por Andréia Martins


Zelia Gattai, Mãe Senhora, Sartre, Simone, Jorge Amado no Axé do Opô Afonja em Salvador (Foto: Fundação Jorge Amado)
Zelia Gattai, Mãe Senhora, Sartre, Simone, Jorge Amado no Axé do Opô Afonja em Salvador (Foto: Fundação Jorge Amado)

O que fez Jean-Paul Sartre desembarcar em Araraquara, no interior de São Paulo, em novembro de 1960? Uma simples pergunta. Mas antes, vamos voltar dois meses no tempo.

Naquele ano, Sartre aceitou o convite do escritor Jorge Amado para fazer uma viagem e conhecer o Brasil. Ele desembarcou no Recife com a mulher, a escritora Simone de Beauvoir, em 12 agosto, convidado pela Universidade Federal do Pernambuco, para participar do 1º Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária.

Quem cuidou do roteiro de passeios durante a passagem de Sartre e Simone pelo Brasil foi o casal Jorge Amado e Zélia Gatai. Eles levaram os franceses para Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza, Amazônia, Olinda, Recife, São Paulo.

Durante o passeio, Sartre deu várias entrevistas e pelo menos cinco conferências na capital paulista, uma no Rio e outra em Fortaleza.

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Casa de Cultura de Araraquara,, No local funcionou o teatro onde Sartre deu sua conferência em 1960 (Divulgação/Prefeitura de Araraquara)

Mas foi o congresso na capital pernambucana, o início de tudo nesta que foi a mais longa viagem do filósofo, que inseriu uma rota inesperada no roteiro de Sartre pelo Brasil. Isso porque no evento, um professor enviou questionou o francês sobre a conciliação do existencialismo e marxismo, ideia exposta por ele no livro Crítica da Razão Dialética, publicado naquele ano. O professor em questão era o filósofo Fausto Castilho (1929-2015), então docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara.

Sartre disse que a pergunta só poderia ser respondida pessoalmente. Os dois falaram ainda por telefone, quando o francês já estava no Rio, e ficou combinada a visita ao interior paulista.

A CONFERÊNCIA

Sarte desembarcou em São Paulo no dia 2 de setembro e foi para Araraquara, há 270km da capital, dois dias depois. A cidade com então 80 mil habitantes vivia um dia agitado: além da vista do filósofo, a Ferroviária, time local, recebia o Santos, com Pelé, para uma partida pelo Campeonato Paulista. O time da casa deu de 4 a 0 no visitante.

O filósofo participou de dois eventos naquele dia: um debate com estudantes e trabalhadores rurais no antigo Teatro Municipal, hoje onde está o atual prédio da prefeitura, e uma palestra na Faculdade de Filosofia, atual Casa da Cultura, na sala que posteriormente seria nomeada com o nome do filósofo. Os sociólogos Ruth Cardoso e Fernando Henrique Cardoso estavam na plateia.

Acompanhado por Simone de Beauvoir, Fausto Castilho e Jorge Amado, Sartre passeia com estudantes e professores pelo centro de Araraquara Fausto Castilho, Sartre, Simone de Beauvoir e Luiz Pereira (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)
Acompanhado por Simone de Beauvoir, Fausto Castilho e Jorge Amado, Sartre passeia com estudantes e professores pelo centro de Araraquara Fausto Castilho, Sartre, Simone de Beauvoir e Luiz Pereira (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)
Fausto Castilho, Sartre, Simone de Beauvoir e Luiz Pereira (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)
Fausto Castilho, Sartre, Simone de Beauvoir e Luiz Pereira (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)
Fausto Castilho, Jorge Amado, Paulo Guimarães da Fonseca (diretor da FFCL de Araraquara) e Simone de Beauvoir integraram a mesa que presidiu a conferência de Sartre (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)
Fausto Castilho, Jorge Amado, Paulo Guimarães da Fonseca (diretor da FFCL de Araraquara) e Simone de Beauvoir integraram a mesa que presidiu a conferência de Sartre (Fotos Acerco do Centro de Documentação e Memória da UNESP)

Em 1986, a palestra foi traduzida e publicada em livro pela editora Paz e Terra, em parceria com a Unesp, sob o título Sartre no Brasil – A Conferência de Araraquara. Anos depois, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, Castilho revelou que o francês preparou a palestra que depois virou livro na biblioteca de seu apartamento em Araraquara.

Sartre estenderia as conversas sobre revolução cubana, guerra na Argélia e, principalmente, filosofia – leia-se marxismo e existencialismo – com dois professores, mas dessa vez, não em algum teatro ou faculdade. O local escolhido foi o bar do Pernambuco, um pequeno boteco no centro de Araraquara cujo nome oficial era Bar e Café São Jorge (na avenida Duque de Caxias, 363). Hoje, nada ao redor do nº 363 faz qualquer menção à visita do filósofo e do bar.

Ilustração do Bar Pernambuco, que foi ponto de encontro de estudantes e intelectuais em Araraquara
Ilustração do Bar Pernambuco, que foi ponto de encontro de estudantes e intelectuais em Araraquara

A visita do filósofo do momento nos anos 1960 à cidade ganhou um dia especial Sartre através da Lei Municipal nº 5.673, de 30/08/2001, que instituiu o 4 de setembro como “Dia de Sartre no Município de Araraquara”.

Ao final do dia, reza a lenda que quando Sartre viu os torcedores da Ferroviária comemorando a vitória nas ruas pensou que todo aquele tumulto era para ele. O filósofo francês desconhecia o poder do futebol.


Aqui, matéria no canal local sobre a visita do filósofo:


PARA LER

  • Sartre no Brasil: a conferência de Araraquara, Jean-Paul Sartre

Fontes de pesquisa

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL)
Centro de Documentação e Memória (Cedem) da UNESP, sediado em São Paulo