A quase dez mil quilômetros de distância de seu lugar de nascimento, nos subúrbios de Munique, Julia da Silva-Bruhns Mann, em seus últimos momentos de vida, parecia querer voltar ao seu passado tropical. Seu filho mais novo, Viktor, relata que em seu derradeiro encontro com a mãe um sotaque distinto ganhava força em sua fala, agora mais lenta: um tom mais obscuro e que arrastava o ‘r’, como os brasileiros fazem com a língua alemã. Para o mais jovem dos Mann, ao morrer, Julia voltava à época de Dodô, apelido que ganhou na infância em Paraty, e o timbre que reaparecia era o do “lado de lá’, da colorida terra ensolarada”.

É desse resultado improvável e singular de uma relação entre realidades tão distintas e distantes que Julia irá construir seu próprio mundo. Como parte dos emigrados, principalmente dos que deixam seu país de origem contra a vontade, essa brasileira em solo alemão viverá uma espécie de exílio de seu paraíso infantil e será até o fim da vida uma pessoa fora do lugar, uma desterrada. Os processos pelos quais ela passou ainda criança darão o tom da radicalidade desse desenraizamento: a perda da mãe, do país em que nasceu, da língua materna, de sua religião e do pai, que a deixou em Lübeck para voltar ao Brasil. Essa sensação de não pertencer terá profundo impacto também em seus filhos e netos, não só por influência da matriarca, mas também por conta das circunstâncias trágicas que moldarão seus próprios destinos.

O Roteiros Literários traz nesta publicação um pouco da história de Julia da Silva-Bruhns Mann (1851-1923), mulher que transformou seu desenraizamento (territorial, cultural e afetivo) em literatura e que produziu, partindo de suas origens, uma representação tão rica sobre sua condição errante a ponto de fomentar a criação artística de seus filhos, entre eles os mais famosos: Thomas e Heinrich Mann. E Paraty é o ponto de partida da construção do imaginário sobre esse paraíso perdido, sobre o exílio desse sul diferente, mais alegre, colorido e vibrante, e que vai contrastar com o norte, com a imagem fria da austera Lübeck.

JULIA MANN

De Paraty para Lübeck: transformações radicais na vida de Julia

Julia da Silva-Bruhns nasceu em 14 de agosto de 1851, como ela mesma descreveu: “na selva, ao lado do oceano Atlântico, ao sul do equador, ‘entre macacos e papagaios’”. Acredita-se que tenha sido entre as regiões de Graúna e Rio Pequeno, a cerca de 30 quilômetros de Paraty. Nessa época, sua família estava vindo de mudança de Angra dos Reis para se estabelecer numa ampla casa colonial do século XVIII, sede da Fazenda Boa Vista, também conhecida como Engenho Boa Vista. Foi nesse casarão e no seu entorno que Julia, como Dodô, viveu grandes aventuras entre a rica fauna e a abundante vegetação tropical.

O pai de Julia, Johann Ludwig Hermann Bruhns (1821-1893) ou João Luiz Germano, como era conhecido por aqui, era um entre muitos alemães ricos vindos para o Brasil por conta de incentivos que a recente nação independente criara para atrair estrangeiros. Já em 1846, com apenas 25 anos, tinha propriedades em muitas localidades do sudeste. Inventivo e empreendedor, tinha um projeto inovador de navegação para o Rio Tietê, que só foi implementado mais de cem anos depois, em 1994. Apesar da diversidade de atividades, quando Julia era criança, os negócios da família giravam em torno do café e do açúcar.

A cidade de Lübeck, na Alemanha

 

Já a mãe, Maria Senhorinha da Silva (1828-1856), provinha de uma família de portugueses que já estavam na quarta geração no país. Seu pai, Manuel, era um rico fazendeiro e vivia com a mulher, Dona Maria, em Ilha Grande. É por meio da mãe que Julia conhece festas populares e religiosas como o carnaval, pentecostes e a malhação do Judas. Chamada pela pequena Dodô por “mai”, Maria Senhorinha será uma referência materna quando Julia for criar seus filhos, aos quais em vários momentos ela também se autodenominará como “mai”.

