por Leonardo de Lucas


O ano é 1979. Um jovem de aproximadamente 18 anos faz uma viagem de trem de 12 horas pelo seu país. Em suas mãos, repousa um livro de um autor britânico, nascido na África do Sul. É a primeira vez que o rapaz se aventura a ler a obra do escritor.

Pelo caminho, algo estranho ocorre. Tanto a descrição expressa no texto, como a paisagem que encontra parecem ter uma afinidade, como se fossem partes da mesma substância. Os cenários até então familiares, por conhecê-los desde pequeno, ganham, por meio da leitura, uma nova percepção. A fantasia funde-se com a realidade, criando nesta um referencial concreto sobre sua existência.

Essa poderia ser uma história como outra qualquer, se não fosse um detalhe: o jovem em questão é Peter Jackson, o país é a Nova Zelândia e o livro é O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. Mais de vinte anos se passariam até que a experiência vivida por Jackson ao cruzar parte do país sobre trilhos se materializasse em filmes com milhões de espectadores pelo mundo.

O impacto da junção desses nomes seria sentido, principalmente, nos números que essa ousada empreitada resultou: 3 bilhões de dólares de bilheteria e 475 prêmios em festivais de cinema – incluindo 17 oscars.

Além das cifras, esse projeto deu vida audiovisual à obra de Tolkien e o fez com um cuidado e uma dedicação poucas vezes vista na história do cinema. Para chegar próximo da perfeição, Jackson juntou uma equipe de fanáticos pela trilogia e foi convencendo o país inteiro a embarcar nessa grande aventura.

Do roteiro ao figurino, passando pela trilha sonora e pelos efeitos visuais, todos os detalhes foram minuciosamente respeitados para que o filme fosse uma representação fiel do espírito imaginativo do escritor britânico.

HOOKER VALLEY FROM THE AIR, MOUNT COOK NATIONAL PARK, NEW ZEALAND
Paisagem das montanhas da ilha sul neozelandesa, no Mount Cook National Park
Cenário do filme O Hobbit
Hobbiton, a vila dos Hobbits, onde foram filmados O Hobbit e Senhor dos Anéis

Resultado de quase uma vida dedicada à criação dos elementos que compõem esse vasto universo mitológico, o livro O senhor dos anéis é muito mais do que uma história de fantasia ou de aventura. Por trás do enredo que conduz a narrativa, há o trabalho engenhoso de um professor de literatura inglesa da Universidade de Oxford, importante filólogo, apaixonado pelas línguas antigas.

Artífice de um mundo mágico constituído pelo seu conhecimento de linguística, pelas experiências pessoais (combater na Primeira Guerra) e pela sua própria inventividade, Tolkien não poupou esforços para fazer dessa criação imaginária algo factível e concreto.

A Terra Média representa isso. Sua vasta extensão, suas montanhas, seu relevo único, suas florestas, seus castelos e reinos, seus monumentos, cada um desses aspectos é ricamente descrito nas mais de mil e duzentas páginas dos três volumes.

São diversos territórios, habitados por diferentes seres. Com línguas distintas e identidades culturais singulares, eles se expressam por meio da vestimenta, das armas (formas e usos), dos designs arquitetônicos, da relação com a natureza, da organização social, da música e de outras características que constituem esses conjuntos simbólicos.

 Mont Sunday: inspiração real para a cidade de Edora, no reino de Rohan
Mont Sunday: inspiração real para a cidade de Edora, no reino de Rohan

Para o jovem Peter Jackson em sua viagem de trem, ver as paisagens da Nova Zelândia era como visualizar esse universo único descrito por Tolkien. Essa era uma das principais motivações para realizar o longa-metragem naquelas ilhas do pacífico.

O filme tinha que retratar a riqueza da natureza exuberante e diversa que existe no país. Para isso, equipes de produção percorreram todos os cantos da nação em busca de locações. Para o diretor, era como escalar atores. De um lado, ele via o potencial dos panoramas para a tomada de cenas e construção da narrativa. Por outro, avaliava como o cenário representava o ambiente descrito por Tolkien.

