por Leonardo de Lucas

 


Depois de sua rápida primeira visita ao país, em 1936, Stefan Zweig prometeu aos repórteres que voltaria para escrever um livro a respeito dessa nação que tanto o impressionou com o carinho e com seu povo.

Quatro anos depois, em agosto, o autor realizaria o desejo expresso aos jornalistas. Por seis meses, o escritor austríaco viajou de norte a sul, conhecendo parte da gigante terra tupiniquim. Como resultado da empreitada, surgiu o polêmico Brasil, um país do futuro.

Apesar de ter percorrido cidades diferentes como Salvador, Recife, Belém, São Paulo e Belo Horizonte, é sobre a capital do país que Zweig dedica maior atenção e despende mais tempo, é nela que se debruça a explorar seus encantos e conhecer seus contrastes. Por conta disso, essa publicação destaca alguns lugares e algumas impressões de Zweig sobre o Rio de Janeiro de 1940.

O retrato que o escritor austríaco de origem judaica faz sobre o país precisa ser entendido em seu contexto. Zweig, como diz Alberto Dines no prefácio do livro, “viu no Brasil uma alternativa ao ódio que grassava a Europa.

As ideias de Gilberto Freyre sobre a miscigenação racial e as de Sérgio Buarque de Holanda sobre a “cordialidade” brasileira circulavam há poucos anos porém em círculos restritos. Zweig recortou-as perante as agruras do momento.”


Zweig sobre a beleza do Rio

“A beleza dessa cidade e dessa paisagem é difícil de ser reproduzida em palavras ou em fotografias por ser demasiadamente diversa, heterogênea e inesgotável. Uma vida inteira não seria suficiente para um artista que quisesse representar o Rio em sua totalidade com todas suas milhares de cores e cenas, pois aqui a natureza, em um capricho único de prodigalidade, concentrou em um só espaço todos os elementos da beleza paisagística que normalmente distribui com parcimônia e aos poucos por países inteiros”.

Igreja de São Bento

“Essa igreja de São Bento escapou às transformações dos séculos, entrincheirando-se corajosa e solitariamente desde o primeiro dia em um morro. Assim, esse prédio, cuja construção começou em 1589, conservou-se como o único memorial imponente – e não esqueçamos: uma obra de arte do século XVI, para o mundo novo, é tão antiga como, para nós, o Parthenon ou as pirâmides.

Solitária nas alturas, a vista ainda não encoberta pelos prédios, olhando livremente para todos os lados, a igreja de São Bento representa um maravilhoso pedaço de beleza e de tranquilidade nessa cidade que avança agitada, barulhenta de cores e ruídos. Só ali o tempo parou no Rio, só ali o desejo impaciente de renovação ainda não conseguiu mudar nada.

A velha ladeira irregular que conduz morro acima ainda é a mesma que os peregrinos subiam há trezentos anos, e do mesmo terraço do qual se avistavam antes os galeões portugueses e os veleiros estreitos olha-se hoje para os transatlânticos que lenta e majestosamente seguem o caminho.”

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Praça Paris

“A preciosa avenida que acompanha as praias, que à noite brilha com mil pérolas de luz, só começa quando deixamos a avenida Rio Branco. A Praça Paris, onde se inicia é ao mesmo tempo seu fecho artístico. O nome Praça Paris não é por acaso.

Sem dúvida, os arquitetos urbanistas franceses que fizeram o projeto pensaram na Place de La Concorde quando esta brilha à noite com suas lâmpadas redondas em arco. Mas a Praça Paris ainda tem a vista da baía com suas ilhas e montanhas. O luxo urbano se une aqui à natureza perdulária em um quadro inesquecível.

Entre o mar azul e as fileiras brancas das casas existe uma larga faixa verde, e o céu repousa aberto sobre as copas desses parques, atravessado por automóveis e ônibus azuis, vermelhos, verdes, amarelos, que correm como animais selvagens, mas sem confundir o olhar com seu barulho, como acontece nas outras ruas.

Aqui, o olhar pode descansar e observar o que quiser: a linha movimentada dos palácios e hotéis, a baía aberta com a moldura branca e Niterói e seus navios e barcas, ou então, nas colinas sobre as casas, a nobre e antiga igreja branca Nossa Senhora da Glória, que se destaca das encostas maciças como se a cadeia de montanhas fosse um cenário.”

