“E Goethe? Para nós, Goethe não existe mais. Himmler o aniquilou.” Quem escreveu essas palavras foi um polonês, prisioneiro do campo de concentração de Buchenwald, identificado apenas pelo seu número: 4935. Para entender o contexto desse relato, o seu significado e o que subjaz numa interpretação mais profunda é preciso conhecer a história de uma grande árvore encravada no alto de uma colina no meio de uma das florestas da Turíngia, na Alemanha.

A árvore em questão é um carvalho, um gigante de madeira com centenas de anos, situado no alto de Ettersberg, a oito quilômetros de Weimar. Mas também há outro personagem nessa história e seu nome está intimamente ligado à região: Johann Wolfgang von Goethe (1749-182). O maior representante da cultura alemã é assíduo frequentador destes bosques e neles produzirá parte de seu legado literário.

Pela Turíngia é fácil notar como o carvalho e a figura de Goethe andam entrelaçados. Muitas dessas árvores têm relação especial com o escritor. Como representante do romantismo, o poeta de Weimar apreciava incursões na natureza e a inspiração muitas vezes o levava a escrever sob a copa desses carvalhos. Um desses, talvez o mais famoso, é o que fica no topo da colina de Ettersberg.

Reza a lenda que debaixo desse carvalho Goethe escreveu a passagem de Noite de Santa Valburga, do livro Fausto, que retrata o momento em que Mefistófeles leva Fausto a uma montanha em Brocken, na cordilheira do Harz, para uma celebração noturna das bruxas. Também há a crença de que tenha sido lá que o jovem poeta escreveu A canção noturna do andarilho, que enviou em carta, em 1776, à amiga e amante Charlotte von Stein, assim como acredita-se que os dois possam ter se sentado juntos sob essa mesma copa.

Pouco mais de cento e cinquenta anos após, numa ironia sórdida, como que tivessem sido aconselhados pelo próprio Mefistófeles, membros do alto escalão nazista decidem criar em Ettersberg um espaço dedicado a celebrar o ódio, a tortura e a morte de seus inimigos políticos. Para isso, derrubam a floresta símbolo dos passeios românticos do século XVIII, e no lugar constroem um dos maiores campos de concentração alemães. A ideia inicial era que o campo se chamaria K.L. Ettersberg, mas a burguesia ilustrada de Weimar se volta contra essa intenção, tendo em vista a associação da colina com o legado de Goethe.

Heinrich Himmler, chefe da SS (Schutzstaffel) decide, então, inventar um nome, remetendo às arvores da região: Buchenwald (floresta de faias). Apesar da devastação, um carvalho é deixado intacto, aquele mesmo ligado à imagem do poeta alemão. Edifícios são construídos ao seu redor e, quando o campo de concentração começa a operar, em 1937, representações simbólicas são criadas a respeito de sua importância. Um mito era partilhado entre os guardas e depois entre os prisioneiros, o de que, de algum modo místico, a história daquela árvore estava atrelada ao destino da Alemanha. Se um dia ela caísse, a nação se extinguiria.

Memorial do campo de Buchenwald (Reprodução)

Para a SS, o carvalho era um símbolo da grande tradição cultural germânica, da qual seus membros se achavam os verdadeiros herdeiros. Entre os prisioneiros, havia muitas interpretações. Para muitos, a árvore era um escape daquele mundo infernal, uma lembrança de uma época diferente e também uma representação dos sonhos, das fantasias e das esperanças que ainda os mantinham vivos. Para os prisioneiros de origem germânica, o carvalho era a imagem do legado que deveria ser preservado e restaurado, a recordação de que os alemães eram muito melhores do que aquela prisão nefasta.

Mas era numerosa também a visão de que aquela árvore era a expressão de um mal inerente à cultura alemã, de uma força de opressão e crueldade. Nesse sentido, havia prisioneiros que torciam pelo pior, quando pensavam no carvalho. Se o mito atrelava a história daquela árvore ao destino da Alemanha, isso também dizia respeito ao futuro deles, portanto, havia uma possibilidade de fuga ou de sobrevivência dessa experiência infernal. A tal sentimento somava-se a visão explicita dos enforcamentos que eram realizados com o auxílio de seus ramos. Sua copa que servia de abrigo e inspiração à Goethe, agora tomava a vida de poetas, sacerdotes, socialistas e judeus.

