Mesmo sendo berço de escritores como Jorge Amado, João Ubaldo (que nasceu ali na ilha de Itaparica), entre outros nomes, se tem algo que não é fácil de encontrar em Salvador (BA) são livrarias de rua. Nos quatro dias que fiquei na capital baiana, encontrar uma biblioteca, uma livraria ou até um sebo foi quase uma missão impossível. Ou porque estão mal sinalizados (um problema crônico em Salvador atualmente, incluindo em pontos culturais importantes e famosos da cidade), estavam fechados ou porque não existem muitos mesmo.

No entanto, a gente sempre encontra alguém que resiste aos tempos difíceis e abre espaço para dezenas de prateleiras, centenas de livros. É o caso do Sebo do Brandão, o mais antigo da cidade, localizado no centro, na rua Ruy Barbosa, 15. Está na mesma rua desde a inauguração em 1969. Visitamos o local numa tarde quente de outubro. O fundador Eurico Brandão, com quase 90 anos, não estava. Quem nos atendeu foi Vera, uma das funcionárias mais antigas do sebo. “Hoje em dia ninguém mais lê, mas vamos em frente”, comentou ela.

O SEBO

Um imponente e antigo prédio marca o início da rua Ruy Barbosa. Ali, em obras no dia da nossa visita, funcionava o jornal Tribuna da Bahia. As cortinas e o letreiro antigos ainda dão o tom da importância do local.

A rua tem algumas lojas de antiguidades, um outro sebo pequeno e mais duas salas que são continuação do Sebo do Brandão, esta, a grande atração da rua,  e cuja entrada está sinalizada por uma placa amarela na calçada.

O sebo tem um espaço amplo. Há de tudo nas prateleiras e pilhas de livros que decoram o local: matemática, química, medicina, ocultismo, literatura asiática, educação, literatura nacional e estrangeira, artes. São mais de 500 mil obras em inglês, italiano, alemão, francês e português no acervo.

Ali, todos os livros são raros para os atendentes. Então negociar preços de obras raras pode ser um tanto difícil. Aliás, a cotação dos livros é feita de um jeito diferente. Por letras. Cada letra tem um valor (veja na primeira foto acima). Se p Z vale R$ 1 e você achar um livro com a marca 20Z, quer dizer que custa R$ 20. Só um jeito divertido de precificar.

Além do sebo em Salvador, o livreiro, que é um dos mais antigos do país, tem uma filial em São Paulo , administrada por um de seus filhos.  Fica perto da praça da Sé (rua Conde do Pinhal, 92), área que reúne diversos sebos na cidade.

Saí com apenas um livro na mão. Mais por promessa do que por vontade. O escolhido foi Sempre aos Domingos, coletânea de crônicas do João Ubaldo Ribeiro. Na hora de pagar, percebi que só tinha R$ 10 e fiquei com receio de que o local só aceitasse dinheiro (só na saída reparei que na porta de entrada há adesivos de todos os cartões que você pode imaginar). Então, indaguei apreensiva:

– Aceita cartão né, Vera?

– Claro. Só não passo cartão de visita porque não tem chip.