por Maria Fernanda Moraes

Fachada do brownstone (foto: NYT)
Fachada do brownstone (foto: NYT)

Maya Angelou lutou pelos direitos civis ao lado de Martin Luther King e Malcolm X na década de 1960, nos Estados Unidos. Lutou também pela independência feminina. Nasceu em Saint Louis, no Missouri, em 1928, com o nome de Marguerite Ann Johnson, e adotou o nome artístico de Maya Angelou.

Cresceu no sul segregado, foi vítima de abusos sexuais aos oito anos, se tornou mãe aos 16, e chegou a se prostituir antes de começar na carreira de cantora, atriz e, alguns anos depois, escritora.

31EXCLUSIVE-MAYA-ANGELOU-slide-44DW-superJumboAinda jovem, viajou por diversos países com uma trupe de teatro. Fixou residência em Winston-Salem, Carolina do Norte, onde foi professora de Estudos Americanos na Wake Forest University a partir de 1982.

Ficou conhecida do grande público quando foi convidada a ler poemas em duas tomadas de posse presidenciais – em 1993, com Bill Clinton, e de novo em 2009, com Barack Obama.

Foi uma das escritoras negras mais lidas nos Estados Unidos. Entre as suas obras mais conhecidas estão I Know Why the Caged Bird Sings, de 1969 (não publicado no Brasil), e Carta à minha filha: um legado inspirador para todas as mulheres que amam, sofrem e lutam pela vida – dedicado à filha que nunca tive, de 2008 (Ed. Nova Fronteira).

Angelou posa em sua casa em 2007 (foto: NYT)
Angelou posa em sua casa em 2007 (foto: NYT)

Apesar da casa na Carolina do Norte, ela era uma mulher do mundo e mantinha ligações muito fortes com Nova York.

Foi lá que na década de 1960 juntou-se à Harlem Writers Guild, conhecendo, pouco depois, Martin Luther King e se tornando uma das organizadoras do “Cabaret for Freedom”, movimento que angariou fundos cruciais para a Southern Leadership Conference, a organização presidida por Luther King para a luta pelos direitos civis dos negros.

Nessa mesma época, apoiava a luta pelo fim do apartheid na África do Sul. Foi quando conheceu o ativista Vuzumi Make, com quem se mudou por um período para o Egito.

Pouco depois, passou por Gana, onde conheceria e se tornaria próxima de Malcolm X, se integrando ao movimento negro em seu regresso aos Estados Unidos, em 1965.

Vista da colorida sala de estar (foto: NYT)
Vista da colorida sala de estar (foto: NYT)

Sua primeira casa na cidade de Nova York era um modesto apartamento no Brooklyn, e ao longo dos anos, ela também viveu no Central Park West e Riverside Drive.

Fachada da vizinhança com os brownstones (foto: NYT)
Fachada da vizinhança com os brownstones (foto: NYT)

 

Em 2002, comprou uma casa no Harlem, um típico brownstone (construção comum na cidade, feita com arenito, de aparência marrom), que passou por uma grande reforma, possibilitando a mudança da escritora somente em 2004.

Ela dizia que era seu refúgio, onde reunia os amigos e dava grandes festas.

Angelou adorava cozinhar e reunir seus afetos na cozinha da casa.

 

 

 

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A cozinha, um de seus lugares preferidos para receber os amigos (foto: NYT)

Construído em 1881, o imóvel está localizado em Mount Morris Park, um distrito histórico do bairro, que passou por um movimento de revitalização de suas construções para preservação da história e memória locais.

O distrito engloba 16 quarteirões entre as ruas 118 e 124. A casa de Angelou fica na rua 118, em frente ao Marcus Garvey Park e a 10 quadras do Central Park.

 

(foto: NYT)
(foto: NYT)

Apesar da reforma do imóvel – que estava em péssimas condições e havia sofrido com o vandalismo -, a escritora manteve as características originais.

Pé direito alto, porta de carvalho ornamentada, quatro quartos, a grande escadaria esculpida que desce à sala de jantar.

Na decoração, incluiu itens que personificam a dona da casa: móveis coloridos para a sala de estar, muitas estantes de livros e obras de arte de Phoebe Beasley, muitas delas trazidas de Gana, do tempo em que morou lá.

Hall de entrada preservado (foto:NYT)
Hall de entrada preservado (foto:NYT)

A época em que Angelou se mudou para o Harlem foi marcada pelo renascimento do bairro. Os brownstones estavam abandonados e eram vendidos a preços bem abaixo do mercado. Junto com ela, muitos artistas também povoaram a vizinhança e contribuíram para a revitalização da comunidade.

Detalhe da decoração (foto: NYT)
Detalhe da decoração (foto: NYT)

Também fica nas redondezas do Harlem um dos restaurantes preferidos de Maya, o Sylvia’s Harlem Restaurant, fundado em 1962 e famoso pelo “soulfood“. Outro ponto de referência do bairro é o Apollo Theatre, uma das salas de música mais conhecidas dos Estados Unidos, reduto de grandes artistas negros e local histórico onde muitos cantores iniciaram suas carreiras.

Ela própria já se apresentou no teatro quando chegou em Nova York e estava à procura de emprego para sustentar o filho pequeno. Na ocasião da morte da escritora, o teatro prestou suas condolências.

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Obra

Maya escreveu desde obras dramatúrgicas até prosa e poesia e foi a primeira memorialista negra de grande divulgação nos Estados Unidos com o primeiro tomo da sua autobiografia em sete volumes.

I Know Why the Caged Bird Sings, o primeiro volume, foi publicado em 1969 e conta a história da sua vida da infância até o momento em que foi mãe, escondendo a gravidez da família até ao oitavo mês para poder continuar a estudar.

Se crescer é doloroso para a rapariga negra do sul, estar consciente do seu deslocamento é a ferrugem na lâmina que ameaça a garganta. É um insulto desnecessário”

On the Pulse of the Morning, o poema que leu em 1993 na tomada de posse de Bill Clinton, tornou-se num bestseller, celebrando a diversidade étnica nos Estados Unidos.

Phenomenal woman também é um de seus poemas mais famosos. Em 2011 Barack Obama entregou-lhe a maior distinção civil norte-americana, a Presidential Medal of Freedom.

Eu adoro ver uma garota sair e conquistar o mundo pelas lapelas. A vida é escrota. Você tem que encarar e quebrar tudo.”

Fãs fizeram homenagens em frente à casa na ocasião de sua morte (foto: NYT)
Fãs fizeram homenagens em frente à casa na ocasião de sua morte (foto: NYT)

Angelou morreu aos 86 anos, em maio de 2014. Após sua morte, a casa foi alugada durante alguns anos e, posteriormente, os familiares da escritora decidiram colocá-la à venda.

PARA LER:

  • I Know Why the Caged Bird Sings, Maya Angelou. Editora Penguin Readers
    São suas memórias publicadas em 7 volumes
  • Carta à minha filha, Maya Angelou. Editora Nova Fronteira
    Livro em forma de carta dedicado a todas as mulheres do mundo, filhas que ela adotou independentemente da cor, do credo, da nacionalidade, da orientação sexual ou da educação que receberam.

*Com informações do New York Times