Foto tirada secretamente pelo prisioneiro francês George Angeli, em junho de 1944. Na imagem, o carvalho seco e a lavanderia ao fundo. (Reprodução)

Na primavera de 1942, no entanto, a sorte começou a mudar. Apenas uma folhagem esparsa foi vista e que logo tratou de cair, antes do outono. No ano seguinte, o carvalho, que já não era verde, começou a murchar e a morrer. A casca foi se desmanchando até o tronco ficar branco e seco. Os prisioneiros olhavam aquele esqueleto nu, sombrio e envergonhado, e renovavam a esperança de que o fim daquela situação estava próximo, de que o Reich estava perdendo força. O problema era que, mesmo sem vida aparente, o carvalho continuava em pé.

Então, em um dia de agosto de 1944, bombas vindas do céu atingem vários espaços do campo. São os aviões americanos atacando fábricas de armamentos e oficinas perto de Buchenwald. Em quinze minutos o fogo toma conta do cenário todo. Da lavanderia as chamas se espalham, tomando conta do carvalho. O prisioneiro 4935 relata os eventos:

Os prisioneiros formaram uma longa fila e passavam baldes de água tirada do poço para combater o incêndio. Eles salvaram a lavanderia, mas não o carvalho. Era possível ver em seus rostos uma alegria secreta surgindo, uma vitória silenciosa: agora sabíamos que a profecia iria se realizar. Diante de nossos olhos, com a fumaça se misturando à fantasia, aquilo não era uma árvore e sim um monstro cheio de braços, murchando em meio às chamas. Víamos seus braços despencarem e o tronco diminuir de tamanho enquanto ele ruía. O monstro foi obrigado a se ajoelhar agonizando. Morra, fera, símbolo do Reich alemão.

Como foi possível chegar a este ponto? Como Weimar e o legado de Goethe estiveram vinculados a essa fábrica demoníaca de tortura e morte? Como houve, para lembrar uma frase de Stefan Zweig, “tamanha queda de tão elevado espírito”? O que há de sórdido na cultura alemã que fez com que o regimento da SS conhecido como Esquadrão da Morte se sentisse herdeiro dessa tradição a ponto de terem os melhores assentos no Teatro Nacional (Deutsches Nationaltheater) de Weimar? O que há em Weimar que fez com que Hitler a visitasse mais de quarenta vezes somente entre 1926 e 1936?

Teatro Nacional de Weimar (Reprodução)

Não é tarefa simples responder a essas questões. Por mais que se queira dissociar esses dois fenômenos, como foi a abordagem predominante na Alemanha pós-1945, não há como separá-los completamente. Há certos temas que foram muito explorados pelo nacional-socialismo e que têm relações com a tradição romântica de Weimar, como o nacionalismo e a rejeição ao Iluminismo. Durante boa parte do século XIX o projeto de criação de uma nação unificada encontrou na literatura um denominador comum, um ponto de unidade entre suas tradições e seu território na formação de um povo.

Após a formação do Império Alemão, em 1871, Johann Wolfgang von Goethe foi alçado a modelo de moral da nação e passou a personificar seus ideais. Todos os aspectos de sua vida que não tivessem estreita ligação com o nacionalismo foram descartados. Até mesmo cartas foram queimadas para subtrair o lado cosmopolita, internacionalista e europeu do poeta. Como parte dessa estratégia, estátuas não só de Goethe, mas de grandes intelectuais alemães se espalharam por todo o território do Reich.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a queda do imperador Guilherme II, a Alemanha se transforma radicalmente. Em 1919, num momento de profunda crise de identidade e de reconstrução do Estado-nação, as lideranças políticas germânicas se voltam para Weimar, tentando resgatar o país por meio de suas raízes. No Teatro Nacional da cidade é aprovada a nova constituição. O movimento não era apenas uma volta nostálgica ao período clássico, era também a marca de um novo tipo de cultura. Mas o modernismo, o cosmopolitismo e a democracia do período trazem consigo uma onda reacionária sem precedentes que reunirá conservadores, nacionalistas e extremistas de direita.

