Não fosse pelo número 33, a rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, receberia poucos visitantes ao longo do ano. No entanto, este é o endereço de um verdadeiro patrimônio da Bahia (e do Brasil): a casa do Rio Vermelho, local que foi residência de Jorge Amado e Zélia Gattai por 40 anos.

O imóvel foi comprado com a venda dos direitos autorais de Gabriela Cravo e Canela para os estúdios da MGM. Não recebera o dinheirão que se poderia imaginar, mas lhe pagaram o suficiente para adquirir uma casa na Bahia. “Comprarei essa casa com o dinheiro do imperialismo americano”, dizia o escritor, rindo.

A volta para casa era um desejo antigo do casal, que longe da terra natal vivera no Rio e na Europa. “Muitos anos haviam se passado desde os tempos de estudante do rapazinho Jorge Amado. Ele cumprira sua tarefa, fizera a vontade do pai: bacharel formado, um retrato de toga e capelo, lá estava, pendurado na parede da sala do Coronel. Escrevera não apenas um livro mas muitos livros; fizera viagens de não acabar. Deputado comunista, fora perseguido, sofrera prisões e anos de exílio. Chegara, pois, a hora de voltar definitivamente para a Bahia, sua terra, sua fonte de inspiração”, escreveu Zélia Gattai num livro de memórias da residência, A Casa do Rio Vermelho (Companhia das Letras).

Zélia viveu na casa até 2003, quando se mudou para outro endereço. Depois de sua morte a casa ficou fechada e só reabriu em 2014, com um projeto de restauração coordenado pelo arquiteto Gringo Cardia.

Nesta casa, o casal escreveu, festejou e recebeu artistas e intelectuais como Glauber Rocha, Pablo Neruda, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Roman Polanski, Jack Nicholson, Sartre e Simone de Beauvoir, só para citar alguns. Hoje o local guarda documentos, obras, cartas, roupas e diversos itens pessoais e ligados à obra do escritor que agora são compartilhados com todos que a visitam. A única exigência para quem quer conhecer o lugar está logo no capacho: “Se for de paz, pode entrar”.

O JARDIM

A visita começa pelo jardim da casa, um espaço mágico, que funcionava com refúgio para Jorge e Zélia. Não à toa, é ali que estão as cinzas dos dois, enterradas sob dois banquinhos de azulejos, feitos pelo artista Carybé, um ao lado do outro, ao pé de uma mangueira.

Ali já estão também as primeiras projeções com depoimentos sobre a vida e obra de Jorge Amado. Numa das falas, o historiador Alberto da Costa e Silva: “Quando Jorge Amado morreu enterramos nosso Homero. Ele criou mitos que vão viver para sempre, como Quincas, Tieta, Gabriela, Tereza Batista e outros”.

Não dá para discordar do especialista. Em cada canto da casa que nos lembra a história dos personagens baianos está um pouco da história do Brasil, nossa realidade, nossas falhas, nossos problemas, nossas virtudes. Somos todos personagens do autor.

PRAÇA ZÉLIA GATTAI E BIBLIOTECA

Logo após o jardim, seguimos em direção ao interior da casa, passando pela praça Zélia Gattai. Ali há um lago de sapos (no lugar de onde funcionava uma piscina e onde está boa parte da coleção de sapos do escritor, além de sapos de verdade) e diversos detalhes em azulejos espalhados pelo local. Um lugar agradável para uma tarde de calor, para receber amigos ou apenas curtir a noite.

Quem está na biblioteca da casa, logo ao lado, tem a praça como vista. Um dos atrativos da biblioteca são os quadros em formato de cordel ilustrando histórias de Jorge Amado. A sala reúne centenas de edições dos livros do casal e também exibe animações que resumem as histórias. Um ótimo atrativo para crianças.