Aos cinco anos de idade, a pequena Dodô se depara com a repentina morte da mãe em consequência de um trabalho de parto. Julia assim descreve, em seu livro intitulado Da infância de Dodô (Aus Dodos Kindheit), escrito em 1903, as lembranças daquele trauma terrível:

Nos últimos tempos, quando a “Mai” permanecia quase o tempo todo deitada na rede, a menina brincava sempre por perto, ajudando-a quando podia. Um dia, mais sério que de costume, veio o pai de Dodo e conduziu a relutante filha, junto com Nenê – os irmãos mais velhos estavam no internato – até o quarto ao lado: aí jazia estendida sua bela “Mai”! Com os olhos cerrados, muito pálida, muito rígida e fria, cercada de altas velas acesas; cabelos e corpo enfeitados de flores, e nos braços um pequeno bebê morto. Dodo ficou apavorada e se voltou à entrada sem nem olhar para o “Pai”, sem saber se ele também chorava.

Apesar de sua importância na formação de Dodô, não há muitas informações sobre a sua vida. Mesmo em suas memórias, Julia não traz outros detalhes sobre a mãe que vão além de seu casamento e de sua vida doméstica. No entanto, Maria Senhorinha, a eterna “mai”, será o eixo central da constituição de um passado afetivo, associado e fundido a outras lembranças: seu país, sua infância e sua língua.

Outra personagem descrita no livro autobiográfico é Ana. Como todos os outros negros que trabalhavam para Johann Ludwig Hermann Bruhns, a ama de leite e cuidadora de Julia era escrava. Ana a acompanhou durante boa parte da infância, partilhando “todas as dores e alegrias, pequenas e grandes”. Dois anos após a morte da “mai”, Ana embarcou com Julia, seus irmãos e com o pai, Johann, num veleiro francês, numa viagem de dois meses, rumo à portuária cidade de Lübeck, no norte da Alemanha.

Ana fez o possível para amenizar o choque de contrastes vivenciado por Julia. Mas, duas semanas após a chegada, ela se viu forçada a retornar com Johann Ludwig e os filhos homens ao Brasil. Foi o último contato de Dodô com aquela que era a imagem mais próxima de sua infância, de seu recanto tropical e de sua mãe. Por meio de cartas enviadas ao pai, Julia sempre mandava lembranças à Ana. Mais tarde, soube que a ama também perguntava por ela. Logo que retornaram ao Rio de Janeiro, Ana foi alforriada.

Esse foi mais um duro golpe para Julia. Mal fora apresentada à família do pai, à sua avó alemã (Marie Luise Bruhns), ao pensionato em que passaria a viver e a estudar e já se encontrava sozinha, em meio a um universo radicalmente alheio à sua cultura, aos seus costumes e à sua forma de comunicação. Sobre esses aspectos, seu próprio filho, Thomas Mann, mais tarde iria dizer: Julia foi “transplantada”. Como uma pequena muda, foi retirada de seu meio ambiente e replantada em novo solo, composto por nutrientes estranhos e sob a ação de um clima distinto. Em seu livro de memórias, ela recorda:

Quantos contrastes faziam agora parte da vida […]. A pátria ensolarada, onde havia passado uma infância livre, cercada pela magnífica natureza; o amor de sua mãe, de Ana, dos avós em Ilha Grande e de todos os que havia conhecido e com os quais havia brincado – tudo isso se encontrava para sempre, muito atrás, e agora era como se adentrasse num mundo novo e estranho, no que se refere à paisagem e ao clima, bem como à gente, língua e costumes.

Julia vai aos poucos perdendo o contato com o país de onde nasceu. Das poucas coisas que memorizou em português, fora algumas expressões e palavras avulsas, constava uma canção infantil aprendida com os escravos da fazenda chamada “Molequinho de meu pai”, que cantava para ninar os filhos. Às vezes, arriscava-se a escrever alguma coisa na língua materna, como numa vez que se despediu de seu filho Heinrich Mann com os dizeres: “Addio mio querido Enrico, recomendarão me a Inez. Tua Mai, que tanto te estima!”.

Da infância à juventude, a pequena Dodô se transforma. A despeito das mudanças, que incluem a sua conversão ao luteranismo, Julia continuou a mesma menina curiosa e corajosa de suas histórias dos tempos de Paraty. Com a formação escolar alemã, novos anseios e habilidades foram surgindo e se desenvolvendo, mas não eram os relacionados à vida doméstica. Tal fato preocupava o pai, que ainda vivia no Brasil.

A educação completa de uma jovem não se resume a tocar bem um instrumento, dominar línguas estrangeiras ou se vestir bem. Uma moça que deseja ser independente um dia deve saber como conduzir uma casa economicamente, e, aos olhos da sociedade, a fama de ser boa dona de casa e de possuir habilidades práticas são qualidades mais úteis do que a fama de ser bela ou de possuir o dom de brilhar em público.

