por Leonardo de Lucas


Em setembro de 1786, o então conselheiro de Estado e ministro do duque Saxônia-Weimar, escritor já famoso por Os sofrimentos do jovem Werther, desaparece, sem deixar comunicado prévio, da estação balneária Karlsbad.

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe
O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe

Viajando em segredo e com nome falso, chega ao destino que sonhava desde pequeno, quando apreciava quadros da cidade na sala de seu pai. Registra-se numa pensão na Via Del Corso como “Johann Philipp Möller, pintor artístico da Alemanha”. Goethe está em Roma e o contato com a Antiguidade Clássica será fundamental para a constituição das bases estéticas de seu Classicismo.

O desejo de conhecer a Itália faz com que o escritor percorra o país até abril de 1788, passando boa parte desse período em Roma. Essa experiência é registrada décadas mais tarde sob o título de Viagem à Itália.

Composto de cartas e diários, o texto destaca a mudança profunda que se operou em seu desenvolvimento intelectual e pessoal e em sua percepção sobre a arte. As referências a essa mudança são uma constante no livro: o poeta alemão crê “ter mudado até os ossos”; considera o dia em que chegou à cidade como o momento de seu “segundo nascimento”, de um “verdadeiro renascimento”; depois de um ano vivendo em Roma o autor sentencia:

“Não estou aqui para gozar a vida a minha maneira; quero dedicar-me às grandes coisas, aprender e formar o espírito antes de chegar aos quarenta anos (…) mal me reconheço; pareço a mim mesmo uma pessoa totalmente diferente. Ontem, pensei comigo: Ou você era louco antes ou tornou-se agora”.

Essa viagem foi uma viagem ao interior de si, de sua formação (Bildung) como escritor e como esteta. Durante o período em que viveu na península, buscou uma vida simples, apreciou as cores e os cheiros das frutas, estudou a natureza em suas diversas formas, viu de perto o carnaval e se impressionou com a vivacidade da história e do povo italiano.

Em trechos de suas belas e eróticas Elegias Romanas, Goethe destaca a importância da cidade e do amor latino na Antiguidade:

“És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor

O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.”

O museu Casa di Goethe

FACHADA DA CASA DI GOETHE EM ROMA, ITÁLIA
FACHADA DA CASA DI GOETHE EM ROMA, ITÁLIA

 

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A poucos metros da conhecida Piazza del Popolo, num edifício de esquina, em meio a vitrines com lojas de roupas, encontra-se uma grande porta de madeira com uma placa vermelha: Casa di Goethe.

É preciso concentração no mapa para encontrar o número 18 dessa rua agitada. Nas sacadas do piso superior, duas bandeiras ficam hasteadas para ajudar na localização. Trata-se da hospedagem em que viveu Johann Wolfgang von Goethe durante sua estadia na cidade.

Na pensão o escritor encontrou o pintor alemão Johann Wilhelm Tischbein. Os dois já se correspondiam por carta, mas esta foi a primeira vez que se encontraram pessoalmente.

Ambos tinham um profundo interesse sobre a Antiguidade Clássica e tal fato os aproximou ainda mais. O relacionamento rendeu pinturas emblemáticas sobre o período em que Goethe passou na Itália.

A mais importante é a intitulada Goethe na Campanha Romana. Numa visão idealizada, cercada por ruínas romanas, o autor de Fausto é retratado de maneira clássica, vestido de maneira impecável e sentado ao ar livre.

Outra pintura de Tischbein é a que representa Goethe olhando o movimento da rua pela janela da pensão. Réplicas dos dois quadros são encontradas na Casa di Goethe, assim como uma do retrato de Andy Warhol, de 1982, feito com base na imagem da campanha romana. Também há uma enorme cópia do busto de Júpiter, comprado pelo escritor enquanto viva ali.

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Infelizmente, fora essas referências, não há mobília ou objetos pessoais que facilitem a compreensão de como foi esse período na vida do escritor.

Nas paredes dos cômodos encontram-se trechos do livro Viagem à Itália. Fazem parte de uma exposição permanente que tem como foco a jornada do autor no país e sua permanência em Roma.

Há um espaço dedicado a exposições temporárias sobre temas germano-italianos. Outro aspecto interessante é a biblioteca com livros do autor (primeiras edições) e com vários outros títulos que abordam a temática goethiana.

A Casa di Goethe passa por reformulações e novos espaços estão sendo inaugurados e programados. Acervos importantes sobre a arte e a cultura alemãs passam a fazer parte de suas coleções. Inaugurado em 1997, é o único museu alemão fora da Alemanha.

Com eventos culturais em alemão e italiano, como palestras, leituras e colóquios, a Casa di Goethe é considerada um lugar de encontro artístico, científico e cultural.

SERVIÇO

  • Via del Corso 18 – Roma
  • De terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada às 17:30h). Entrada: adultos, 5 euros; estudantes, 3 euros; cartão família, 11 euros; gratuito para crianças menores de 10 anos.
  • Visitas guiadas com agendamento: 35 euros, máx. 25 pessoas. (aos domingos, às 11h, visitas guiadas gratuitas em italiano). A exposição permanente conta com três línguas: alemão, italiano e inglês.
  • Tel: 0039 06 32 650 412 | info@casadigoethe.it

PARA LER

  • Viagem à Itália, Johann Wolfgang von Goethe
  • Elegias romanas, Johann Wolfgang von Goethe