por Andréia Martins, em Montevidéu


VISITADOEduardo Galeano (1940-2015) é um dos mais conhecidos escritores uruguaios. Natural de Montevidéu, ele classificava a cidade como o local onde “todos se amam sem dizer e se abraçam sem se tocar”. Entre os seus lugares preferidos da capital uruguaia estavam o Estádio Centenário e a Rambla (como é chamada a parte da cidade banhada pelo rio Plata; a Rambla 25 de agosto era a sua favorita), mas outros dois locais foram fundamentais para a sua formação.

Um deles é o Café Brasilero. Aberto em 1877, é o mais antigo café da cidade em atividade. Galeano disse mais de uma vez que era filho dos cafés de Montevidéu e aprendeu tudo o que sabia neles, “em uma época onde havia tempo para perder tempo. Foram minha única universidade”, dizia.

O ESCRITOR EM FRENTE AO CAFÉ BRASILERO (Foto: Federico Guastavino)
O ESCRITOR EM FRENTE AO CAFÉ BRASILERO, EM 2008 | (Foto: Federico Guastavino)

ÁREA INTERNA DO CAFÉ BRASILEIRO, EM MONTEVIDÉU
ÁREA INTERNA DO CAFÉ BRASILEIRO, EM MONTEVIDÉU

O café fica no meio de um dos pontos mais turísticos de Montevidéu, o bairro Cidade Velha. O visitante passa pela Praça da Independência e cruza a Porta de la Ciudadela. Segue pela movimentada Sarandí com seus comércios, livrarias e museus para todo o tipo de turista, até chegar à Praça da Constituição. Ali, descendo pelas ruelas rumo ao Mercado do Porto você vai cruzar com o Café Brasilero.

Ali, naquele prédio antigo, com diferentes pessoas entrando e saindo (de intelectuais dos tempos de Galeano a executivos, jovens alternativos e clientes das antigas), você sente todo o clima do centro da cidade. O escritor gostava de sentar na mesa ao lado do vidro que dá para a rua. O ilustre frequentador foi homenageado com um café que leva o seu nome e que mistura licor Amaretto, creme e doce de leite. O local, aliás, tem preços e pratos bem acessíveis. Por $ 130 pesos uruguaios você pode tomar o café Galeano.

  • Endereço: Ituzaingó 1447 – Ciudad Vieja. Aberto de segunda a sexta, das 9h às 20h
O CAFÉ GALEANO
O CAFÉ GALEANO

O segundo lugar é a livraria Linardi Y Risso, fundamental para a formação intelectual do escritor. Localizada a duas ruas do Café Brasilero, Galeano frequentou a livraria desde os anos 1960 (ela existe desde 1944) até seus últimos dias. O local ficou famoso por abrigar reuniões de grupos de discussão com escritores como Haroldo de Campos, Mario Benedetti, Julio María Sanguinetti, entre outros. O peruano Mario Vargas Llosa também tem na livraria um de seus refúgios literários, como indicava um cartaz logo na entrada, no dia da nossa visita, com uma dedicatória do autor: “Muitos dos livros que tenho consegui nesta maravilhosa livraria”.

A livraria tem um tom clássico. Enquanto o jazz toca na rádio, você caminha pela pequena livraria e se sente como num sebo já que ali há livros novos e coleções antigas, com obras amarelados e já se desfazendo devido ao tempo. Há também as encadernações clássicas de capa dura e letras douradas.

O diferencial do lugar é ter publicações diversas sobre a América Latina. Há obras sobre política, formação da identidade latina, geografia, arte, tudo o que se pode pensar, e ainda um rico acervo de jornais, o que faz a livraria ser muito visitada por pesquisadores. Eles também organizam bibliografias sob encomenda e oferecem livros descatalogados.

ENTRADA DA LIVRARIA LINARDI Y RISSO
ENTRADA DA LIVRARIA LINARDI Y RISSO

 

A ÁREA INTERNA DA LIVRARIA
A ÁREA INTERNA DA LIVRARIA

 

UM RECADO BEM-HUMORADO NA LIVRARIA DESTINADO AOS QUE NÃO TEM MUITO CUIDADO COM OS LIVROS...
UM RECADO BEM-HUMORADO NA LIVRARIA DESTINADO AOS QUE NÃO TEM MUITO CUIDADO COM OS LIVROS…

Um episódio emblemático foi a inesperada visita do escritor chileno Pablo Neruda. “Foi numa manhã qualquer no final da década de 1950”, diz o relato no site da livraria, que Neruda entrou pela primeira vez na Linardi y Risso. O chileno gostava de incluir em seus roteiro livrarias e museus que considerava “originais”.

O relato continua: “Rapidamente simpatizamos. Nunca foi nosso costume tentar vender mais no menor tempo possível, mas, pelo contrário, ir devagar, mostrando as publicações e salvar alguma coisa para o final sempre. Mas sua ansiedade quebrou a nossa parcimônia. Don Pablo não era o tipo de cliente que se senta e espera que lhe mostrem o que pode ser de interesse. Ele percorria as prateleiras e subia altas escadas agilmente antes de nosso olhar atento, temendo uma queda”.

A visita se repetiria em todas as outras vezes que o chileno esteve em Montevidéu. No livro de visitas ele escreveu: “Uma livraria que busca e preserva, e esconde a surpresa que devemos encontrar. Que delícia, ainda que não levemos quase nada!”

  • Endereço: Juan Carlos Gómez, 1435 – Centro. Abre de segunda a sexta, das 10h às 18h.

 


PARA LER

  • As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano (L&PM)
  • O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano (L&PM)
  • Memória do fogo, Eduardo Galeano (L&PM)
  • Dias e Noites de Amor e Guerra, Eduardo Galeano (L&PM)