por Marina Rocha Alves*

VISITADO

Imagine o seguinte cenário: um lindo e enorme parque, cheio de verde, paz e tranquilidade, com a presença de belas aves e esquilos. Há um clima agradável, cheiro de mato, flores das mais diversas espécies, e uma linda vista da serra.

Agora, imagine diversas galerias de arte contemporânea e esculturas espalhadas por este lugar. Imaginou? Esse paraíso existe: é o Instituto Inhotim que, ao vivo, supera a nossa imaginação e expectativa.

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Foto: Marina Alves

Visitar Inhotim é uma experiência única de contemplação da arte humana e da natureza. Não é à toa que o instituto frequentemente aparece em listas de lugares que você tem que conhecer no Brasil.

São 23 galerias e 22 obras e esculturas ao ar livre, além de diversos destaques botânicos.

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Foto: Marina Alves

Considerado o maior museu a céu aberto do mundo, Inhotim fica no Vale do Paraopeba, na cidade de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, e está completando 10 anos em 2016.

[button url=http://google.com icon=pin]Inhotim, Minas Gerais [/button][put_wpgm id=151]

O projeto de unir arte e natureza começou a ser pensando por Bernardo Paz em 1980, e a inauguração ao público aconteceu em 2006.

Nestes dez anos de funcionamento, foram mais de dois milhões de visitantes de várias partes do mundo, número que tende a aumentar com a comemoração de uma década neste ano.

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Foto: Marina Alves

O lugar, que já foi uma fazenda, realmente é encantador e transmite uma harmonia entre arte contemporânea e natureza no mesmo espaço. Espaço, aliás, enorme: a área de visitação é formada por cerca de 140 hectares (ou 140 campos de futebol!).

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Foto: Marina Alves

As galerias e obras de artes estão organizadas em três circuitos de visitação: amarelo, rosa e laranja, impossíveis de serem realizados em um único dia (em dois dias, já dá para visitar todo o complexo).

O mapa recebido na chegada ao Instituto ajuda a guiar a andança por trilhas e lindos caminhos, lagos, áreas de descanso, belas árvores e vistas.

Os monitores super simpáticos também auxiliam a jornada e passam informações valiosas que aumentam a sensibilidade do visitante ao apreciar e interagir com as obras.

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Foto: Marina Alves

LITERATURA RUSSA EM MINAS GERAIS

E por que Inhotim é um roteiro literário? Porque aqui também tem literatura. E das boas!

A galeria 11, chamada Galpão, está dentro do circuito laranja. É uma das maiores galerias de Inhotim e, atualmente, é ocupada por uma videoinstalação do artista sul-africano William Kentridge. A obra I am not me, the horse is not mine (2008) é inspirada e celebra um dos mais populares e tradicionais contos da literatura russa:  “O Nariz” de Nikolai Gógol, de 1836.

Clique aqui e leia o conto na íntegra.

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Foto: Marina Alves

Um acontecimento bastante inusitado acontece no conto de Gógol: um belo dia, o arrogante oficial Kovaliov acorda sem o seu nariz, que resolveu se emancipar e ter vida própria.

Não bastasse a independência, o nariz começa a trabalhar em um cargo superior ao do seu dono.  Inconformado, Kovaliov parte em busca do nariz pelas ruas de São Petersburgo e passa por diversas situações engraçadas e constrangedoras.

O conto é narrado em tom cômico e satírico e faz diversas críticas à burocracia, aos privilégios do funcionalismo público, à corrupção, à hierarquia social e às relações de classes, ao sistema político e ao imperialismo russo vigente no século XIX. “Coisas absurdas acontecem” reflete o narrador, parecendo se referir não apenas ao sumiço do nariz.

Ao entrar no Galpão, já é possível sentir um clima diferente. O ambiente escuro, devido às oito projeções de grande escala, e a música alta e envolvente proporcionam uma espécie de imersão, como se fosse um enorme cinema (cadeiras em frente aos telões reforçam essa impressão).

São oito vídeos simultâneos com trilha sonora única de cerca de seis minutos, em loop.

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Foto: Marina Alves

Nos vídeos de Kentridge, há referências ao conto gogoliano (e às peripécias do nariz) e à história da Rússia: pequenos trechos de filmes com imagens da Revolução Russa, de manifestações civis, discursos de Stalin, movimentos da bailarina Anna Pavlova formam um conjunto em uma das projeções.

Nas outras, vê-se um bailarino apresentando uma dança típica russa, cenas de performance do próprio artista, uma pequena história que se passa em um plenário do partido comunista na qual há apenas legendas em um fundo escuro, e diversas animações em stop motion, colagens e desenhos em carvão.

Além de aparições do cavalo (presente no nome da videoinstalação) em alguns momentos, existe a frequente presença do nariz em diversos formatos, como substituto das cabeças de pessoas, em manifestações civis e em situações cotidianas e de domínio.

Assim como algumas animações, a música de Phillip Miller, também é uma colagem de sons, ritmos e vozes. Aliás, a própria videoinstalação é uma espécie de colagem de diversas linguagens que transmitem narrativas diferentes e complementares, com um viés crítico e humorístico tão peculiar de Kentridge e de Gógol.