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Avenida Atlântica

“A avenida Atlântica, a fachada de Copacabana, é a praia de luxo. Tem um hotel famoso, os cafés obrigatórios com música de ciganos, um cassino e a larga calçada para pedestres. Tem seus costumes próprios.

Só aqui se veem – assim como nas estações de veraneio europeias e americanas – moças de calças ou homens de camisa esporte sem casaco (o que normalmente é proibido e impede até a entrada em restaurantes e bares).

Aqui podemos nos sentar ao ar livre nos restaurantes e cafés. Não há lojas, caminhões, pois essa praia quer exclusiva do luxo, da diversão, dos passeios, das cores, do prazer físico e visual. Essa avenida é, por assim dizer, a cabine de luxo para o banho gigantesco na praia enorme que, em determinados dias, reúne centenas de milhares de pessoas, sem por isso ficar superlotada.

Às vezes, temos a sensação de que essa praia não faz parte da cidade do Rio, de que apenas se parece com a de Nice, sendo muito mais grandiosa, tendo sido artificialmente anexada a uma grande metrópole de trabalho e atividade em favor dos estrangeiros e das pessoas acostumadas ao luxo, só posteriormente sendo integrada ao organismo. (…) Se Copacabana não é o coração do Rio, é o pulmão que faz a cidade respirar.

Mas, com toda a sua beleza, uma coisa é simbólica: o fato de que, estando sentado nessa praia ou em pé, o Brasil fica de costas. Pois essa avenida olha – sem dúvida, atravessando todo um oceano – para a Europa. É tão europeia quanto a avenida Rio Branco trinta anos atrás pretendia ser europeia, e é típico o fato de que os estrangeiros e viajantes gostam mais de morar na avenida Atlântica do que os verdadeiros cariocas, que ali se sentem mais hóspedes do que em sua própria casa.”

Ruas pequenas

“Mais do que do seu fausto brilhante, gosto das ruas pequenas, sem nome, para as quais ninguém atenta, por onde podemos caminhar sem saber para onde, que nos encantam incessantemente com pequenos charmes naturais, meridionais, e que parecem tanto mais românticas quanto mais pobres, primitivas e despretensiosas são.

Mas mesmo as mais pobres – e justamente essas – são cheias de cor e vida e imagens variadas. Impossível se saciar de vê-las. Nada nelas é artificial, feito para o turista estrangeiro, nada é pitoresco, e seu encanto não está na arquitetura, na estrutura, mas precisamente no contrário, vivaz barafunda, no acaso que torna cada uma dessas ruelas atraente, cada uma delas do seu jeito.

Caminhar – para mim, um velho prazer – transformou-se em vício no Rio. Quantas vezes saí para caminhar quinze minutos e, seduzido por uma ruela depois da outra, voltei depois de quatro horas sem me lembrar do percurso ou de qualquer nome nessa cidade das eternas descobertas e dos eternos encantos. E, mesmo assim, nunca tive a sensação de haver perdido tempo inutilmente.”

Viajar no Brasil significa sempre descobrir coisas novas e ter que abrir mão, pois uma só pessoa vê só uma parte, ninguém conhece o todo. Mas quem é sábio saberá sentir gratidão e resignar-se na hora certa: por essa vez basta! (…) Quem realmente é capaz de sentir o Brasil viu beleza suficiente para a metade da vida – Stefan Zweig

Contrastes

“Para emocionar, uma cidade precisa ter em si tensões fortes e contrastes. Uma cidade que é só moderna é monótona, uma cidade atrasada se torna desconfortável com o passar do tempo. Uma cidade proletária traz tristeza, e um local de luxo provoca tédio e mau humor depois de algum tempo.

Quanto mais camadas uma cidade possui, e em quanto mais matizes de cores seus contrastes se graduem, mais atraente será: assim é o Rio de Janeiro. (…) De uma certa forma, a força da natureza não suprime os contrastes, mas os suaviza. E essa constante e suave convivência dos contrastes me parece ser a maior característica do Rio de Janeiro.