Julia, por influência direta do pai, se distancia de seu verdadeiro amor, Paul Stolterfoht, para casar-se em 1869 com o senador de Lübeck e comerciante Thomas Heinrich Mann. Menos de dois anos depois, nasce o primeiro filho: Luiz Heinrich Mann. O nome “Luiz” foi em homenagem ao irmão e uma referência à terra que deixou. Em 1875, nasce Thomas Mann, que herdará os olhos da mãe, negros e brasileiros na opinião do filósofo Theodor Adorno. Nos anos seguintes nascem Julia, Carla e Viktor.

Thomas Mann

 

Importância de Julia na formação artística de seus filhos

Thomas e Heinrich serão, cada um a seu modo, muito impactados pela trajetória de vida da mãe e este acontecimento terá repercussões no trabalho artístico dos dois irmãos. O fato de possuírem dentro de casa contato direto e diário com alguém que provinha de um mundo alheio ao deles, de um universo exótico repleto de narrativas fantásticas potencializará imensamente a imaginação e a curiosidade. Thomas se lembrará mais tarde que a primeira vez que ouviu falar sobre o mundo estrangeiro foi por meio das histórias de Julia sobre o Brasil.

Além disso, Julia incentivou desde a tenra idade o florescimento do lado artístico dos filhos. O convívio deles com a mãe que tocava piano, cantava e escrevia certamente exerceu fascínio. Mas, nos planos do pai, Thomas Heinrich Mann, o futuro da prole já estava previamente traçado: seguir a rota dos negócios que ele mesmo havia iniciado. A despeito dos esforços paternos empreendidos, as escolhas profissionais dos filhos não tinham sintonia com seus planos e enveredavam para a incerta e instável carreira de escritor.

Após a morte de Thomas Heinrich Mann, em 1891, a família sofre perdas econômicas consideráveis. Julia, num momento delicado, de reflexão e introspecção, parte com os filhos para o sul, em busca de um ambiente menos austero e opressivo. Munique é escolhida como o destino por ser talvez, dentro da Alemanha, o lugar mais parecido, guardadas as devidas diferenças, com o seu passado tropical. O clima boêmio e alegre da capital da Baviera liberta Julia das amarras sociais prussianas e a ajuda a buscar seu lugar.

 

Com a mudança de cidade, a presença da mãe na vida dos filhos também se intensificou, fazendo com que ela se dedicasse ainda mais a ajudá-los em suas empreitadas. Mesmo quando Heinrich teve uma briga e rompeu com o pai, foi Julia quem financiou o seu primeiro romance. Em suas cartas a ajuda monetária era um assunto constante, mas também havia muita conversa sobre o tema das obras literárias em progresso. Além disso, visitava livrarias com frequência, protestando caso os livros de seus filhos estivessem mal expostos.

Essa nova fase inaugura nos Mann a vivência de um verdadeiro fascínio pelo sul quente, sensual e livre. Thomas e Heinrich, por exemplo, passam longos períodos na Itália, buscando inspiração para seus escritos. Essa busca pelo mundo externo, pelo estrangeiro e pela alteridade se comunica de alguma forma com uma tentativa de recriar e resignificar alegoricamente o passado de Julia. Num primeiro momento, é Heinrich que, de modo quase explícito, utiliza a trajetória da mãe para, não só construir uma obra literária, mas também compreender o mundo em que vivia.

O sexto livro do filho mais velho, Entre Raças, foi escrito e quase todo inspirado na vida de Julia. Heinrich chegou a estudar cuidadosamente as memórias da mãe, Da infância de Dodô, que havia sido elaborado um ano antes, em 1903. Lola é a personagem que sintetiza essa travessia entre dois mundos distintos e seu caminho formativo faz com que ela se torne humanista e democrática, livre e libertária, justamente por transitar sem raízes. Há uma discussão de cunho político e emancipatório que reflete a sociedade alemã da época, profundamente nacionalista e patriarcal.