I am not me, the horse is not mine já esteve em exposição na 1ª Bienal de Sidney em 2008, no Moma em Nova York no ano de 2010, e no Tate Modern em Londres de 2012 a 2013.

A videoinstalação está em Inhotim desde outubro de 2015 e deve ficar em exposição por dois anos.

A mistura de um relevante conto de um dos ícones da literatura russa e da criatividade em diversos formatos de um multiartista sul-africano resultaram em um trabalho fascinante. Para quem curte literatura, o Galpão é a galeria que não pode faltar no roteiro de visita ao Instituto Inhotim.

CONHEÇA GÓGOL E KENTRIDGE

Nikolai Gógol é um dos grandes nomes da literatura russa da primeira metade do século XIX. Apesar de ser enquadrado por muitos críticos como um representante de expressão satírica da realidade russa da sua época, muitos elementos fantásticos e bizarros estão inseridos em seus escritos.

O absurdo que surge do cotidiano serve como metáfora e crítica aos disparates do czarismo russo. Dualidades como fantasia e realidade, tragédia e comédia, e melancolia e alegria são encontradas em toda a obra do autor.

Sua influência foi bastante forte entre os escritores russos; é famosa a frase de Dostoiévski: “Todos nós saímos de ‘O Capote’ de Gógol”. Para a vanguarda russa da década de 1920, a produção gogoliana também foi inspiradora.

I am not me, the horse is not mine refere-se à uma expressão popular russa de negação de responsabilidade. A videoinstalação foi criada enquanto Kentridge produzia sua versão da ópera “O Nariz” de Dmitri Shostakovich, de 1928, também inspirada no conto de Gógol.

O artista, de 61 anos, é conhecido pela multiplicidade artística e mescla de linguagens, traduzidas em esculturas, colagens, desenhos, filmes, animações, gravuras, ópera, performance e teatro, este sendo fundamental no caráter narrativo presente em diversas obras.

Questões políticas e sociais de seu país (que se assemelham a tantos outros) são um fator marcante em toda a obra de Kentridge, consequência de sua formação em Ciências Políticas na Universidade de Joanesburgo (cidade que nasceu e vive atualmente) antes de entrar no mundo das artes.

Esta não é a primeira vez que Kentridge dialoga com a literatura. O artista inspirou-se em Machado de Assis na obra “De como não fui Ministro D’Estado” que é formada por desenhos nas páginas de uma publicação de “Memórias Póstumas de Braz Cubas”, lançada em 1946, pelo Clube do Livro.

O vídeo e o flipbook foram criados especialmente para a exposição dedicada à sua produção que aconteceu no Brasil, durante os anos de 2012 e 2013.

SAIBA MAIS SOBRE INHOTIM

Destaque de conservação ambiental, Inhotim integra a Rede Brasileira de Jardins Botânicos desde 2010, e conta com cerca de cinco mil espécies de todo o mundo.

Além do relevante acervo de arte contemporânea e da preservação da flora, há projetos educativos de formação de alunos e professores, desenvolvimento de pesquisas científicas de diversas Universidades, projetos de resgate e valorização das tradições culturais, centro de memória, escola de música, corais, seminários e shows.

Cada galeria de Inhotim tem uma concepção única: os prédios foram construídos por meio de projetos singulares e peculiaridades, desta forma, nenhuma galeria é similar a outra, e os ambientes construídos fazem parte da arte no quesito arquitetura. Alguns espaços apresentam suas características de estrutura no nome, como as Galerias Praça e Marcenaria.

Outras galerias são dedicadas exclusivamente a alguns artistas que estão em exposição permanente no parque. Nomes representativos da arte contemporânea como Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meirelles, Helio Oiticica, Lygia Pape, Claudia Andujar, Miguel Rio Branco e outros brasileiros e internacionais estão presentes em Inhotim, por meio de diversas linguagens que encantam, provocam, causam diversas sensações e reflexões e, inevitavelmente, mexem com os sentidos.

SERVIÇO

  • Endereço: R. B, 20 – Centro, Brumadinho – MG, 35460-000
  • Parque:
    Terça a sexta-feira: 9h30 às 16h30*
    Sábado, domingo e feriado: 9h30 às 17h30
  • Os horários das lojas e restaurantes podem variar. Confira no site: http://www.inhotim.org.br/visite/horarios/

Ingressos:

  • Terça e quinta-feira: R$ 25,00
    Quarta-feira (exceto feriado): entrada gratuita
    Sexta, sábado, domingo e feriado: R$ 40,00
    Fechado às segundas-feiras.
  • Meia entrada: crianças de 6 a 12 anos, idosos acima de 60 anos, estudantes identificados, professores das redes formais pública e privada de ensino identificados.
  • Crianças até 5 anos não pagam entrada

Como chegar:

  • Há vans e ônibus que saem de Belo Horizonte e levam até Inhotim, com horários pré-definidos. A média de preço é de R$60,00, ida e volta. No site estão todos os detalhes: http://www.inhotim.org.br/visite/como-chegar

*Marina Rocha Alves é formada em Letras e pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação  Organizacional, ambas pelas USP. Gosta de ouvir a história das pessoas e da sensação boa de fazer algo pela primeira vez.