O edifício e o barraco, as avenidas suntuosas e as ruas estreitas de casas baixas, a praia rasa e os morros que erguem altivos as suas cabeças – tudo aqui parece mais se complementar do que se hostilizar. Aqui a vida tem liberdade (…).

O que normalmente fica segregado com hostilidade ou desconfiança, aqui se combina livremente. Quantas raças encontramos nas ruas: o senegalês negro de roupa rasgada e o europeu de terno bem-talhado, os índios com seu olhar grave e cabelos pretos e lisos e, no meio disso, em centenas e milhares de matizes, as mesclas de todos os povos e nações – mas sem estarem separados em bairros como em Nova York e outras cidades, ora negros, brancos, mestiços, italianos, brasileiros, japoneses. Tudo se mistura, e, com a variedade das fisionomias, a rua se torna um quadro em constante mutação.”

Jardim Botânico

“Por isso, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que segundo todos os especialistas (eu não sou um deles) é também o mais diversificado do mundo, é tão maravilhoso e benfazejo. Nele existe tudo o que a mata virgem contém, mas sem sustos – sua infinitude, a impenetrabilidade, seus perigos.

Há todas as árvores, as plantas, todos os fenômenos dos trópicos em seus grandiosos exemplares, e podemos admirá-los sem esforço. Já na entrada, a aleia de palmeiras é um quadro maravilhoso, aquela aleia triunfal que o rei Dom João VI mandou fazer há quase um século e meio e que é tão magnificante simétrica e firme como as colunas de um templo grego milenar.

Já vi inúmeras palmeiras, aqui no Brasil e em outras partes, mas penso que nunca vi como pode ser majestática, como pode ser verdadeiramente régia uma palmeira antes de ter visto esta: ereta como uma vela, o tronco admiravelmente redondo e revestido de uma couraça de malhas finas e lá em cima a coroa.”

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Corcovado

“É fácil satisfazer esse desejo, pois nem podemos chamar de excursão a subida ao Corcovado, que se eleva setecentos metros acima da cidade – ou, na verdade, meio a ela – e segura sua cruz iluminada à noite com um gesto grandioso abençoando a baía de Guanabara. (…) E ali se descortina um panorama inesquecível.

Finalmente se vê toda a cidade com sua baía, suas montanhas e sua praia! Finalmente se veem o seu traçado em linhas desenhadas azuis, verdes e brancas e, ao mesmo tempo, sua magnificência. Com o vento soprando, apoiado na estátua do Redentor, abarco todo o panorama. É realmente a vista de todas as vistas e, no entanto, impossível de ser fotografada, como tudo no Rio, por ser excessivamente dilatada em todas as suas perspectivas.

Pois a vista está por toda a parte – à direita e à esquerda, para leste e para oeste e norte e sul, ali o mar, infinitamente azul, acolá a serra de Teresópolis, ali a planície e as praias e a baía e a cidade. Só agora, a partir da perspectiva dos pássaros, compreendo essa combinação única.”

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Bondes

“Será que também os velhos bondes abertos correm o risco de desaparecer e serem substituídos por carros fechados, “modernos”? Seria uma pena enorme, pois eles conferem às ruas do Rio um brilho especial.

Que espetáculo, do qual nunca nos cansamos, ver esses bondes abertos superlotados, em cujos estribos os homens ficam pendurados como cachos de uvas! E à noite, quando trafegam e a luz do seu interior do seu interior ilumina os rostos negros, morenos e claros – sempre parecem um buquê de flores colorido sendo atirado! E como é agradável viajar neles!

Nos dias mais quentes e abafados compramos por alguns centavos a brisa mais refrescante e, ao contrário do que acontece com os automóveis, aqueles caixões ambulantes, ainda vemos à esquerda e à direita as lojas, a vida.

Não há melhor forma de explorar o verdadeiro Rio, nem em veículos de turistas, nem em carros particulares, do que nesse meio de transporte das classes modestas – só graças a esses bondes e às minhas pernas creio realmente conhecer hoje o Rio.”

Bonde de Santa Teresa, no Rio
Bonde de Santa Teresa, no Rio

PARA LER

  • Brasil, um país do futuro, Stefan Zweig
  • Paraíso Utópico, TV Brasil (documentário)