por Leonardo de Lucas

O escritor Mário Alves Coutinho (Foto: Yuri Alexei)
O escritor Mário Alves Coutinho (Foto: Yuri Alexei)

Na trajetória intelectual do mineiro Mário Alves Coutinho, cinema e literatura têm uma conexão ímpar e um diálogo ricamente elaborado. Além de roteirista e crítico de cinema, Mário também é tradutor e ensaísta. Na sétima arte, Jean-Luc Godard ocupa um lugar especial em sua obra, sendo sua influência maior e grande inspiração.

Com relação às análises cinematográficas, André Bazin, crítico e teórico de cinema, é uma referência importante. Já na literatura, dois poetas dividem espaço: William Blake e David Herbert Lawrence.

a_explosao_e_o_suspiro_capa2400x1661Seu trabalho é fruto de uma vasta formação acadêmica que inclui graduação em Psicologia, doutorado em Literatura Comparada e pós-doutorado em Comunicação Social.

Como tradutor, publicou Tudo que vive é sagrado (poemas de William Blake e David Herbert Lawrence), Canções da inocência e da experiência (poemas de William Blake) e O livro luminoso da vida (ensaios literários de David Herbet Lawrence).

No campo da crítica de cinema, destacam-se: Godard e a educação (organizador), Godard, cinema, literatura e sua tese de doutorado Escrever com a câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard. Também organizou o livro Presença do CEC: 50 anos de cinema em Belo Horizonte.

A mais nova obra de Mário, A explosão e o suspiro ou um corpo que cai, é também a primeira no gênero do romance. Nela, o autor se faz valer de todo o seu conhecimento de crítico de cinema e de tradutor para produzir uma meta-narrativa que se volta a si, como num filme de Godard, para questionar e debater, a todo instante, a arte de narrar.

O próprio título já é uma amostra da mescla entre literatura e cinema que Mário propõe: A explosão e o suspiro ou um corpo que cai. Trata-se de uma referência cruzada entre um poema de T. S. Eliot e um conhecido filme de Hitchcock.

Lembrando a edição e a montagem de fotogramas para a produção de uma linguagem visual, Mário usa e abusa de recortes e trechos de falas de autores conhecidos da cultura ocidental. O eixo da história se constitui por meio dessa polifonia literária que convida o leitor a ser também autor, a imaginar/inventar tal como um tradutor ao transmitir o sentido mais próximo do original daquilo que traduziu a partir de sua linguagem própria.

O livro é o primeiro lançamento da Série Outras Grafias da Editora Tipografia Musical, especializada em publicações relacionadas à música, que reúne obras sobre literatura, fotografia, artes, humanidades, entre outras.

A trama conta de maneira singular uma história de paixão que se desenvolve em pleno contexto do recrudescimento da Ditadura Militar e que brota de seu lado mais combativo e radical: da luta armada. O enredo conduz o leitor a idas e vindas no tempo e no espaço, levando-o por diferentes cenários políticos em cada um dos lugares apresentados.

Envolvente, reflexivo e surpreendente, o fio narrativo do autor, na mesma medida em que descortina dramas existenciais e recônditos traumas psicológicos, também desnuda o erotismo cru e faminto de prazer que move o relacionamento dos personagens.

Ao Roteiros Literários, ele destacou três lugares inseridos no livro e que são fundamentais para a constituição da narrativa.


Colégio Estadual Central – Belo Horizonte

Escola Estadual Governador Milton Campos (Estadual Central) projetada Oscar Niemeyer em Belo Horizonte (Foto: Emmanuel Pinheiro/Nitro)
Escola Estadual Governador Milton Campos (Estadual Central) projetada Oscar Niemeyer em Belo Horizonte (Foto: Emmanuel Pinheiro/Nitro)
O Colégio Estadual Central
O Colégio Estadual Central

Belo Horizonte é a cidade da adolescência do personagem Eduardo, em A explosão e o suspiro ou Um corpo que cai. Existe uma certa lógica que o lugar preeminente no  romance, aquele que o fascinará e o marcará para sempre, será o Colégio Estadual de Minas Gerais, ou Colégio Estadual Central, no bairro Santo Antonio, pois na década de sessenta do século passado, ele passou a ter anexos em outros bairros da cidade. E o colégio merece toda esta importância. A começar por seus prédios modernistas, cujos projetos foram assinados por ninguém menos que Oscar Niemeyer.

As salas de aula se enfileiram numa estrutura suspensa de concreto, erguida sobre pilotis, que alguns diziam se assemelhar a uma régua, outros, a um quadro negro. A cantina, segundo muitos, se pareceria com uma borracha; a caixa d’água, a um giz. Já o auditório, era bem semelhante a um mata-borrão.

Arquitetura modernista, imponente, mas leve, extremamente sugestiva para qualquer pessoa. Mas o principal nem estava aí: o ensino era de ótima qualidade, mais parecia uma universidade; aliás, sua estrutura de ensino era exatamente calcada nos melhores cursos superiores; seus diretores eram chamados, inclusive, reitores.