Fachada da Casa do Rio Vermelho (Foto: Andréia Martins)

Decidimos nos mudar para a Bahia quando João Jorge completou treze anos. Nosso filho tornava-se um homenzinho, Paloma também crescia e o ambiente no Rio de Janeiro, sobretudo em Copacabana, nos assustava. Queríamos que nossos filhos vivessem em cidade mais tranquila, livres das tentações das drogas que andavam na berlinda, da maconha ameaçando os escolares, oferecida à saída das aulas. Salvador era, na época, uma cidade pacata, não chegava a quinhentos mil habitantes. Lá os meninos poderiam andar soltos, nós poderíamos dormir tranquilos. Tirar as crianças do Rio de Janeiro era assunto decidido, assunto prioritário. Existia, no entanto, ainda um motivo para essa mudança radical de vida: havia muito que Jorge sonhava voltar a viver em Salvador, comprar uma casa na Bahia.

Trecho do livro A Casa do Rio Vermelho, de Zélia Gattai (Companhia das Letras)

COZINHA E QUARTOS

A culinária baiana está muito presente na obra de Jorge Amado. Sendo assim, a cozinha da casa não poderia ser um cômodo qualquer. O local reúne diversos utensílios usados na casa e alimentos e temperos tradicionais da Bahia. Ao entrar pela cozinha, repleta de cestarias, gamelas e cheirando a pimenta fresca, o visitante poderá ver três vídeos que mostram a famosa cozinheira baiana Dadá fazendo três receitas dos livros do escritor. Na parede em cima da pia, estão cinco pratos de porcelana lado a lado e que trazem desenhos e frases de 5 personagens emblemáticos de Jorge: Gabriela, Tieta, Tereza Cristina, Vadinho e Teodoro.

Os demais quartos dividem-se em cômodos com histórias do casal, relação com a política, objetos, roupas e projeções de fotos e vídeos com imagens feita na casa. Entre as atrações estão o acervo de roupas de Jorge Amado (com suas inúmeras camisas estampadas), uma série de fotografias antigas dos autores mais jovens e uma cabine audiovisual onde são encenadas histórias curtas de Jorge Amado como Sonhos Coloridos, Ladrão Menegheti, entre outras.

Aos sábados e domingos chegavam os amigos da cidade: Marcos, Benaia, Carlos Pena Filho, Paulo Cavalcanti, Pelópidas Silveira e outros. Os carros chegavam lotados, cada qual com sua família, esposa e filhos. Inda bem que a casa era espaçosa, vários dormitórios e redes nos terraços acomodavam todo mundo. Os homens faziam ruidosas rodadas de pôquer, as mulheres jogavam canastra, as crianças se espalhavam. Fins de semanas animadíssimos com jogos e conversas de varar a noite. Das histórias ouvidas nesses encontros com os amigos pernambucanos e dos momentos de lazer e preguiça na hora da modorra, foi que nasceu a inspiração para Quincas Berro Dágua”.

Trecho do livro Casa do Rio Vermelho, de Zélia Gattai (Companhia das Letras)

A SALA

O ponto de encontro na casa era a sala de estar, onde estão os discos, peças de arte, a TV antiga e a máquina de datilografar do escritor. Conforme você passeia pelo cômodo, um áudio vai contando tudo o que aquelas paredes presenciaram, as visitas ilustres, a discussões acaloradas sobre política, os encontros criativos, composições, rodas de música e tantas outras coisas. Ao mudarem-se para a casa, os autores fizeram do local um ponto de efervescência política e cultural de Salvador. Bem ali, naquele sofá e nas singelas poltronas envelhecidas.

SERVIÇO

Casa do Rio Vermelho, 33 - Bairro do Rio Vermelho, Salvador (BA).  Terça a domingo, das 10h às 17h. Entrada R$ 20, grátis às quartas-feiras. Tel.: (71) 3333-1919. Local com acessibilidade. Recebe crianças. Possui uma lojinha e um café.

PARA LER

A Casa do Rio Vermelho (Companhia das Letras), Zélia Gattai