A primeira grande vitória eleitoral dos nazistas na Alemanha se deu em 1929, quando o partido foi incluído na coalizão que assumiu o governo da Turíngia. Em poucos anos, o estado passou de berço da experimentação modernista e vanguarda das artes a terreno fértil da política racial radical que mais tarde seria modelo em todo o país. Com o domínio da região, pôs-se em marcha um vasto programa para “nazificar” Goethe e para recriar uma imagem ainda mais idealizada e vinculada ao nacionalismo, agora ressaltando a sua pureza de sangue, sua linhagem ariana.

No início dos anos 1930, Joseph Goebbels e um grupo de autoridades de Weimar apresentaram a Adolf Hitler um plano para dar à casa de Goethe o status de um grande espaço de cultura e de propaganda. O Führer garantiu o necessário para o financiamento das reformas e da construção de um prédio anexo à casa de Goethe para formar o complexo do novo museu sobre o poeta. Como agradecimento, foi colocado um busto de Hitler na entrada com uma placa repleta de agradecimentos exagerados. Ao lado, havia uma “árvore genealógica” de Goethe, provando sua herança genética.

Apesar de ter tido amigos judeus, de ter trocado cartas com Napoleão, de ter sido maçom, de seu humanismo e de várias outras características que o distanciavam amplamente da imagem que os nazistas queriam edificar em torno da sua figura, Goethe foi “purificado” pela máquina de propaganda a ponto de se tornar um agente cultural a serviço de sua ideologia. Nesses termos, não é tão difícil de entender a visão dos prisioneiros de Buchenwald que torciam pela morte do símbolo goethiano. No mundo distorcido e totalitário dos seguidores de Hitler, que ressignificou, a seu modo, o passado e as tradições germânicas, Goethe era mais uma peça na construção dessa nova narrativa, era parte do legado alemão que os nazistas queriam resgatar e impor ao mundo.

Portão da entrada do campo. Ao contrário de Dachau e Auschwitz, que tem como frase Arbeit macht frei ('o trabalho liberta'), este traz a frase 'Jedem das Seine' ('a cada um, aquilo que lhe cabe'). (Reprodução)

Naquela noite de agosto de 1944 o carvalho queimou até o fogo consumir toda a alma da árvore. Na manhã seguinte, havia muito pouco do colosso que antes chamava a atenção de todos. “Nós fomos autorizados a cortá-lo, enterrar o porta enxerto e encher o buraco. Isso foi em 24 de agosto de 1944. O Reich alemão sobreviveu a esse dia por apenas nove meses”.


A disputa pelo legado e pelo símbolo de Goethe continuou após o fim da Segunda Guerra Mundial. Sob o domínio da União Soviética no lado leste do país alguns ícones alemães passaram a ter uma releitura revolucionária. Curiosamente, o diretor do museu permaneceu o mesmo: Hans Wahl. Aquele que colocou um busto de Hitler na entrada do museu era o mesmo que uma década depois faria exposições em agradecimento à libertação pelos soviéticos. O Goethe antissemita que ele ajudou a construir era agora, também sob sua influência, o herói socialista.

Foi no período da Alemanha Oriental que colocaram uma placa de pedra no que sobrou da árvore que um dia inspirou o poeta alemão. “Goethe-Eiche” (carvalho de Goethe) foi escrito ao lado de sua larga base acinzentada. Numa relação singular o monumento congrega em si elementos aparentemente díspares e até vistos como opostos em nossa civilização: cultura e barbárie. Walter Benjamin (1892-1940) foi um dos filósofos que mais explorou essa temática. De modo explícito, o toco morto traz à tona uma de suas reflexões mais conhecidas: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”.

Memorial do campo de Buchenwald (Reprodução)
Memorial do campo de Buchenwald (Reprodução)

PARA LER

Fausto, Johann W. Goethe
Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida, Johann P. Eckermann
Ladrões de livros, Anders Rydell

*Texto inspirado a partir de trechos do livro 'Ladrões de livros: a história real de como os nazistas roubaram milhões de livros durante a Segunda Guerra Mundial' e do relato do prisioneiro 4935, reproduzido em parte no mesmo livro.