Uma quantidade enorme de artistas e políticos cursaram este colégio; uma relação de nomes ilustres que por lá passaram não caberiam em poucas páginas.

Livraria Leonardo da Vinci – Rio de Janeiro

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O Rio de Janeiro é a cidade do mesmo personagem, já adulto, quando ele está num grupo de guerrilha, em luta contra a ditadura militar. Lá, o ponto de vista dele é de alguém que, tendo feito um assalto a um banco, e tendo perdido contato com sua organização, passa alguns meses fechado num apartamento, com sua companheira de luta armada, Iolanda, os dois os únicos sobreviventes da operação.

Consequentemente, as belezas, as paisagens, e as praias cariocas não entram em seu ângulo de visão e interesse: o momento que estão vivendo não o permite.

Mas Eduardo e Iolanda se conheceram, anteriormente, num ponto e num lugar de extrema importância (cultural) da cidade, a Livraria Leonardo da Vinci. Transferido de São Paulo para o Rio, a organização deles decide que eles vão se encontrar nesta livraria. É lá que se conhecem, portanto.

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Ótimo lugar para isto: uma quantidade enorme de livros, em todas as línguas civilizadas, e um lugar que quase toda a intelectualidade carioca e brasileira comprava e encomendava seus livros.

Basta lembrar que quando a livraria se incendiou (a suspeita recai sobre os militares já que alguns anos antes a Livraria Civilização Brasileira, a poucos quarteirões de distância da Da Vinci, havia sido queimada comprovadamente por terroristas da ditadura), Carlos Drummond de Andrade liderou uma lista de intelectuais brasileiros que doaram uma quantia para sua dona, que transformou estas doações em créditos para a compra de livros na nova livraria.

Drummond é também o autor de um poema que é citado, em parte, no romance sobre esta belíssima livraria. O poema, ao descrever a livraria, parece falar de um ventre, um regaço acolhedor, que é exatamente o que o personagem sente falta e necessita naquele momento (clique aqui para ler o poema).

  • Av. Rio Branco, 185 (Edifício Marques do Herval) – Centro
  • contato@leonardodavinci.com.br | (21) 2533-2237

Caminho entre Bondi Beach e Coogee – Sydney

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Sydney, Austrália, é o lugar do exílio de Eduardo e Iolanda, já agora um casal. Cidade de onde se vê o mar em praticamente qualquer lugar que se esteja, dada a quantidade enorme de baias, ela é também, muito apropriadamente, uma cidade de fato maravilhosa.

Por vários anos moradores desta cidade encantadora, vivendo lá seu cotidiano, estudando e trabalhando, os personagens tem uma relação muito mais direta e aberta com suas paisagens.

Em Sydney, talvez o lugar mais importante para os personagens é uma paisagem particularmente paradisíaca (mas também algo demoníaca). Trata-se de um caminho que vai de um bairro (Bondi Beach) a outro (Coogee), e que é todo ao lado do mar (Oceano Pacífico).

Por vezes, ele está quase ao nível das várias praias que o constituem; às vezes, o caminho sobe, e temos então várias falésias e paredões pedregosos extremamente belos mas também aterradores.

bondi coogee

É neste lugar que Iolanda parece ter uma iluminação, uma epifania, talvez: “Eu era um nada, uma partícula na imensidão do tempo e do espaço… A eternidade havia sido reencontrada… O azul do mar parecia indistinto do azul do céu: em algum ponto de fuga eles se encontravam, mas não era possível fazer a separação deles, naquele lugar, naquele momento… O mar e sua claridade, pareciam misturados ao sol, que por sua vez era uma coisa só com o céu… A claridade, a luz e o fogo…A eternidade, o infinito, e o cosmos estavam diante de mim, me envolviam… Tudo era um … Inclusive eu, diante daquele espetáculo inicial… Eu era parte dele… Quem era eu? Uma ínfima partícula do todo… Mas mesmo sendo quase nada, era tudo, era parte daquele infinito…”.

Na verdade, este lugar é importante para os dois personagens, que vivem experiências extremas nele, os dois, mas em momentos diferentes e separados. É só ler A explosão e o suspiro ou um corpo que cai para descobrir…


PARA LER

  • A explosão e o suspiro ou um corpo que cai, Mário Alves Coutinho (ETM, 2015
  • Escrever com a câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard, Mário Alves Coutinho (Crisália, 2010)
  • Godard, cinema, literatura, Mário Alves Coutinho (Crisália, 2013)
  • Tudo que vive é sagrado, William Blake e D. H. Lawrence – tradução (Crisália, 2001)
  • Canções da inocência e da experiência, William Blake – tradução (Crisália, 2005)
  • O livro luminoso da vida, D. H. Lawrence – tradução (Crisália, 2010)
  • Godard e a educação, Mário Alves Coutinho – organizador (Autêntica, 2013)
  • Presença do CEC: 50 anos de cinema em Belo Horizonte, Mário Alves Coutinho – organizador (Crisália, 2001)