Mais de 150 locais diferentes nas ilhas norte e sul foram usados nas filmagens. Com o tamanho um pouco menor que o estado do Rio Grande do Sul, o país que representa visualmente a Terra Média é relativamente pequeno e de fácil locomoção.

Tendo essas proporções, estando em qualquer lugar do território o visitante dificilmente estará a uma distância superior a 100 ou 150 km de uma locação. Com as filmagens de O Hobbit, as chances aumentam ainda mais, já que foram incluídas outras regiões que ainda não haviam sido utilizadas anteriormente.

Processed with VSCOcam with c1 preset
O rio Anduin, que leva aos monumentos Argonath

O país que antes era conhecido pelo haka maori, pelas ovelhas e pelos esportes radicais, desde o lançamento de A sociedade do anel nos cinemas, conquistou uma nova identidade e um novo símbolo, orgulhosamente ostentado pela população neozelandesa: o de Terra Média.

O gigantesco impacto do filme nas ilhas foi contagiante e fez com que aquele pedaço do globo ganhasse uma atenção especial por todos os fãs da mitologia criada por Tolkien.

Muitos itinerários podem ser percorridos para se aventurar na Terra Média. Há opções que se distinguem no preço, no tempo para percorrê-lo e no modo de transporte utilizado.

Algumas locações são de difícil acesso, sendo necessário um veículo 4×4 ou, dependendo da vista e do lugar que queira ir, um helicóptero. É preciso lembrar também que algumas cenas foram filmadas dentro de propriedades privadas e estas, em alguns casos, só autorizam a entrada de tours específicos.

O Tongariro National Park abriga os vulcões Tongariro, Ngauruhoe e Ruapehu, e é cenário para o Mount Doom, vulcão citado na obra de Tolkien
O Tongariro National Park abriga os vulcões Tongariro, Ngauruhoe e Ruapehu, e é cenário para o Mount Doom, vulcão citado na obra de Tolkien

Mas tudo isso depende do preciosismo do visitante para ter exatamente o mesmo ângulo usado na câmera, entre outras coisas. No geral, não é complicado para conhecer. O ideal é percorrer o país todo de carro/ônibus, por conta própria ou como parte de um ou mais tours.

Se não tiver tempo suficiente, o melhor a fazer é escolher alguns pontos específicos, voar para lá e ver o que há no entorno. Por exemplo, ir até Auckland e de lá pegar um voo para Wellington e depois outro para Queenstown, que são cidades com muitas opções próximas.

Pesquise bastante pela internet. Hoje em dia, há muita informação em blogs, sites de viagem e em vídeos no YouTube. E tudo feito por brasileiros, na maioria apaixonados pelos livros de Tolkien e pelos filmes de Jackson.

Se souber inglês, melhor ainda: são muitos os roteiros disponíveis, os fóruns de fãs que visitaram o país, assim por diante. Independente do que pensar em fazer, o certo é que a Terra Média sempre estará próxima, seja numa estátua no aeroporto, seja numa loja de souvenirs.

A reserva Takaro, em Te Anau, deu cara à Fangorn Forest, da obra de Tolkien
A reserva Takaro, em Te Anau, deu cara à Fangorn Forest, da obra de Tolkien

Enfim, esta é uma pequena introdução para instigá-lo a procurar saber mais sobre a Terra Média pensada por Peter Jackson a partir dos livros de J. R. R. Tolkien (e para que, quem sabe, não possa visitá-la algum dia). Mas esperamos que vá além.

A recompensa por buscar essas informações e outras sobre o mundo da Terra Média é o prazer de entender a produção desse filme notável e de querer saber mais sobre os livros, sobre a história do autor, enfim, sobre o mundo que esse fantástico escritor criou.


MAPA: ALGUMAS LOCAÇÕES DE SENHOR DOS ANÉIS


PARA LER

  • O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien
  • O Hobbit, de J. R. R. Tolkien