por Maria Fernanda Moraes

Machadiana, ao fundo (foto: Maria Fernanda Moraes)
Machadiana, ao fundo (foto: Maria Fernanda Moraes)

img_8372Eu tinha visto no Instagram o anúncio de um exemplar de “Hell’s Angels – Medo e Delírio em Las Vegas”, do Hunter Thompson. Raridade. Lembrei que iria a São Paulo nos próximos dias e anotei na agenda: Rua Sebastião Velho, 20A, ali por perto do Pão de Açúcar da Teodoro.

Fazia tempo que eu acompanhava o Sebo Desculpe a Poeira pelas redes sociais e, agora, tinha chegado a hora de fazer uma visita ao lugar.

Entrei pela Mourato Coelho, estacionei um quarteirão antes, comprei o zona azul e segui a pé até a ruazinha miúda do sebo. Virei à esquerda e o burburinho de Pinheiros foi emudecendo à medida que eu vencia os paralelepípedos da rua.

Logo na esquina, avistei estacionado o Fiat 600, verde metálico com o logo do sebo que já conhecia por fotos também na rede social.

Atravessei a rua e fui reconhecendo a garagem pequena, com uma mesa de livros na calçada, umas duas pessoas circulando ali dentro em meio às prateleiras cheias e o dono sentado numa cadeira, na entrada.

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(foto: Facebook Desculpe a Poeira)
Literatura e Jornalismo, à direita (foto: Maria Fernanda Moraes)
Literatura e Jornalismo, à direita (foto: Maria Fernanda Moraes)

Entrei no corredor da direita, que estava vazio. “Literatura Brasileira” na prateleira principal, à altura dos olhos. “Jornalismo & Jornalistas”, ao lado. Bati os olhos num Rubem Fonseca e comecei a me sentir em casa.

Fiz umas contas rápidas na cabeça (não é meu forte, sorry) e deduzi que seriam mais ou menos vinte metros quadrados de área, com prateleiras distribuídas nas paredes laterais de cima a baixo, uma mesa ao fundo que acomoda umas quinquilharias e outra estante grande e comprida que ocupa o meio da sala também expondo uma diversidade de livros, dvds, revistas, postais e outras belezinhas.

O sebo funciona desde 2014 na garagem de um dos ‘predinhos da Hípica’ — aqueles prédios de três andares em São Paulo construídos entre as décadas de 1930 e 1950, no bairro de Pinheiros, como explica o Tumblr do lugar, que também apresenta a vizinhança: “Lá perto existem vários lugares bacanas para você visitar: o Izakaya Matsu, o Bar do Bigode, a cantina Nello’s e a hamburgueria artesanal Na Garagem.

Curiosidade bairrístico-literária: o armarinho Bazar 13, que pertencia à família do escritor Raduan Nassar (Um Copo de Cólera, Lavoura Arcaica), funcionava onde hoje fica o Pão de Açúcar, ali do lado. Outro Raduan, de sobrenome Dabus, foi quem construiu os simpáticos edifícios”.

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(foto: Maria Fernanda Moraes)

Passei, então, para as prateleiras que estavam às minhas costas, do lado esquerdo. “Machadiana”, li numa etiqueta branca escrita à mão colada na madeira. Fui percorrendo os olhos em grandes livros de crítica à obra do escritor até chegar na próxima etiqueta: “Futebol”, que também guardava bons exemplares (confesso que vi mais livros do Corinthians do que gostaria).

Recorri ao dono para perguntar de alguns exemplares específicos, mas fiquei sabendo que o meu Hell’s Angels já tinha ido embora. “Quando anuncio no Instagram, a rotatividade é grande”, me contou Ricardo Lombardi.

Ele, o idealizador do sebo, é um jornalista que abreviou a carreira para investir nesse negócio próprio. Já passou por Estadão, iG, foi editor das revistas Bravo! e VIP e, em março de 2013, quando fez uma viagem à Argentina, teve um estalo.

Flanando por San Isidro, em Buenos Aires, um sebo lhe chamou a atenção – ele já frequentava lojas de livros e discos, novos e velhos, há muito tempo. Mas ali teve um clique, ao ver aquele negócio familiar, numa tradição europeia de tocar um estabelecimento em poucos metros quadrados. Os detalhes dessa história foram contados no site Draft, na época em que o sebo foi inaugurado.

(Foto: Facebook Desculpe a Poeira)
(Foto: Facebook Desculpe a Poeira)

A maior parte do acervo do sebo veio da biblioteca de Ricardo. Ele já mantinha um blog no Estadão desde 2007 que tinha esse mesmo nome, Desculpe a Poeira, e apresentava diariamente uma curadoria de links para artigos, livros, posts e reportagens que gostava.

“A ideia do sebo surgiu como uma extensão analógica desse meu trabalho virtual que é o de selecionar e compartilhar boas leituras”, ele conta. Este, aliás, é um dos diferenciais do sebo, a curadoria. “Há uma razão na escolha dos livros que eu vendo aqui. Não é apenas um depósito. Coloco aqui os livros que eu gosto ou que foram indicação de amigos que confio”.

A inspiração para o nome veio da frase que a crítica e escritora Dorothy Parker sugeriu para o seu epitáfio: “Excuse my dust”. Apesar de ter todo o acervo catalogado digitalmente, Ricardo me contou que sabe de cabeça o que tem e o que não tem ali. E essa é a grande graça de se ter um negócio assim, pensei. Uma mistura interessante entre tecnologia e anacronismo.

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Horários de atendimento flexíveis (foto: Instagram Desculpe a Poeira)

O sebo também vende revistas antigas (coleções da Piauí, Playboy), cartões postais e uma grande variedade de vinis. Como comentei no início, vale ficar de olho nas redes sociais, onde Ricardo posta diariamente as novidades e raridades. Ele disponibiliza um email para contato e envia exemplares pelo correio.

O Desculpe a Poeira também está na Estante Virtual. Mas, se você tiver oportunidade, vá até lá pessoalmente. O clima do bairro, os vizinhos que passam e dão bom dia, o bate papo e os dedos empoeirados valem a pena.

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