Thomas também se inspirou nas histórias da mãe, mas de modo diferente. O autor no início da carreira era politicamente conservador e monarquista, só depois do fim da Primeira Guerra Mundial é que reconheceu o valor da democracia na recém-constituída República de Weimar. Suas referências à Julia eram mais esparsas e só se intensificaram na fase mais madura do escritor. Em 1939, em uma carta a sua mecenas, Agnes E. Meyer, ele descreve a admiração à mãe dessa forma:

Minha herança paterna e materna divide-se exatamente segundo o modelo goethiano: do pai a “estatura”, ao menos uma dose disso, e “o jeito sisudo de ser”; da “mãezinha”, tudo que G.[Goethe] resume simbolicamente nas palavras “alegria, candura” e a “vontade de histórias tecer”, o que nela assumia formas bem diferentes, é claro. Sua natureza pré-artística e sensível expressava-se na musicalidade, em seu piano tocado com bom gosto e com a aptidão proporcionada por uma formação burguesa consistente, e em sua refinada arte de cantar, à qual devo meu bom conhecimento da canção alemã. Ela foi levada a Lübeck ainda em tenra idade e enquanto durou lá sua lida com as obrigações da casa comportou-se como uma boa filha da cidade e de seus extratos sociais mais elevados; uma corrente interior de propensão ao “Sul”, à arte e à boemia, no entanto, jamais deixou de estar claramente presente.

Em seus livros, Thomas utiliza, características que remontam diretamente à origem da mãe, como a questão da mestiçagem, o lado exótico do sul e a curiosidade pelo estrangeiro. Julia, de alguma forma, serviu como inspiração para alguns personagens, tais como: Gerda Arnoldsen, a mãe de Hanno em Os Buddenbrook; Consuelo, a mãe de Tonio Kröeger, em Tonio Kröeger; a mãe de Gustav, em Morte em Veneza; a senadora Rodde, em Doutor Fausto. A América do Sul ainda chega a ser destino de, pelo menos, dois personagens: Christian Buddenbrook e Felix Krull, de seu livro inacabado, Confissões do impostor Felix Krull.

Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, Heinrich e Thomas se veem forçados a sair da Alemanha. Seus livros são queimados em praças públicas, suas casas saqueadas e as perspectivas profissionais são aniquiladas. A vida da família é abruptamente interrompida e ceifada de seus planos futuros. Quase oito décadas depois, os irmãos fazem o caminho inverso da mãe, indo da Europa para o continente americano. Nos Estados Unidos os dois vivem o drama do deslocamento, da condição de emigrados, de serem desterrados de sua cultura e de sua pátria.

Pelo conhecimento da trajetória de Julia, Thomas, o mais alemão dos irmãos, ressignifica sua condição de exilado, sua multiplicidade étnica e cultural e sua posição política sobre o enfrentamento do nazifascismo. Nesse sentido, a herança genética incomum, a mistura sanguínea e a impureza racial são, tanto para Heinrich como para Thomas, um contraponto crítico à abominável realidade totalitária vivida no velho continente. Em conjunto dessas reflexões, uma nova forma de ver a sociedade emerge na qual os pilares essenciais para sustentá-la são a liberdade, a democracia, a tolerância, a diversidade e os direitos humanos.

Apesar dessa inegável importância relacionada de alguma forma ao passado de Julia, nenhum dos irmãos conseguiu visitar a terra da mãe. Thomas chegou a se corresponder com amigos e admiradores sobre a intenção de conhecer o Brasil. Em 1943, numa carta ao jornalista e diretor de teatro austríaco Karl Lustig-Prean ele diz:

Sempre tive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria [mein Vaterland] deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria [mein Mutterland]. Ainda chegará essa hora, espero.

No pós-guerra surgiu um esforço por parte de alguns setores da cultura, que mobilizou de Gilberto Freyre a Assis Chateaubriand, para trazer Thomas Mann ao Brasil. Infelizmente, não houve ambiente político e institucional favorável. No clima de Guerra Fria, Thomas foi visto com desconfiança pela Academia Brasileira de Letras, por conta da fama de seu irmão, Heinrich, um ativista de esquerda declarado.

Sobre a Associação Casa Mann e o destino da Fazenda Boa Vista

Em 1994, o escritor Frido Mann, neto de Thomas Mann, viaja ao Brasil para acompanhar a edição brasileira dos escritos de sua bisavó, reunidos sob o título Cartas e esboços literários. A vinda de Frido chama a atenção da mídia nacional para a casa da infância de Julia, o casarão do século XVIII da Fazenda Boa Vista, em Paraty. Dessa visibilidade, surge a ideia de criar um centro cultural de difusão do legado de Julia à família Mann e de um espaço de fomento artístico e intelectual. Entre os planos, se iniciam os preparativos para um festival em homenagem à Julia, com a realização de uma exposição, o lançamento de um livro sobre a sua vida e uma programação de música, teatro de dança e a exibição de um filme.

