por Maria Fernanda Moraes

Karen_Blixen


Ela ficou conhecida como Isak Dinesen, o pseudônimo de seu livro mais famoso, A Fazenda Africana (editora Cosac Naify, parte da coleção Mulheres Modernistas) e que assinou tantos outros publicados .

Alguns podem se lembrar dessa obra pela adaptação para o cinema no filme Entre Dois Amores, (em inglês, “Out of Africa”), estrelado por Meryl Streep e Robert Redford.

Karen ou Isak, não importa. O fato é que essa escritora dinamarquesa teve uma vida incrível, dolorosa e ainda conseguiu contar suas memórias antes de partir. Essa história começa quando Karen se casa com um primo abastado, em 1914, o barão sueco Bror von Blixen-Finecke.

Eles se mudam da Dinamarca para o Quênia (que na época ainda era conhecido como Protetorado da África Oriental), onde compram terras e iniciam uma plantação de café.

O casamento, porém, não vai bem. Bror era infiel e passava longos períodos afastado de casa, em safáris e campanhas militares.

A escritora chega a contrair sífilis, provavelmente do próprio marido, embora alguns estudiosos acreditem que ela tenha herdado a doença do pai. O casamento dura até 1921 e em 1925 sai o divórcio definitivo.

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Fachada do museu (foto: museu)

Com a separação, o ex-marido vai embora e Karen assume as responsabilidades da fazenda, que fica nos arredores de Nairobi. Passa a viver sozinha na casa principal e se vê tomando decisões que nunca imaginaria fazerem parte de sua vida.

Toca sozinha a plantação e desenvolve atividades comunitárias com as tribos próximas de Nairobi. Ela acabou se tornando uma espécie de heroína para os quenianos.

I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills’.

Passado algum tempo, Karen se apaixona por Denys Finch Hatton, um piloto do exército britânico e caçador. Viveram juntos de 1926 a 1931, uma história de amor intensa e cheia de altos e baixos.

Ela engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês, provavelmente em consequência da saúde frágil. A relação terminou com a morte de Finch Hatton num acidente de avião, em 1931. Ao mesmo tempo, o fracasso da plantação de café forçou-a a abandonar suas terras e retornar à Dinamarca.

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O acervo de livros preservado no museu (foto: museu)

O livro é escrito posteriormente, quando ela regressa à Dinamarca, e publicado em 1937. Nele, ela conta sobre suas experiências com os animais (chegou a matar leões e encarar vários outros bichos), da convivência com os nativos e o aprendizado que teve com a cultura dele, e ressalta  as recusas em assumir seu papel dominante no mundo colonial.

A fazenda africana também é citada num livro do Hemingway, Paris é uma festa. Dizem que o escritor norte americano chega a conversar certa vez com o irmão de Karen e compartilha sua admiração pela obra dela e pelo seu modo de narrar.

 

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A sala de estar também mantém a mobília da época da escritora (foto: museu)

A escritora foi duas vezes nomeada ao Prêmio Nobel da Literatura e morreu na Dinamarca, aos 77 anos. Sua biógrafa, Linda Donelson, escreveu:

Todas as noites antes de ir para a cama, ela abria a porta ao sul de sua casa e olhava para a África”.

Blixen também descreve um pouco de sua experiência:

Eu tive tão infinitamente muito do que foi maravilhoso. Eu olhei nos olhos de leões e dormi sob o Cruzeiro do Sul. Vi a grama nas grandes planícies em chamas e também cobertas de verde após as chuvas. Fui amiga dos povos Somali, Kikuyu e Masai. Eu voei sobre as colinas de Ngong.”

A sua biógrafa ainda conta que no Quênia, Blixen acordava cada manhã pensando: “Estou aqui, exatamente onde eu deveria estar.”

MUSEU KAREN BLIXEN

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Vista da casa para o jardim (foto: museu)

Hoje, a casa da fazenda se transformou no Museu Karen Blixen. Em 1964, o governo da Dinamarca comprou a propriedade e a deu de presente ao governo do Quênia, em comemoração à sua independência.

Alguns móveis da época da escritora haviam sido vendidos por ela para quitar as dívidas da fazenda e não estavam mais na casa. Entretanto, foram recuperados, doados novamente e hoje estão expostos no museu.

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Mesa de jantar em exposição no museu (foto: museu)

O filme autobiográfico sobre Karen começou a ser gravado em 1985 e, com isso, chamou a atenção para a casa, que até então não era ainda um museu. Foi só no ano seguinte, em 1986, que o museu abriu suas portas ao público.

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A decoração tinha características locais (foto: museu)

Na visita à fazenda, há um guia que vai contando sobre a vida da escritora aos visitantes, o que inclui também um pouco sobre a história dos nativos que conviviam com ela naquele período. Pode-se ver o mobiliário e roupas de época, além de fotos das aventuras de Karen no Quênia.

A guia durante uma visita ao museu (foto: blog As her world turns)
A guia durante uma visita ao museu (foto: blog As her world turns)

Na área externa da casa ainda estão lá os equipamentos para a torrefação do café implantados na fazenda. A plantação morreu nos anos 1930, mas há ainda alguns pés de café que restaram pelo jardim.

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SERVIÇO

Museu Karen Blixen

– Endereço: Karen Road, Nairobi, Quênia
– Horário de funcionamento: diariamente das 9h30 às 18h (última entrada às 17h30)
– Ingresso: KSh1200 (adultos) e KSh600 (crianças) [na moeda queniana, 1 KSH equivale a R$ 0,036]

– Como chegar: o modo mais fácil é via transporte público, pela Kennyata Ave, que passa à direita da entrada do museu. De táxi, a corrida do centro da cidade até o museu deve ficar entre KSh1500 and KSh2000
– site: www.museums.or.ke

PARA LER:

  • A fazenda africana, Karen Blixen. Editora Cosac Naify, de 1937.
  • Sete Narrativas Góticas, Karen Blixen. Editora Cosac Naify. Reunião de contos que se passam no início do século 19. Foi publicado em 1934.
  • Anedotas do Destino, Karen Blixen. Editora Cosac Naify. Foi publicado em 1958 e tem o conto “Festa de Babete” que ficou conhecido por conta do filme de mesmo nome lançado em 1987.