adorno e Walter Benjamin
    • Escape through the Pyrenees, Lisa Fittko
  • Quién mató a Walter Benjamin, David Mauas (documentário)