 

 

Em 1996 em Zurique, na Suíça, é fundada a Associação Casa Mann para preservação e uso cultural da casa de Julia. Um ano depois, realiza-se em Paraty o tão sonhado Festival Julia Mann, com parceria do Instituto Goethe de São Paulo. O Festival utilizou alguns espaços pela cidade, como a Casa da Cultura e o velho presídio no porto. No entanto, o ponto alto do evento foi a visita ao casarão da Fazenda Boa Vista. Dieter Strauss assim o descreve:

… depois da irrupção da noite, o público foi levado em pequenos botes do píer de Paraty para cruzar a baía e chegar à fazenda. Tochas acesas mostravam o caminho pelo jardim até o grande salão. Sobre o piano estava pendurado um dos retratos mais bonitos de Julia do ano de 1900, que a mostra de perfil sorrindo diante de uma chaminé de mármore. Não era sem motivos que naquela época dois irmãos artistas perguntavam-se se eles frequentavam assiduamente o salão de Munique, de Julia, por causa do encanto erótico de suas duas filhas ou justamente por causa dela. Frido Mann deu um concerto de piano em que ele tocou Mozart, que muito cativou o público especialmente para esse “ambiente de retorno.

Em cooperação com o Buddenbrookshaus (Casa Buddenbrook), de Lübeck, a exposição saiu em turnê pela Alemanha e pela Suíça. Apesar do progresso conseguido nos primeiros anos, impasses burocráticos e disputas legais tornaram a realização do centro cultural num quebra-cabeça sem solução. Questões aparentemente simples como saber quem era o dono do local exigiram muitas idas e vindas e um trabalho de investigação digno de um detetive. Com todas essas buscas e toda a repercussão do caso, a Associação Casa Mann tomou contato com outros projetos em disputa para o espaço, como o de transformar o entorno do casarão em um condomínio de luxo ou num centro de compras e até numa escola de navegação para crianças carentes.

Em 2013, após anos de processos judiciais, o navegador Amyr Klink compra o casarão. Ele já detinha o terreno vizinho, onde instalou uma marina duas décadas atrás. Seu plano inicial era montar uma escola de navegação no local, o chamado Projeto Escola Mar. Mas, por conta de questões ambientais e de patrimônio histórico e cultural, a iniciativa teve de ser transferida para Santa Catarina. Agora Klink quer construir na região um centro cultural, um restaurante, além de um alambique artesanal. O empresário também tem a intenção de fazer um espaço voltado à história de Paraty, e não à história dos Mann. Infelizmente, por conta desse desfecho, Frido Mann distanciou-se da empreitada original e agora se dedica quase exclusivamente aos seus livros.


PARA LER

Da infância de Dodô, Julia Mann

Cartas e esboços literários. Julia Mann

Julia Mann: uma vida entre duas culturas, vários autores

Terra Mátria: a família de Thomas Mann e o Brasil, Karl-Josef/Frido Mann/Paulo A Soethe

 


*Esse texto se inspirou, principalmente, no livro de memórias de Julia Mann, Da infância de Dodô, e em textos de autores como Paulo Astor Soethe, João Silvério Trevisan, Dieter Strauss, Karl-Josef Kuschel e Frido Mann presentes nos livros: Terra Mátria: a família de Thomas Mann e o Brasil e Julia Mann: uma vida entre duas culturas.

**Vale mencionar a premiada obra de João Silvério Trevisan, Ana em Veneza, publicada em 1994. Fruto de uma pesquisa intensa pela Europa, financiada pela Fundação Vitor Civita, o romance traz entre seus personagens: Julia Mann (Dodô), Ana (antiga ama de Julia), e Alberto Nepomuceno (compositor brasileiro). Eles se encontram em Veneza, no verão de 1890. Dessa inusitada conversa surgem diálogos em que eles falam sobre seus passados, sobre o exílio existencial, sobre as identidades culturais e sobre o desenraizamento próprio da situação em que viviam. Parte da narrativa resgata o passado de Julia em Paraty. Há no livro, também, uma reflexão mais profunda que envolve até mesmo o tema sobre o significado de ser brasileiro. Na Alemanha, o livro recebeu uma tradução atenta e foi um sucesso de vendas, rendendo destaque pela mídia especializada.